“Humanae vitae” sob assédio. Dois novos assaltos e um contra-ataque

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10 Março 2018

O assédio à encíclica Humanae Vitae, promulgada em 1968 por Paulo VI, registrou nos dias passados dois novos assaltos. Mas, também um enérgico contra-ataque.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 09-03-2018. A tradução é do Cepat.

O primeiro e mais notável assalto leva a assinatura do cardeal Walter Kasper. Em um folheto publicado contemporaneamente na Alemanha e na Itália, exalta a “mudança de paradigma” inaugurada pelo Papa Francisco com a exortação Amoris Laetitia. Uma mudança de paradigma – escreve Kasper – que não se limita a consentir a Comunhão aos divorciados em segunda união, mas que “se refere à teologia moral e, portanto, tem efeitos sobre muitas situações análogas”, entre as quais, precisamente, está o recorrer aos métodos artificiais de regulação dos nascimentos.

Kasper não encontra na Amoris Laetitia a passagem – efetivamente inexistente – que, de modo explícito, legitime o uso de anticonceptivos. Contudo, faz notar que Francisco, quando cita a encíclica de Paulo VI, “anima a utilizar o método da observância dos tempos da fecundidade natural, mas, ao mesmo tempo, não diz nada de outros métodos de planejamento familiar e evita qualquer definição casuística”. Do qual Kasper deduz que “em Amoris Laetitia também o não dito diz algo”, isto é, de fato, o caminho livre para os anticonceptivos, confiando o uso na “decisão consciente de consciência” do indivíduo em particular.

O segundo assalto é menos nobre e em nada autorizado. É a acrobática resenha, publicada em página completa, no domingo, 4 de março, pelo jornal Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana, com a assinatura de seu especialista em questões de moral familiar, Luciano Moia, acerca do importante livro, recém-impresso, de Pawel Stanislaw Galuszka: Karol Wojtyla e Humanae vitae. Il contributo dell’Arcivescovo di Cracovia e do grupo di teologi polacchi all’enciclica di Paolo VI, Cantagalli, Siena, 2018, pp. 550, euro 28.

Entre os documentos publicados pela primeira vez neste livro, Moia separa uma carta escrita por Karol Wojtyla a Paulo VI, em 1969, depois que numerosas conferências episcopais tinham se pronunciado criticamente contra a Humanae vitae. Nessa carta, o arcebispo de Cracóvia pedia ao Papa que publicasse urgentemente uma instrução contra as “opiniões nocivas” que circulavam, reafirmando com mais força ainda o ensinamento da encíclica.

Paulo VI não fez o que Wojtyla havia lhe pedido. Bastou a ele manter firme o que havia escrito na Humanae vitae, sem retroceder um só passo. Mas, movendo-se neste silêncio, Moia contrapõe a “rigidez” de Wojtyla à suposta “abertura” de Paulo VI às contestações de vários episcopados, todas “caracterizadas – segundo a prosa de Moia – pelo respeito, a recepção e compreensão”.

Na realidade, o douto livro de Galuszka documenta não só a importante contribuição de Wojtyla à redação da Humanae vitae, como também o extraordinário aprofundamento oferecido na continuidade por ele, como Papa, à compreensão dessa encíclica, tanto com o ciclo de catequese sobre a teologia do corpo, entre 1979 e 1984, como com a encíclica Veritatis splendor de 1993.

Um aprofundamento, o oferecido por João Paulo II, que também Bento XVI reconheceu nesta sua sincera anotação autobiográfica, no livro-entrevista publicado após sua renúncia ao papado:

“Em minha situação, no contexto do pensamento teológico de então, a Humanae vitae era um texto difícil. Era claro que aquilo que dizia era substancialmente válido, mas o modo como se argumentava, para nós, naquele momento, e inclusive para mim, não era satisfatório. Eu buscava uma aproximação antropológica mais ampla. E de fato o Papa João Paulo II integrou, posteriormente, a corte jusnaturalista da encíclica a uma visão personalista”.

E, aqui, o contra-ataque em defesa da Humanae vitae, que apareceu com a publicação do livro antes mencionado, tanto com a apresentação que foi feita na quarta-feira, 7 de março, na Pontifícia Universidade Lateranense, como com o cardeal Gerhard L. Müller, com o filósofo polonês Stanislaw Grygiel e com o teólogo italiano Livio Melina, além do autor do próprio livro, o polonês Pawel Stanislaw Galuszka.

Melina, ex-decano do Pontifício Instituto João Paulo II para os Estudos sobre o Matrimônio e a Família, também é autor do prólogo do livro. Sua intervenção no dia 7 de março é reproduzida integralmente em outra página de Settimo Cielo.

E estas são suas frases finais, nas quais aponta, imediatamente, tanto Kasper como Moia, para depois fazer uma interessante referência à carta Placuit Deo, publicada há poucos dias pela Congregação para a Doutrina da Fé, com a aprovação do Papa Francisco.

Quem manipula Paulo VI, por Livio Melina

Hoje, sente-se falar equivocadamente de uma “mudança de paradigma” epocal, que seria necessário aplicar à moral sexual católica. Para o impor está em vias de execução uma tentativa discutível de releitura histórica, que contrapõe as figuras de Paulo VI e de João Paulo II, vendo no segundo um tradicionalista intransigente e rígido, que teria comprometido a atitude aberta e flexível do primeiro.

Na realidade, esta grossa e arbitrária falsificação é só funcional a uma manipulação ideológica do magistério do Papa Paulo VI. O colocar em parênteses o ensino de João Paulo II sobre a teologia do corpo e seus fundamentos da moral, de sua catequese e da Veritatis splendor, em nome do novo paradigma pastoral do discernimento “caso por caso”, não leva a nenhum passo adiante, mas somente a um passo atrás para a casuística, com a desvantagem de que ao menos aquela estava sustentada por um sólido contexto eclesial e cultural de vida cristã, ao passo que hoje não se poderia mais revolver a não ser na subjetivação total da moral.

O Papa Francisco aprovou recentemente a publicação, por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, da carta Placuit Deo, que coloca em guarda, entre outras coisas, frente a um ressurgente neognosticismo. Não é talvez este o veneno escondido nestas sedutoras releituras e atualizações da Humanae vitae, que além da letra aprovada querem captar o espírito, ou que negando com arrogância a relevância normativa (“O problema da Humanae vitae não é pílula sim ou pílula não”) exaltam um vago e vazio profetismo antropológico, uma afirmação de valores, deixados mais à interpretação subjetiva, segundo forem as circunstâncias?

Contra estas tendências, o livro de Pawel Galuszka é um poderoso fármaco que nos permite respirar a boa teologia moral de Karol Wojtyla, primeiro filho devoto e fiel do Papa Paulo VI e, posteriormente, seu grande sucessor na cátedra de Pedro.

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