Cinco anos do Papa Francisco e o princípio de reforma

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13 Março 2018

“Para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos são como um dia”, diz a Segunda Carta de São Pedro

A reportagem é de Robert Mickens, publicada por La Croix International, 09-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“O Senhor não demora para cumprir o que prometeu, como alguns pensam, achando que há demora; é que Deus tem paciência com vocês, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos cheguem a se converter” (2 Pedro 3,8-9).

Assim diz a epístola atribuída (embora provavelmente de modo incorreto) ao primeiro “papa” da Igreja.

Esta passagem me vem à mente imediatamente quando pondero sobre como avaliar o pontificado do Papa Francisco, o 265º Sucessor de São Pedro. Ela parece pertinente, no momento em que se celebra o quinto aniversário dele como Bispo de Roma, especialmente à luz das acusações de que ele vem demorando quanto às reformas profundas que muitos esperavam após se eleger ao papado.

Podemos dizer que, com o único jesuíta e latino-americano a alguma vez se sentar na Cátedra de Pedro, cinco anos são como um dia? Alguns católicos impacientes poderiam se ver tentados a pensar que sim, mas só porque ainda não compreendem o tipo de reforma que o papa está tentando implementar na Igreja e mesmo no mundo de maneira mais ampla.

Certos setores do catolicismo – incluídos muitos dos cardeais que elegeram Jorge Mario Bergoglio em 13-03-2013 – continuam a acreditar que o principal locus do papa argentino a ser reformado é o Vaticano e a Cúria Romana. E, naturalmente, sentem-se desapontados, posto que ele fez relativamente pouco para, de fato, transformar o centro burocrático da Igreja em algum modo estrutural ou jurídico significativo.

Os escândalos financeiros e sexuais que tiveram um efeito paralisante em pontificados anteriores não deixaram de existir. A velha mortalha de sigilo que há tempos velava a maneira como as autoridades eclesiásticas lidam com tais escândalos praticamente não foi levantada. E, após cinco anos, a nova constituição que muitos deles esperavam que Francisco já teria a esta altura promulgado para uma Cúria totalmente reformada ainda se encontra longe de uma conclusão.

Outros na Igreja Católica – incluídos os que apostam no papa para reformar e atualizar muitas das estruturas de comando e ministério da Igreja, bem como certos ensinamentos e normas – continuam também a lamentar o ritmo lento das mudanças.

Pensam que o papa vem sendo vagaroso demais a abordar alguns temas centrais. Um desses seria o modo como lidou com os vários aspectos relativos ao fenômeno generalizado do abuso sexual clerical de menores. Um outro seria a sua relutância em romper as barreiras institucionais que continuam a fazer as mulheres cidadãs de segunda classe na própria Igreja.

É claro que ainda há outros – e estes incluem os católicos autodeclarados “ortodoxos” e tradicionalistas – que acreditam que o Papa Francisco vem demorando demais para reafirmar as antigas “verdades” e os ensinamentos da Igreja, especialmente no campo da moralidade sexual e reprodutiva.

Mas estes vários setores do catolicismo (e provavelmente existam alguns outros) são apenas subconjuntos de uma Igreja muito maior. A grande maioria dos católicos ao redor do mundo, se as pesquisas de opinião estiverem corretas, ou apoia grandemente o que o papa tem feito ou (e isto poderia ser um motivo de preocupação) não possuem uma opinião forte de uma forma ou de outra. E se você achar que as pesquisas de opinião não são indicativos do que sentem as pessoas, apenas reflita por um instante sobre o que elas nos dizem a respeito das atitudes políticas dos eleitores, pelo menos nos países ocidentais.

O processo lento e gradual da reforma

Aqueles que, por qualquer motivo, criticam o Papa Francisco por não ser mais resoluto na promulgação de reformas visíveis não estão prestando atenção ao que ele diz desde os primeiros dias de seu pontificado.

“Reformas estruturais ou organizacionais são secundárias – isto é, elas vêm depois. A primeira reforma deve ser a das atitudes”, disse Francisco pouco mais de cinco meses depois de assumir o papado.

E aqui não estávamos apenas diante de uma retórica bem elaborada. O papa falava sério.

E nos últimos cinco anos ele trabalhou, com persistência, para realizar este ambicioso “programa de ajustamento atitudinal”. Tem havido um esforço incansável para mudar o pensamento, a lógica e o ethos do que significam ser cristão e uma comunidade de discípulos mais radicalmente conformados com o espírito do Evangelho.

Se você não se convenceu ainda, volte e leia o plano programático de seu pontificado, a exortação apostólica Evangelii Gaudium. Está tudo aí.

Mas mudar mentalidades e modos de pensar não é fácil. Os seres humanos parecem ser naturalmente resistentes a modificar qualquer coisa que ameace a zona de conforto em que se encontram – até mesmo em suas cabeças. E Francisco tem tentado implementar esta mudança de atitude e ethos diante de situações difíceis, entre católicos que abertamente se opõem ou que, no mínimo, relutam a aceitar qualquer mudança no status quo atual.

Entre os obstrucionistas há até mesmo bispos e padres influentes, tanto em Roma quanto noutros lugares, que usam os seus postos de autoridade para semear confusão entre os fiéis batizados confiados ao cuidado pastoral deles sobre a legitimidade de certas ações e prioridades o papa. Há também um pequeno número de “jornalistas” e comentadores – predominantemente na parte falante de inglês da Igreja – que continua a usar as mídias sociais com uma fúria semelhante à de fanáticos para produzir narrativas falsas de que é o Papa Francisco, e não eles ou o clero obstrucionista, quem está causando toda essa assim-chamada consternação entre as pessoas.

A credibilidade do papa, e o apoio popular que ele tem, vem resistindo a todas as tentativas de retratá-lo, vejamos bem, como não sendo exatamente um católico.

Francisco não está demorando a implementar a visão apresentada em Evangelii Gaudium, como alguns podem pensar. Em vez disso, ele vem sendo paciente de forma que ninguém corra o risco de ser deixado para trás e que todos estejam juntos nesta caminhada de conversão atitudinal.

É essa a importante conversão à qual ele convida. Uns com razão identificaram-na como uma mudança de paradigma para toda a Igreja. O papa a chama, de maneira bem simples, de “a opção missionária”, algo que deveria ser capaz de “transformar tudo”. Diz que deveria transformar – pode-se dizer mudar? – “os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura” de forma que se tornem “um canal proporcionado mais à evangelização” e que a Igreja, em todos os níveis, se torne “mais comunicativa e aberta”.

Há bolsões de resistência e oposição a isso. E não só deve Francisco desafiá-los; ele também precisa navegar numa situação bastante delicada que papa algum nos últimos seis séculos teve de enfrentar: aquele que o precedeu como papa (Bento XVI) ainda vive.

Alguns consideram que Francisco tem sido cauteloso na condução de certas reformas ou em lançar vários outros projetos que seriam vistos como uma ruptura (ou como uma reversão) de certas prioridades definidas por seu antecessor. Mesmo assim, o papa jesuíta vem conduzindo com firmeza a Igreja numa direção bastante diferente da trajetória em que Bento a havia colocado.

Vistas as circunstâncias singulares atuais, o que o papa vem fazendo certamente é impressionante e um ato de coragem.

Mas, então, onde toda essa situação coloca a Igreja no momento em que o Papa Francisco marca o quinto aniversário de sua eleição como Bispo de Roma?

Uma primeira resposta é que este pontificado extraordinário, pelo menos para a maioria dos católicos, trouxe uma nova onda de energia e ar fresco para dentro da Igreja. Não católicos e não fiéis também têm demonstrado um maior apreço e muito menos hostilidade para com o papa.

E isso não é pouca coisa. Pode-se dizer que Francisco alcançou este status por seu testemunho pessoal de um cristão radicalmente evangélico, algo que a história moderna provavelmente não viu antes entre os papas, pelo menos neste grau.

O papa argentino reavivou o espírito reformador do Concílio Vaticano II (1962-1965) e está desenvolvendo os seus ensinamentos e expandindo a sua visão como uma base para continuar a reformar a Igreja.

Há um longo caminho ser percorrido, obviamente. E muitos católicos de mentalidade reformista – especialmente mulheres e defensores das vítimas de abuso sexual clerical, entre outros – argumentariam que Francisco está se movendo muito lentamente, de maneira muito cautelosa e sendo demasiadamente conservador.

Mas estão errados.

Porém eles, e todos nós, devem lembrar que Jorge Mario Bergoglio foi eleito para ser o sucessor de um pecador e frágil pescador da Galileia, e não tomar o lugar do Senhor Jesus Cristo ou de Deus Todo-Poderoso.

Esta percepção também faz parte da reforma de mentalidade que está em andamento nos últimos cinco anos. E por isso devemos todos agradecer.

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