Japão, os idosos que querem ser presos porque se sentem sozinhos

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21 Março 2018

"Quando eu saí pela segunda vez, prometi a mim mesma que não repetiria mais. Mas então lá fora acabei sentindo muita saudade". Assim N. entrou em uma loja e fez de novo. Roubou um leque, o terceiro furto de sua vida, uma reincidência que lhe custou uma sentença de três anos. Custou, ou talvez garantiu: "Eu prefiro a vida na prisão. Há sempre pessoas ao redor, não me sinto sozinha aqui", contou à Bloomberg essa senhora de 80 anos de idade. Sim, mesmo com marido, dois filhos e seis netos, no Japão os idosos podem se sentir terrivelmente sozinhos. Principalmente as mulheres, muitas vezes fechadas em casa por uma das sociedades mais machistas do mundo. É por isso que para muitas delas a prisão é uma necessidade, senão mesmo uma escolha.

A reportagem é de Filippo Santelli, publicada por La Repubblica, 20-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O encarceramento voluntário no país está crescendo, a ponto de inclusive preocupar o governo. Na nação mais idosa do mundo, um detento em cada cinco tem mais de 65 anos. E para muitos deles, nove em cada dez no caso de mulheres, os crimes são menores, quase sempre pequenos furtos em lojas. "Meu marido morreu no ano passado", relata uma detenta. "Nós não tínhamos filhos e eu estava sozinha. Eu vi um pacote de carne no supermercado e eu o queria, mas pensei que seria um gasto de dinheiro exagerado. Então eu o peguei". O resultado é que agora as prisões estão com dificuldades para acomodar tantos idosos. O custo das despesas médicas nas prisões aumentou 80% na última década.

Durante o dia, muitos detidos seniores recebem assistência de pessoal especializado, mas à noite são os guardas que precisam lidar com tudo.

O governo agora garante aos infratores idosos uma forma de assistência pública. E investigando o fenômeno, descobriu que 40% deles vivia sozinho antes de cometer um crime. Uma condição cada vez mais comum no Japão, onde o tradicional bem-estar familiar está rapidamente se dissolvendo e o governo luta para acompanhar a situação. Causando sofrimentos econômicos, mas também emocionais. "Meu marido teve um acidente vascular cerebral há seis anos, e a partir de então está paralisado na cama", conta à Bloomberg T., 80 anos e dois filhos, agora na quarta condenação por pequenos furtos. "Foi muito difícil cuidar dele, eu não podia contar a ninguém porque eu tinha vergonha. Quando eu roubei, tinha o dinheiro no bolso, mas não queria voltar para casa e pedir ajuda na prisão foi a única maneira".

Nessa reclusão pública esses idosos encontram, com os companheiros de cela, mas também com o pessoal das prisões, relações humanas que na prisão domiciliar tinham perdido. "Nem consigo contar como eu gosto de trabalhar no laboratório da prisão", relata N., 79 anos. "No outro dia eles me parabenizaram pela minha eficiência e eu entendi a alegria do trabalho. Eu lamento nunca ter trabalhado. Minha vida teria sido diferente".

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