“O 'sim, é possível' se dá em detrimento do pensamento crítico”. Entrevista com Pablo Pineau

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23 Março 2018

O diretor do curso de Ciências da Educação da UBA analisa o papel da escola na construção de uma sociedade mais justa em um contexto em que se exaltam, de cima, os discursos que premiam o sucesso e punem o fracasso.

A entrevista é de Pablo Esteban, publicada por Página/12, 21-03-2018. A tradução é de André Langer.

A meritocracia é um mito que pressupõe uma sociedade de iguais, em que o esforço é recompensado com o sucesso e a preguiça com o fracasso. Quando o destino depende apenas de ações individuais, o “sim, é possível” torna-se uma cantilena de esperança. Nessa perspectiva, só resta se comprometer e seguir em frente, porque na loteria do merecimento, a sorte vem acompanhada de sacrifício.

Entretanto, por trás da vidraça oculta-se um conflito estrutural: como o sistema capitalista é perito na produção de desigualdades, nem todos os seres humanos têm as mesmas possibilidades e recursos para se darem bem. Da mesma forma que os ricos precisam dos pobres, os bons alunos precisam dos maus para se diferenciar, destacar e aprofundar o abismo.

Mas ir à escola não significa – simplesmente – fazer exames e ser aprovado ano após ano, porque o que acontece na sala de aula é mediado por trajetórias individuais, origens sociais diversas, limites econômicos e flutuações políticas. Além disso, como se não bastasse a complexidade das escolas, a partir de outras áreas representativas, como o futebol, as exceções se confundem com a regra e servem de escudo para justificar o funcionamento geral.

Assim, “inebriados pelo sucesso de Tevez, existem milhares de garotos que alguma vez se iludiram em ser estrelas do esporte e acabaram sendo assassinados nas favelas”, diz Pablo Pineau, doutor em Educação pela Faculdade de Filosofia e Artes da UBA, diretor do curso de Ciências da Educação na mesma instituição e professor na Escola Normal Superior Mariano Acosta.

Eis a entrevista.

O que é a meritocracia? Quando surge o termo?

É um conceito cuja emergência histórica pode ser situada no final do século XIX e início do século XX. É utilizado em um contexto marcado por transformações que colocam a passagem de uma educação que fornece respostas específicas para cada grupo social, para uma educação que começa a ser concebida como o motor de ascensão indistintamente para todos. Está relacionado com aquilo que Eric Hobsbawm chama de “corrida aberta ao talento”, numa época em que os membros da sociedade burguesa acreditam que é possível morrer em melhores condições do que nasceram. Um termo que também pode estar ligado ao da meritocracia é o da justiça.

Em que sentido?

Naquela época, começam as reflexões sobre quando, efetivamente, uma sociedade é justa e que espaço deveria ocupar a educação nesse contexto. Enquanto na sociedade feudal o justo estava associado a que cada indivíduo permanecesse no lugar que lhe correspondia, com a modernidade burguesa, a justiça se relaciona ao fato de que cada pessoa consegue ascender na escala social. Nesse contexto, a ideia de meritocracia assume que cada pessoa nasceu em um lugar sob determinadas condições de existência que, com o tempo, deve reverter e superar.

O objetivo de nossas escolas é formar cidadãos iguais; no entanto, em meados do século XIX, já se começa a vislumbrar uma certa bifurcação entre os representantes e os representados. O ensino médio formará o primeiro grupo, ao passo que os do segundo grupo só terão acesso ao ensino fundamental. Acreditava-se que só aqueles membros das classes populares que mereciam concluir seus estudos no ensino médio seriam bem-sucedidos.

O problema é que o esforço e o merecimento determinam o sucesso, mas também o fracasso.

Exatamente. Também tem a ver com a lógica do talento, com aquilo que é inato, que aparentemente se traz do berço. No século XX começa a se pensar que a escola secundária é justa, não apenas quando permite que aqueles que merecem atingir seus objetivos, mas quando democratiza as possibilidades de acesso e participação de todos. O título, deste modo, resigna seu capital econômico e já não vale tanto. Se no final do século XIX, alguém considerado bem-educado era quem completou três níveis de educação (ensino fundamental, médio e superior/universitário), atualmente, a expectativa de educação de um indivíduo são cinco, uma vez que foram acrescentados o nível inicial e a pós-graduação.

O que oculta a lógica do mérito é que as sociedades são desiguais. A exceção da criança que enfrentou todas as adversidades e hoje é médico confunde-se com a regra.

Sim, claro. Para seu funcionamento, a meritocracia pressupõe um mito que prevê pontos de partida iguais quando o que caracteriza as nossas populações são as desigualdades; daí a relevância do talento e do esforço individual, já que “todos podemos nos esforçar e alcançar o que queremos”. O “sim, é possível” é um discurso que está em sintonia com isso e em detrimento do pensamento crítico, que nos convida a refletir que as conquistas obtidas foram possíveis porque havia condições sociais que as tornaram possíveis para além das virtudes individuais.

Sem ir muito longe, por que não existe um Maradona ou um Messi em 1910? Basicamente, porque a sociedade não valorizava muito o esporte e não tinha os dispositivos de seleção que existem hoje. Pensar as dinâmicas sociais em termos de mérito nos leva a esquecer os contextos e as políticas que impeliram para que determinados fenômenos se expressassem dessa maneira e não de outra.

De modo que para ser bem educado você precisa ter dinheiro.

Em primeiro lugar, deveríamos definir o que é ser bem educado para a nossa sociedade.

Prossiga.

É poder vender os créditos individuais ao mercado de trabalho; conseguir um bom emprego que implique certo nível econômico, ter um trabalho social. Além disso, ser bem educado tem a ver com o acesso a determinados direitos que habilitam novos graus de compreensão do mundo, estudos de pós-graduação, cursos de capacitação. Sob essas premissas, evidentemente, é possível pensar que as famílias com dinheiro têm melhores condições de passar por experiências educacionais de qualidade.

Entretanto, a escola deve ser um espaço democrático, um lugar onde os estudantes aprendem a exercer seus direitos. Os estudantes que vêm de camadas populares têm mais dificuldades na escola porque existe uma enorme distância cultural. Contamos apenas os casos daqueles que conseguem, mas nos faltam mais informações sobre os maus alunos, aqueles que têm conflitos e abandonam tudo. O mesmo acontece no futebol: inebriados pelo sucesso de Tevez, existem milhares de garotos que alguma vez se iludiram em ser estrelas do esporte e acabaram sendo assassinados nas favelas.

Um exemplo de conflito escolar invisibilizado?

Acontece em algumas instituições, por exemplo, que os estudantes paraguaios falam mal o espanhol, porque em suas casas fala-se o guarani; seu aprendizado é dificultado e são estigmatizados; mas se isso acontece com um estudante que vem da Europa, a diferença é tolerada de outra maneira. No coração da sociedade burguesa há uma contradição: embora proclame a igualdade educacional (através do resseguro do cumprimento dos direitos universais), ela desenvolve práticas diferenciadoras. Assim, enquanto afirma que todos os indivíduos têm a oportunidade de avançar, atribui muito bem o lugar que corresponde a cada um na estrutura social. Aqui, o mito da meritocracia fica visível e o discurso adulto “eu tive muitas dificuldades para terminar o ensino médio. Por que tem que ser mais fácil para as crianças de hoje?” opera para reafirmá-lo.

Como se combate a ideia da meritocracia?

Com a criação de espaços públicos e de movimentos sociais capazes de repensar, por exemplo, por que a educação foi recolonizada por relatos economicistas. Já não se pensa mais em termos políticos (inclusão, direitos, bem-estar comum); ao invés disso, interessa mais medir a qualidade, as avaliações e a eficácia. Devemos aceitar a desigualdade e conceber que pontos de partida diferentes implicam estratégias educacionais diferentes. No entanto, nessa perspectiva, temos que pensar sobre em que somos iguais e o que temos em comum, porque, do contrário, atomiza-se a possibilidade de construir projetos coletivos.

Pois bem, com tantos problemas: onde está o sentido transformador da escola? A transformação social continua sendo uma utopia?

Penso que quem se dedica à educação tem a obrigação de ser otimista. No dia em que esse otimismo não funcionar mais, seria melhor pôr a viola no saco e vender cerveja artesanal. É fundamental estarmos convencidos de que podemos criar um mundo mais justo do que aquele que a princípio conhecemos. É verdade que, muitas vezes, reina um otimismo ingênuo, teimoso, mas isso não significa deixar de estar convencido do fundamental que é a educação. Por alguma razão, instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) estão tão preocupadas em monitorar o que se ensina em nossas escolas. Como disse Michel de Certeau: “o poder fala quando está com medo”.

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