Cinco anos do papado de Francisco: elogio ao ''barulho''

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27 Fevereiro 2018

Francisco realmente busca ‘mudar a Igreja’, não em seus elementos essenciais, mas na sua orientação em relação ao mundo contemporâneo.”

A opinião é da revista America, expressa em editorial, publicado na edição de março de 2018, que celebra os cinco anos do pontificado de Francisco.A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há três anos, neste mês de março, o Papa Francisco fez uma observação surpreendente durante uma entrevista com a rede mexicana Televisa: “Tenho a sensação de que o meu pontificado será breve: quatro ou cinco anos”. Como dois anos já haviam se passado desde sua eleição em 13 de março de 2013, a observação improvisada de Francisco pareceu colocar uma linha do tempo inesperadamente curta em seu papado.

Agora estamos na marca de cinco anos do pontificado de Francisco. Os editores da revista America desejam-lhe muitos mais. “Hagan lío”, disse ele a uma multidão de milhões de pessoas na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em 2013, “façam barulho”, e não há dúvida de que esse pontificado fez exatamente isso.

As próprias experiências de Jorge Bergoglio nos ministérios jesuítas e como arcebispo de Buenos Aires o moldaram claramente como um papa defensor dos pobres, dos marginalizados e das vítimas de uma cultura do descarte. Ele rejeitou claramente a riqueza e as armadilhas de seu ofício, e os gestos simples que acompanharam essa convicção serão os símbolos duradouros de seu pontificado.

Francisco intensificou as fortes condenações de seu antecessor, Bento XVI, à guerra, a um mercado irrestrito e à crescente disparidade econômica; ele também ofereceu uma voz profética franca, mas bem-vinda, de correção aos líderes internacionais, incluindo o presidente Trump.

Em cinco anos, Francisco produziu três documentos importantes. Primeiro veio sua exortação apostólica “A alegria do evangelho” (Evangelii gaudium, 2013), na qual ele esboçou sua visão de uma Igreja cujas forças e recursos deveriam se tornar “um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (n. 27).

Seguiu-se logo depois a Laudato si’. Embora tenha sido amplamente recebida como um chamado à proteção ambiental e como uma crítica ao consumismo, a encíclica também é uma das mais importantes encíclicas sobre justiça social da história. “Tudo está interligado”, escreveu o Papa Francisco. Não podemos afirmar os direitos da humanidade negando a dignidade da nossa casa ambiental; não podemos abortar nem “eutanizar” ou marginalizar seres humanos indesejados como se fossem lixo; e não podemos arruinar o planeta na busca de riqueza, de facilidade ou de ideias mal-intencionadas de liberdade.

Mais controversa foi a exortação pós-sinodal de Francisco sobre a família, “A alegria do amor” (Amoris laetitia, 2016). Essa exortação, que analisou uma ampla gama de tópicos relacionados ao amor humano, também abriu a possibilidade para que as pessoas divorciadas e em segunda união retornem aos sacramentos sob certas condições. Essa concessão pastoral atraiu os gritos mais altos: afirmações por parte de muitas pessoas que vivem e ministram em situações pastorais difíceis, e críticas vigorosas por parte daqueles que acusam o papa de contradizer a doutrina da Igreja.

Uma mudança mais silenciosa, mas mais dramática, é a nova ênfase da Amoris laetitia sobre a autoridade do bispo local na aplicação pastoral da lei universal da Igreja. Os críticos dessa restituição da autoridade dizem que ela resultará no fato de que a Igreja ensinará em uma cidade aquilo que não é ensinado em outra, o que é contrário à universalidade da Igreja. Mas essa crítica confunde universalidade com uniformidade, um erro contra o qual Francisco se pronunciou claramente. O respeito pela autoridade das estruturas locais na Igreja nos ajudará a recuperar o senso da eclesiologia de comunhão e também a respeitar as diferenças culturais.

Tais luzes de esperança tornam as sombras desse pontificado ainda mais decepcionantes. Nenhuma foi mais dolorosa do que a resposta desigual de Francisco aos abusos sexuais na Igreja, precisamente porque aqueles que foram abusados pelo clero são algumas das vítimas mais óbvias da cultura do descarte que Francisco condena.

O papa nomeou recentemente novos membros da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores que ele criou em 2014, incluindo representantes leigos, na esperança de dar uma nova vida à comissão, após repetidas reclamações dos membros anteriores de que algumas autoridades vaticanas se recusaram a cooperar com a comissão.

Pior ainda é a crise em curso na Igreja no Chile, onde Francisco defendeu um bispo acusado de não denunciar abusos sexuais apesar de evidências substanciais de irregularidades, chegando até a acusar os acusadores do bispo de calúnia. Embora Francisco tenha se desculpado pela sua insensibilidade e despachou um oficial de alto escalão para investigar as alegações, o dano aos corações já feridos e à credibilidade do papa foi grande.

A reforma vaticana também foi por água abaixo, apesar da nomeação de Francisco em 2013 de um conselho de cardeais encarregado de revisar a Cúria vaticana. Poucos progressos públicos foram feitos para curar a cultura esclerosada vaticana, e grande parte das operações do Vaticano continuam tão opacas como sempre.

Ecclesia semper reformanda est. Uma Igreja aberta à missão de uma forma nova deve ser uma Igreja que escuta as vozes que ignorou no passado em seu próprio e grande detrimento, em primeiro lugar e acima de tudo das mulheres.

No nível da diplomacia e da eclesiologia, as últimas semanas trouxeram novos sinais de esperança para a Igreja Católica na China. Francisco continuou o trabalho delicado e frustrante de engajamento com o governo chinês para normalizar a vida da Igreja nessa nação. Os movimentos controversos, mas pragmáticos, em direção a uma política de nomeação conjunta de bispos com o governo levantaram a possibilidade de se chegar a um objetivo há muito tempo desejado: uma Igreja Católica unida na China pela primeira vez em 70 anos. O jesuíta Matteo Ricci ficaria orgulhoso.

Essa ladainha de luzes e sombras fala de um assunto mais amplo: o objetivo pessoal que Francisco parece ter estabelecido para seu papado. Seus críticos certamente estão certos sobre uma coisa: ele realmente busca “mudar a Igreja”, não em seus elementos essenciais, mas na sua orientação em relação ao mundo contemporâneo.

A Igreja não é “um catálogo de proibições” a ser imposto, lembrou-nos o Papa Bento XVI, nem um clube de elite para os salvos. Não devemos esquecer que a Igreja é sua missão. Como o Papa Francisco disse antes do conclave em que foi eleito, a Igreja deve sair de si mesma para proclamar plenamente o convite para participar da missão de salvação e redenção de Cristo.

Em cinco anos desse papado inovador, há muito mais barulho a se fazer.

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