Revisitando uma proposta de uma Comissão do Vaticano sobre questões da juventude

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21 Março 2018

Às vésperas do Concílio Vaticano II, o Mons. Joseph Cardijn, fundador do movimento Juventude Operária Católica, sugeriu ao Papa João XXII a criação de uma comissão pontifícia para tratar dos problemas enfrentados pelos jovens em longo prazo.

Não foi a primeira vez que o fundador belga do movimento Jeunesse Ouvrière Chrétienne (JOC) - Juventude Operária Católica - tinha buscado influenciar o curso do Concílio.

A reportagem é de Stefan Gigacz, publicada por La Croix International, 20-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em uma audiência inicial de 1960 com o Papa João, enquanto as preparações estavam em andamento, ele já propôs a publicação de uma encíclica para marcar o 70º aniversário da encíclica social de 1891 do Papa Leão XIII, Rerum Novarum.

Para a alegria de Cardijn, se não surpresa, o Papa adotou sua sugestão com entusiasmo, o que levou à publicação de Mater et Magistra em 1961, que se tornaria a encíclica mais citada pelo Concílio na Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje.

Ainda mais significativo, tanto do ponto de vista do Cardijn como do Vaticano II, foi o fato de que a encíclica (§236) também incorporou referências ao icônico método "ver-julgar-agir", preparando o terreno para a sua integração em documentos conciliares, como o Decreto sobre o Apostolado Leigo, Apostolicam Actuositatem e Gaudium et Spes.

Animado com o sucesso, mas também preocupado com a direção que a preparação do Concílio estava tomando, ele buscou concentrar seus esforços em sua área de maior especialidade e experiência, trabalhando com os jovens.

Os jovens enfrentavam muitos problemas, escreveu ele ao arcebispo Dell’Acqua, a começar pela "sexualidade", sua "missão e vocação" na vida, seu "trabalho e profissão ou comércio", bem como "preparação para o futuro pessoal, familiar, social, cultural, cívico e religioso".

Igualmente importantes eram as questões de "ensino e educação", os "movimentos e organizações de jovens”, bem como as "responsabilidades dos pais" (e outras instituições), para não mencionar a "pressão da opinião pública e publicidade".

Na realidade, os jovens já estavam “enfrentando problemas de adulto", observou Cardijn. No entanto, apesar de jovens, eles precisavam aprender a "resolver os seus próprios problemas com a ajuda dos adultos, que trabalhavam com eles".

Não ajudar os jovens nesta tarefa provocaria "uma catástrofe irreparável", advertiu, em seu estilo caracteristicamente apocalíptico.

Felizmente, argumentou, a abertura do Concílio Vaticano II foi uma “oportunidade providencial" para a Igreja despertar ou "sacudir" as instituições sociais, a opinião pública bem como os próprios jovens para a necessidade de agir, escreveu ao arcebispo Dell'acqua.

Embora a proposta de uma comissão pontifícia não tenha acontecido, as propostas de Cardijn não foram totalmente ignoradas. O §12 de Apostolicam Actuositatem mais tarde incorporou muitas de suas preocupações e Gaudium et Spes continha mais de uma dúzia de referências aos jovens.

E, no seu último dia, o Concílio emitiu uma Mensagem aos Jovens, embora não fosse exatamente a que Cardijn esperava.

Como acontece o inovador "pré-sínodo" do Papa Francisco, reunindo 300 jovens em Roma esta semana, em preparação para o encontro do Sínodo dos Bispos sobre "os jovens, a fé e o discernimento vocacional" em outubro, parece oportuno recordar as reflexões e as propostas de Cardijn.

Por um lado, é significativo que o sínodo (novamente) tenha adotado o método de Cardijn em sua preparação, como fica claro pela estrutura de ver-julgar-agir do documento preparatório.

Por outro lado, é impressionante notar o contraste entre a listagem direta e factual de Cardijn dos problemas enfrentados pelos jovens e uma hesitação aparente demonstrada pelo Secretariado do Sínodo.

Ainda que, por exemplo, ele não temesse colocar "sexualidade" no topo da lista de questões relativas aos jovens, o sínodo não aborda o problema em sua primeira seção, "ver", sobre "Jovens no mundo de hoje". Apenas na terceira seção, "agir", é que o termo aparece, quase como uma reflexão tardia.

Questionado por jornalistas, o secretário-geral do sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri, tentou explicar o aparente descuido.

"Não nos referimos a (sexualidade) porque não queríamos focar a atenção nisso", disse a repórteres em janeiro. Caso contrário, os jornalistas podem "acentuar o foco" nessas questões, explicou, sem muita convicção.

Sem dúvida, os jovens que participam do pré-sínodo vão garantir que todas as questões relevantes sejam levantadas e discutidas.

Mas é óbvio que um evento isolado não basta para articular respostas para todas essas questões.

Talvez tenha chegado a hora do pré-sínodo e o sínodo revisitarem a proposta original de 1962 de Cardijn de criar uma comissão pontifícia para abordar essas questões em longo prazo.

Como ele escreveu naquele ano, essas questões são "de tal importância para a Igreja e para o mundo no futuro" que é preciso fazer todo o possível para desenvolver "um programa de educação e ação que forme os jovens para abordar essas questões que eles enfrentam na vida tanto agora como no futuro".

Reconhecendo seu importante trabalho com Juventude Operária Católica, em 1965 o Papa Paulo VI tornou o padre belga, na época com 82 anos, cardeal. O cardeal Cardijn morreu dois anos depois, mas seu legado com certeza permanece vivo.

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