Violência de gênero é mais do que o homem agressor e a mulher vítima

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Por: João Vitor Santos | 10 Março 2018

Segundo dados de 2016 da Secretaria Nacional de Política para Mulheres, a cada sete minutos, no Brasil, uma mulher faz denúncia por ter sofrido algum tipo de agressão. O número de mulheres agredidas pode ser ainda maior, uma vez que muitas sofrem essa dor em silêncio. É uma das faces do mal que assola a sociedade de hoje: a violência. Por isso, no Dia Internacional da Mulher, celebrado na última quinta-feira, 8 de março, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU abriu o ciclo de palestras Violência no Mundo Contemporâneo – Interfaces, resistências e enfrentamentos abordando a temática da violência de gênero. Na sua conferência, a doutora em Psicologia e professora da Escola de Saúde da Unisinos, Denise Falcke, reiterou que a mulher ainda é a que mais sofre. Somente durante sua fala, de cerca de uma hora e meia, 12 delas devem ter procurado as autoridades em algum lugar do país para relatar agressão. Ainda assim, Denise provoca a pensar a violência através da desconstrução da ideia de gênero. “No nosso dia a dia, na nossa vida, perpetuamos estereótipos de gênero dizendo como homem e mulher devem ser portar. Isso se torna terreno fértil para ocorrência da violência mais tarde”, provoca.

Segundo a professora, a própria caracterização de gênero se torna um marcador de poder. “E é no conflito de gêneros que a violência se revela. Essa violência nasce da concepção de que as pessoas possuem papéis a serem desenvolvidos segundo seu gênero. São status desiguais que começam na vida privada e se estendem para a vida social”, explica. Assim, é dentro de casa que a mulher vai sendo moldada na forma de cuidadora, aquela que faz as tarefas domésticas e olha por toda a família, enquanto o homem sai para prover o lar. “Isso vai se refletir depois no mercado profissional. Observe como há muito mais mulheres em profissões relacionadas aos cuidados e mais homens voltados para a produção, cargos de liderança e gerência”, observa.

 

Denise: “E é no conflito de gêneros que a violência se revela. Essa violência nasce da concepção de que as pessoas possuem papéis a serem desenvolvidos" (Foto: João Vitor Santos/IHU)

Para Denise, todas essas construções de papéis feitas pela sociedade vão impactando nas escolhas das pessoas, que passam a não serem mais tão livres. E pior: vão gerando desigualdades e justificativas para naturalização da violência. “É quando dizemos que menino é agitado, então pode subir na mesa. Já a menina tem que ser recatada, sentar na cadeira, com as pernas fechadas. Mais tarde, esse garoto vai agir de forma mais rude porque já está com isso internalizado”, pontua. A professora ainda alerta que esses estereótipos de passividade feminina e atividade máscula geram homens que podem ter atitudes violentas contra mulheres.

É preciso ir além do atendimento à vítima

Denise Falcke reconhece os avanços em termos de legislação, informação e atendimento a mulheres vítimas de violência. Mas ressalta que ainda é preciso fazer mais. “Dados mostram que, em 2006, quando da criação da Lei Maria da Penha, houve uma redução de casos. Porém, nos anos seguintes os números voltaram a subir. “Embora a Lei tenha feito com que esse aumento seja 10% menor ao que se tinha antes de sua criação, ainda são aumentos”. Para ela, as mulheres devem continuar sendo o foco das atenções, e equipes de atendimento, acolhimento e proteção devem ser estendidas. Mas essa não deve ser mais a única frente para se estancar essa violência. “Precisamos ir além do atendimento às vítimas e começar a ter mais atenção com os agressores. Afinal, as pessoas não vão mudar de postura assim, do nada”, alerta.

A professora chama atenção de que, quando há a intervenção, pela vítima, em casos de agressão, essa mulher passa a ser protegida. Porém, inevitavelmente o agressor terá outra namorada, outro relacionamento em que o episódio de violência pode ocorrer. Segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e Locomotiva, realizada em 2016, 2% dos homens admitem ter praticado violência sexual e 18% revelam já terem cometido algum tipo de atitude violenta. “Isso revela como a questão vai se naturalizando, pois o agressor nem se sente intimidado em relatar essa postura na pesquisa”.

Para professora Denise, o agressor também precisa de uma rede de atenção (Foto: João Vitor Santos/IHU)

E se, por um lado, o homem naturaliza seu papel, a mulher também faz o mesmo. O Instituto DataSenado pesquisou relatos em 2015 e constatou que uma a cada cinco mulheres foi agredida. Porém, 26% delas convivem com o agressor. “Começam com pequenos episódios, brigas pequenas até que algo maior ocorre. Mas acontece o que chamamos de ‘lua de mel’, ele pede desculpas, ela aceita, os dois se gostam e retomam o relacionamento”, aponta. O problema é que esse ciclo volta a se iniciar e, com o tempo, começa a evoluir de forma cada vez mais rápida. “Por isso que proponho pensarmos em dar atenção ao casal. Esses dados nos mostram que precisamos repensar a intervenção”, conclui a professora.

De espectador a reprodutor de violência

A questão é tão complexa porque, segundo a professora, filhos de famílias em que ocorrem agressões passam a reproduzir esse comportamento em seus relacionamentos já durante a os primeiros affairs na adolescência. “Controle da roupa, do celular também são posturas violentas e isso não pode ser naturalizado”, alerta. Mas como romper? Segundo Denise é preciso vigilância. Desde sempre, se quer saber o gênero da criança antes do nascimento para alinhar as expectativas. “Somos nós que dizemos que meninos têm de ser vigorosos e meninas, passivas, nos mundos azul e rosa. Depois, como é que queremos que, num toque de mágica, quando adultos, eles passem a dividir tarefas e a respeitar a individualidade delas?”, questiona.

Além disso, alerta, é preciso romper com a ideia da violência pedagógica. É aquela ideia de que se bate na criança porque se gosta dela e ela precisa aprender. Denise destaca que uma de suas alunas fez uma pesquisa com dez crianças e todas relataram que seus cuidadores usam de violência contra elas. “Apenas uma disse: ‘minha mãe me bate porque chega do trabalho nervosa’. Todos os outros disseram que mereceram apanhar e precisam disso para aprender. Como é que não vamos querer que essas crianças não usem do expediente da violência?”, provoca.

Quando o homem é vítima

Denise ainda destaca que os estereótipos de gênero causam sofrimentos. Afinal, o homem que não tem uma postura viril é posto em xeque, enquanto a mulher que não adota os padrões femininos tem sua sexualidade questionada. É nessa perspectiva que a professora chega a um ponto delicado, que é muito pouco abordado na perspectiva da violência de gênero: quando o homem não é agressor, mas a vítima. “Os estudos têm revelado que a violência conjugal não é apenas uma questão de homem que agride a mulher. Não podemos desconsiderar que a mulher é a principal vítima, mas há de 11 a 30% de registros de homens que relatam sofrerem algum tipo de agressão da parceira”, revela.

 

Isso, segundo a professora, é mais uma consequência de se reduzir tudo aos estereótipos de gênero. “A violência conjugal tem suas particularidades. Não podemos desconsiderar os históricos, mas temos de ter a sensibilidade de tratar caso a caso. Também não podemos deixar de ouvir os homens que, muitas vezes, sofrem violência desde cedo por não corresponderem ao estereótipo”. Isso tudo ainda sem sequer mencionar casos de violência de heterossexuais contra LGBTs e até entre pessoas em relacionamentos gays ou transexuais. “Outro dia, lemos um artigo que dizia: ‘às vezes, a cor do arco-íris também é roxa”, recorda Denise.

Assim, pensar em combate à violência de gênero requer que se desconstrua o próprio padrão de gênero. E isso, para Denise, tem que começar muito cedo, na infância. “Precisamos deixar que meninos e meninas sejam o que eles quiserem ser”, recomenda. E, na vida adulta, quando a violência já é uma triste realidade, é preciso ampliar o horizonte e trabalhar no atendimento não só do agredido, mas também do agressor. E seja ele homem ou mulher. Além disso, os filhos dessas famílias também requerem atenção para que não repitam os modelos que têm, ou aceitem a violência com fins pedagógicos. “Talvez seja o caso de pensarmos em espaços para delegacia da família. Afinal, somos todos seres humanos e queremos viver bem”, sugere a professora.

Quem é Denise Falcke?

Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, possui especialização em Terapia de Casal e Família pelo Instituto de Terapias Integradas, mestrado em Psicologia Clínica e doutorado em Psicologia também pela PUCRS. Foi professora e coordenadora do Curso de Psicologia da Faccat - Faculdades de Taquara. Atualmente é professora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Unisinos. Ainda coordena o Núcleo de Estudos de Família e Violência - Nefav e é editora associada da Revista Contextos Clínicos. Tem experiência na área de Terapia de Casal e Família, investigando principalmente os seguintes temas: casal, família, violência conjugal e familiar, transgeracionalidade e intervenções clínicas com casais e famílias.

Fique atento

O ciclo Violência no Mundo Contemporâneo – Interfaces, resistências e enfrentamentos ocorre até o dia 17 de maio. Inscrições podem ser feitas através da página de eventos do IHU. A próxima atividade será no dia 13 de março, terça-feira, às 19h30min. A professora Fernanda Frizzo Bragato, da Escola de Direito Unisinos, abordará o Direito à demarcação de terras, conflitos e violência contra povos indígenas do Brasil. Acesse a programação completa.


Assista à íntegra da conferência

 

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