Papa celebra os equivalentes italianos dos estadunidenses Merton, Higgins e Berrigan

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12 Maio 2018

Os papas lideram de muitas maneiras, e um modo importante é com seus pés. O lugar que um papa escolhe visitar e o que ele faz enquanto está lá, muitas vezes, diz mais sobre sua visão e prioridades do que os documentos vaticanos cuidadosamente redigidos de 100 páginas.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 11-05-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A visita do Papa Francisco no dia 10 de maio à cidade italiana de Nomadelfia, localizada ao norte de Roma, na província de Grosseto, é um exemplo clássico nesse sentido, que oferece uma mensagem clara sobre o apoio do pontífice a uma versão politicamente relevante e socialmente engajada do Evangelho cristão.

O motivo do papa para a parada foi para prestar homenagem à memória do famoso padre italiano Zeno Saltini, que, nos anos 1950, caiu em desgraça com as autoridades eclesiásticas italianas, assim como com o establishment católico na classe política do país, porque quis criar um modo de vida que contornasse a divisão na Itália do pós-guerra entre os democratas cristãos e os comunistas.

Como apoiar os democratas cristãos era a maior prioridade percebida tanto pelo Vaticano quanto pelos bispos italianos da época, não era uma postura que fosse especialmente bem recebida. No entanto, Saltini conseguiu fundar uma comuna florescente em Nomadelfia, que tem sido descrita como uma espécie de “kibutz cristão”, onde até hoje cerca de 200 famílias católicas têm propriedades em comum e compartilham a criação dos filhos e o cuidado dos idosos.

A visita se baseia em outras viagens dentro da Itália, nas quais Francisco quis prestar homenagem à memória de padres bem conhecidos da história do “bel paese”.

Em junho de 2017, o papa fez uma visita a Barbiana, na Toscana, para prestar homenagem à memória do Pe. Lorenzo Milani, um educador de crianças pobres da metade do século XX e defensor da objeção de consciência.

Nascido em uma confortável família de classe média em Florença, os pais de Milani eram acérrimos seculares e os primeiros discípulos de Sigmund Freud. Durante os horrores da Segunda Guerra Mundial, o jovem Milani abraçou o catolicismo, tornou-se padre e começou a estabelecer suas Scuole Popolari, ou “escolas populares”, educando tanto famílias seculares quanto religiosas, e formando-as na doutrina social da Igreja.

Ao mesmo tempo, Francisco parou em Bozzolo para prestar homenagem ao Pe. Primo Mazzolari, um partigiano, ou combatente da liberdade, durante a ocupação alemã da Itália e um defensor antifascista da democracia.

Após a guerra, Mazzolari voltou suas energias para a causa da reforma da Igreja. Fundou um jornal chamado Adesso em 1949, defendendo um amor especial pelos pobres, uma simplificação da vida católica, o empoderamento dos leigos, a liberdade religiosa, o “diálogo com aqueles que estão longe”, a não violência e uma distinção entre o erro teológico e os seres humanos concretos que cometem tais erros.

Todos esses eram temas que finalmente viriam a florescer no Concílio Vaticano II (1962-1965), mas que, naquela época, marcaram-no como uma espécie de rebelde. Em 1954, Mazzolari foi proibido de falar ou de escrever fora dos limites da sua própria paróquia.

Em outras palavras, ao destacar esses padres – Saltini, Milani e Mazzolari – para um reconhecimento especial, Francisco fez uma declaração.

Para os estadunidenses, pode ser difícil avaliar o quão evocativas são essas três figuras para os católicos italianos, como elas estão identificadas com algumas das batalhas titânicas na Igreja e na sociedade do país.

Para ajudar a colocar as coisas em seu devido lugar, imagine se Francisco fosse para os Estados Unidos e fizesse questão de visitar os locais de sepultamento destes três renomados padres estadunidenses:

- Thomas Merton, o monge trapista cujos escritos sobre espiritualidade marcaram uma geração e cujas obras sobre pacifismo e diálogo inter-religioso continuam marcando os interesses da Igreja que se tornariam cada vez maiores no pós-Vaticano II e cujo local de descanso final está na Abadia de Nossa Senhora de Gethsemani, Kentucky, onde ele passou a maior parte de sua vida.

- Monsenhor George Higgins, o famoso “padre operário” dos Estados Unidos, que se envolveu com o ativismo e organização comunitários em Chicago e que continuaria sendo um grande apoiador de Cesar Chavez e do movimento de agricultores na Califórnia. Seu lugar de descanso final é o Cemitério Católico Queen of Heaven, em Cook County, Illinois.

- Daniel Berrigan, o célebre padre jesuíta, poeta e ativista antiguerra do Vietnã, que fazia parte do “Cantonsville Nine” junto com o irmão e colega padre Philip, que usaram napalm para destruir os arquivos de rascunhos do projeto em Cantonsville, Maryland, em 1968. Berrigan morreu em 2016 e está enterrado na Igreja de São Francisco Xavier, em Nova York.

Para ser claro, Merton, Higgins e Berrigan dificilmente são admirados universalmente. Assim como Saltini, Milani e Mazzolari em sua época na Itália, eles são mais sinais de contradição, vistos como heróis por alguns e como preocupantes contraexemplos por outros.

O apreço pessoal de Francisco por tais figuras na Igreja estadunidense ficou claro quando ele visitou os Estados Unidos em setembro de 2015 e incluiu tanto Merton quanto Dorothy Day, fundadora do Movimento Operário Católico, no seu conjunto de quatro estadunidenses proeminentes em seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos (os não católicos, é claro, eram Abraham Lincoln e Martin Luther King Jr.).

Se ele voltar aos Estados Unidos, e apesar do árduo itinerário que isso exigiria, provavelmente não seria tão difícil imaginá-lo passando por Nova York, Kentucky e Chicago para cimentar seus endossos a Merton, Higgins e Berrigan.

Aliás, não se deve esquecer que o fato de honrar a memória de Zeno Saltini não era o único item da agenda do papa na quinta-feira passada. Ele também fez uma parada em Loppiano para visitar uma cidade internacional dirigida pela Comunidade dos Focolares, um “novo movimento” na Igreja fundado na Itália do pós-guerra pela leiga italiana Chiara Lubich, conhecida pelo seu compromisso com a unidade e geralmente vista como menos explicitamente “política” do que as opções associadas tanto com os padres italianos ou estadunidenses mencionados acima.

Ainda assim, é difícil olhar para os movimentos de Francisco na quinta-feira e não ver uma mensagem – e para aqueles católicos que estão inclinados a uma postura mais ativista em favor dos pobres e da paz, e que estão dispostos a correr o risco de sanção eclesiástica, essa mensagem, sem dúvida, será bastante encorajadora.

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