A economia e a esperança que estão do evangelho do Papa Francisco

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13 Abril 2018

Publicamos a seguir o prefácio, escrito pelo Papa Francisco, do livro Potere e Denaro, La giustizia sociale secondo Bergoglio (Poder e Dinheiro, a justiça social segundo Bergoglio) de Michele Zanzucchi, publicado pela Edizioni Città Nuova. O prefácio é publicado por Corriere della Sera, 12-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

A economia é um componente vital de qualquer sociedade, determina em grande parte a qualidade da vida e até mesmo da morte, contribui a tornar digna ou indigna a existência humana. Por isso, ocupa um lugar importante na reflexão da Igreja, que olha para o homem e para a mulher como pessoas chamadas a cooperar com o plano de Deus também através do trabalho, da produção, da distribuição e do consumo de bens e serviços. Por isso, desde as primeiras semanas do pontificado, tive oportunidade de tratar de questões relacionadas com a pobreza e a riqueza, a justiça e a injustiça, as finanças saudáveis e as perversas.

Se hoje olharmos para a economia e os mercados globais, um dado que emerge é a sua ambivalência. Por um lado, nunca como nos últimos anos a economia tem permitido a bilhões de pessoas de acessar o bem-estar, os direitos, uma melhor saúde e muito mais.

Ao mesmo tempo, a economia e os mercados tiveram um papel na exploração excessiva dos recursos comuns, no aumento das desigualdades e na deterioração do planeta.

Assim, uma sua avaliação ética e espiritual deve ser capaz de transitar nessa ambivalência, que emerge em contextos cada vez mais complexos.

Nosso mundo é capaz do melhor e do pior. Sempre foi, mas hoje os recursos técnicos e financeiros amplificaram as potencialidades do bem e do mal. Enquanto em algumas partes do planeta sobra opulência, em outras, não tem o mínimo para sobreviver. Em minhas viagens tive oportunidade de ver tais contrastes mais do que me era possível ver na Argentina. Eu vi o paradoxo de uma economia globalizada que poderia acabar com a fome, cuidar e acomodar todas as pessoas que povoam a nossa casa comum, mas que - como indicam algumas estatísticas preocupantes – concentra nas mãos de poucas pessoas a mesma riqueza que é encontrada em cerca de metade população do mundo.

Constatei que o capitalismo desenfreado das últimas décadas ampliou ainda mais o fosso que separa os ricos dos pobres, gerando novas precariedades e escravidões.

A atual concentração de riqueza é o resultado, em grande parte, dos mecanismos do sistema financeiro. Olhando para as finanças vemos, inclusive, que um sistema econômico baseado na proximidade, em época de globalização, encontra muitos obstáculos: as instituições financeiras e as empresas multinacionais atingem dimensões tais que condicionam as economias locais, colocando os Estados cada vez mais em dificuldade para operar de forma positiva para o desenvolvimento das populações.

Por outro lado, a falta de regulamentação e controles adequados favorece o crescimento do capital especulativo, que não está interessado em investimentos produtivos de longo prazo, mas procura o lucro imediato.

Primeiro como um simples cristão, depois como religiosos e sacerdote, e agora como Papa, considero que as questões sociais e econômicas não podem ser alheias à mensagem do Evangelho. Portanto, na esteira dos meus predecessores, tento colocar-me na escuta dos atores no cenário mundial, dos trabalhadores aos empreendedores e aos políticos, dando voz, em especial, aos pobres, aos rejeitados, a quem sofre. A Igreja, na difusão da mensagem de caridade e de justiça do Evangelho, não pode permanecer em silêncio diante da injustiça e do sofrimento. Ela pode e quer juntar-se aos milhões de homens e mulheres que dizem não à injustiça de maneira pacífica, empenhando-se para uma maior equidade. Onde quer que haja pessoas que dizem sim à vida, à justiça, à legalidade e à solidariedade. Tantos encontros confirmam-me que o Evangelho não é uma utopia, mas uma esperança real, até para a economia: Deus não abandona as suas criaturas à mercê do mal. Pelo contrário, ele convida a nunca desanimar de colaborar com todos para o bem comum.

Tudo o que eu falo e escrevo sobre o poder da economia e das finanças quer ser um apelo para que os pobres sejam tratados de forma melhor e as desigualdades diminuam. Em especial, constantemente peço que se pare de lucrar com as armas que causam o desencadeamento de guerras que, além dos mortos e dos pobres, só aumentam os fundos de poucos, fundos muitas vezes impessoais e maiores que os orçamentos dos Estados que os abrigam, fundos que prosperam no sangue inocente. (...) Existem alguns ‘nãos’ que devem ser ditos para a mentalidade do desperdício: é preciso evitar de se uniformizar com o pensamento único, atuando corajosamente em boas escolhas e contra a corrente. Todos, como ensina a Escritura, podem se arrepender, se converter, se tornarem testemunhas e profetas de um mundo mais justo e solidário. (...)

O mundo criado aos olhos de Deus é algo bom, o ser humano é algo muito bom (cf. Gen 1: 4-31). O pecado manchou e continua a manchar a bondade original, mas não pode apagar a impressão da imagem de Deus presente em cada homem. Portanto, não devemos perder a esperança: estamos vivendo em uma época difícil, mas cheia de oportunidades novas e sem precedentes. Não podemos deixar de acreditar que, com a ajuda de Deus e juntos - repito, juntos – é possível melhorar esse nosso mundo e reavivar a esperança, que talvez seja a virtude mais preciosa da atualidade. Se estivermos juntos, unidos em seu nome, o Senhor está no meio de nós segundo a sua promessa (cf. Mt 18, 20); portanto está conosco também no meio do mundo, das fábricas, das empresas e dos bancos assim como nas casas, nas favelas e nos campos de refugiados. Podemos, devemos ter esperança.

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