Os teólogos europeus e a carta de Ratzinger

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28 Março 2018

No que diz respeito ao caso da carta do Papa Emérito Bento XVI ao então prefeito da Secretaria para a Comunicação do Vaticano, Dario Edoardo Viganò, registramos aqui o posicionamento de Sigrid Müller (decano da faculdade de teologia de Viena) e de Martin M. Lintner (Bressanone/Brixen), na qualidade de ex-presidentes da Associação Europeia de Teologia Católica (AETC, agora liderada pela colega francesa Marie-Jo Thiel).

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada por Settimana News, 27-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na breve comunicação, enviada na última quarta-feira, 21, à agência de imprensa austríaca Kathpress e intitulada “Reconhecer a pluralidade das abordagens teológicas”, os dois teólogos, referindo-se à resposta ao pedido de apresentação dos 11 ensaios sobre a teologia do Papa Francisco no quinto aniversário do início de seu pontificado, se expressam assim: “Ficamos felizes que Bento XVI, na sua carta, sobre o trabalho e a teologia do Papa Francisco, em princípio, expressa uma substancial apreciação positiva, mas, com pesar e espanto, devemos registrar que um dos autores, Peter Hünermann, teria sido acusado de uma atitude de pouco senso eclesial. Hünermann é um dos fundadores e primeiro presidente (agora presidente honorário) da European Society of Catholic Theology. Aqueles que conhecem a ele e a sua ampla obra teológica, reconhecida em nível mundial, sabem muito bem que a acusação de ser contra a Igreja e antipapal não é nada fundamentada. A fundação em 1989 da Associação Europeia de Teologia Católica certamente não se destinava a uma oposição ao magistério pontifício, mas, desde o início, era entendida como uma plataforma pan-europeia para iniciar um diálogo entre teólogos de todas as disciplinas teológicas e entre teólogos de toda a Europa, no contexto dos eventos políticos daquele ano, particularmente entre os teólogos dos países da Europa Central e Oriental”.

Esclarecida a motivação, ampla e historicamente considerada como quase necessária (o ano de 1989 marcou a queda do Muro de Berlim), que levou ao nascimento da AETC, os dois teólogos continuam: “As palavras da carta de Bento XVI parecem testemunhar as tensões passadas entre teólogos e entre teologia e magistério, tensões que deixaram feridas profundas também em nível pessoal. Esperamos vivamente que essas tensões possam dar lugar a uma recíproca apreciação no reconhecimento da existência de diversas linhas teológicas de pensamento. Além do reconhecimento da existência de um legítimo pluralismo de abordagens teológicas, com base nas respectivas exigências decorrentes dos diversos ofícios e responsabilidades dentro da Igreja, os teólogos estão cientes de estarem unidos em um compromisso de fidelidade comum à fé, à teologia e à própria Igreja”.

Nos dias seguintes, no sítio da AETC, também foi publicada a declaração oficial da atual presidente, Thiel, em nome de toda a associação. No texto, que retoma em grande parte aquilo que foi escrito por Lintner e Müller, acrescenta-se: “Acreditamos que a fidelidade eclesial do Prof. Hünermann é absolutamente irrepreensível. Seu compromisso foi sempre no sentido de uma fidelidade genuinamente eclesial, mas também, ao mesmo tempo, no reconhecimento e na promoção de uma pluralidade de abordagens teológicas católicas válidas que levaram à criação da Sociedade Europeia de Teologia Católica (ESCT) em 1989. O ano de 1989 também foi o ano de grandes eventos políticos que mudaram a Europa Central e Oriental, que, a partir daquele momento, garantiram novas liberdades e novas oportunidades para a cooperação teológica e eclesial”.

Reiterada a finalidade inicial que levou ao nascimento da AETC, a declaração conclui assim: “Acreditamos que o leal serviço da associação à missão da Igreja superou a prova do tempo e continua ainda hoje contribuindo para a promoção de uma pluralidade, autenticamente católica, de abordagens teológicas para responder aos numerosos e urgentes desafios à nossa Igreja na Europa”.

O comentário e a esperança de Martin M. Lintner

Para contribuir com mais esclarecimentos sobre esse caso – imediatamente retomado também na última edição da revista católica britânica The Tablet – fizemos algumas perguntas ao Pe. Lintner, religioso do sul do Tirol, da Ordem dos Servos de Maria, professor de teologia moral em Brixen e ex-presidente da INSeCT (International Network of Societies for Catholic Theology).

Padre Lintner, que importância deve ser dada à carta do Papa Bento?

Como a carta não tinha a intenção de ser publicada, mas era estritamente privada, lamento muito que tenha sido divulgada. Acredito que os colaboradores mais estreitos deveriam proteger o papa emérito com mais atenção. Eu interpreto a carta, particularmente o parágrafo sobre Hünermann e a AETC como uma expressão do estado de ânimo de Bento XVI. Vê-se que, por um lado, as recordações de algumas situações, para ele, ainda são muito dolorosas; por outro lado, na sua memória, também se misturam vários eventos, por exemplo, ele escreve que a Declaração de Colônia de 1989 foi uma reação à encíclica Veritatis splendor, que foi publicada apenas em 1993.

Que efeitos terá essa carta?

É verdade que Peter Hünermann também era crítico aos papados de João Paulo II e de Bento XVI. Com relação a este último, para dar um exemplo, ele criticou fortemente a remissão da excomunhão aos quatro bispos consagrados pelo arcebispo Lefebvre. Mas não pode ser julgado como antipapal por causa disso. Sabe-se também que Hünermann e Ratzinger, como teólogos, representam hermenêuticas teológicas diferentes do Concílio Vaticano II. Espero que as discussões sobre essa carta contribuam para ajudar no reconhecimento de que existe uma legítima pluralidade de abordagens teológicas, mas também de que não se pode negar o senso eclesial àqueles que talvez se expressem de modo crítico. A reflexão crítica faz parte da teologia ou, melhor, é a sua integralidade. O magistério também “necessita da teologia a fim de demonstrar em suas intervenções não só autoridade doutrinal, mas também competência teológica e capacidade de avaliação crítica”, como escreveu a Comissão Teológica Internacional no documento “Teologia hoje” (2012). Entre teologia e Magistério, é necessário um diálogo intenso e aberto que saiba não apenas suportar, mas também aceitar positivamente tensões e diferenças que possam surgir. Espero vivamente que a carta não seja usada para polêmicas contra ninguém, nem contra Hünermann e a AETC, mas tampouco contra o papa emérito.

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