''Estamos felizes com o diálogo entre o papa e a China.'' Entrevista com Dom Jin Lugang, bispo clandestino

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24 Fevereiro 2018

“Eu enviei uma mensagem ao papa, para lhe dizer que eu e toda a minha comunidade diocesana, todos os padres e também as freiras estão felizes porque ele dialoga com a China. Apoiamos a Santa Sé nesse trabalho e seguiremos tudo o que ele quiser dizer à Igreja que está na China.” A voz de Pietro Jin Lugang’s é serena e decisiva. Ele caminha sabendo muito bem para onde ir. Como bispo “clandestino” de Nangyang, ele também suportou, com a paciência da fé, remoções e sessões de doutrinação por parte dos aparatos políticos chineses, que não reconhecem seu ofício episcopal.

E, agora, ele expressa o mesmo olhar de fé diante dos rumores insistentes que dizem que é possível um entendimento entre Pequim e a Santa Sé sobre as nomeações dos bispos chineses: “Tudo o que suportamos”, observa o bispo Jin, “nós o suportamos para não esconder a nossa comunhão com o papa. E, agora, se houvesse um entendimento entre o papa e o governo, como poderíamos não ficar felizes? Como poderíamos não o seguir? Isso significa que o governo reconhece o papa. Que nós podemos seguir em frente em plena união com ele. E nem pensamos em fazer o contrário”. Isso é tudo. Simples e claro. Como um belo dia de sol.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 23-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Dom Pietro Jin, sua terra viu a obra dos missionários do PIME na sua época gloriosa.

Na segunda metade do século XIX, foram eles que deram vida ao Vicariato Apostólico, o primeiro do Henan, no centro da China. Eu venho de uma família católica e fui ordenado sacerdote em 1992, quando o bispo de Nanyang era meu parente, Giuseppe Jin Dechen, que foi o primeiro bispo chinês da diocese. Agora, a diocese tem uma comunidade de cerca de 20 mil fiéis, com cerca de 50 freiras e 23 sacerdotes.

A história recente da sua diocese parece um emblema de como é intrincada a condição da Igreja Católica na China.

Para Nanyang, em 1995, havia sido ordenado bispo Joseph Baoyu Zhu, nascido em 1921. Antes, entre os anos 1960 e 1980, ele havia passado muitos anos na prisão e nos campos de reeducação. Ele era um bispo “clandestino”, ordenado com a aprovação do papa, mas fora do controle do governo. Depois, em 2007, em vista da sua sucessão, eu fui ordenado bispo coadjutor, sempre de maneira “clandestina”. Em 2010, a Santa Sé acolheu a renúncia do bispo Zhu, e eu me tornei o ordinário da diocese. Mas, pouco depois, os aparatos políticos locais decidiram reconhecer Zhu como bispo “oficial” e, no dia 30 de junho, eles o instalaram na catedral como bispo reconhecido pelo governo. Assim, a diocese também se tornou “oficial”. Agora, somos dois bispos, ambos ordenados com a aprovação do papa, mas oficialmente o governo só reconhece Zhu como bispo, que agora tem 97 anos.

Como estão suas relações?

Somos dois bispos que vivem em comunhão na mesma cidade.  Joseph Zhu é o bispo emérito, e eu sou o bispo ordinário. Ele, reconhecido pelo governo, reside na catedral. Eu vivo na paróquia do meu bairro. Mas eu pude fazer a visita pastoral a todas as outras paróquias. E às vezes eu também celebro a missa na catedral. Nós dois sempre fomos fiéis ao papa e à Santa Sé. E, nos últimos anos, desde que o diálogo foi retomado, as coisas melhoraram também com o governo, que não nos pede nada contrário à fé católica. Eu só tenho que informar as autoridades quando eu saio de Nanyang.

Mas, no passado, o senhor também sofreu pressões, períodos de afastamento forçado da diocese e sessões de doutrinação.

Os membros do governo me disseram para não fazer celebrações para tomar posse da diocese. Eu sempre disse que podia renunciar às celebrações públicas, mas continuava sendo o bispo de Nanyang. Em 2012, eles me levaram para um hotel nos dias de Páscoa, e eu não pude celebrar as liturgias do tríduo pascal. Mas aquele era um período de tensão entre a China e o Vaticano.

Agora, se a Santa Sé e o governo chinês encontrarem um início de entendimento, o senhor não tem a impressão de que aqueles esforços e sofrimentos foram desconsiderados, traídos, jogados ao vento?

Nós só queríamos seguir Jesus, em união com o papa e com toda a Igreja Católica. Isso pode envolver fadigas e sofrimentos. Faz parte da nossa vida segundo o Evangelho. Se os vivemos na companhia de Jesus, unidos a Jesus, é como participar de seus sofrimentos. E Jesus não deixa os nossos sofrimentos caírem no vazio. Ele os reconhece, os abraça e os torna preciosos. Por isso, não precisamos de nenhum outro reconhecimento, de nenhum outro prêmio. Não precisamos repreender ninguém, quando vemos que Jesus tomou os nossos sofrimentos para si.

Então, como o senhor vê as notícias dos possíveis desenvolvimentos do diálogo entre a Santa Sé e o governo chinês?

Se agora o governo fala com o papa, ele reconhece o papa. É uma boa notícia que nos deixa felizes. As fadigas e as dificuldades do passado não se apagam, fazem parte da nossa vida com Cristo. Mas, agora, eu não consigo pensar no passado, naqueles tempos de dificuldade. Se o governo fala com o papa, ele reconhece o papa, e nós podemos expressar a nossa plena comunhão com o papa.

No entanto, há quem organize mobilizações e pressões para dizer para o papa que não siga em frente com a China. E há também quem diga que um acordo com a China seria uma traição e uma “liquidação” dos seus sofrimentos.

Mas nós suportamos todas as dificuldades para não esconder a nossa comunhão com o papa. E, agora, se há um entendimento entre o papa e o governo, como não podemos ficar felizes? Como podemos não o seguir? Isso significa que poderemos seguir em frente em plena união com o papa. E nem pensamos em fazer o contrário. Se o papa fizer um acordo com o governo, nós o seguiremos, continuando com ele ao longo da mesma estrada na qual tivemos que atravessar sofrimentos e fadigas. Para seguir Jesus, aceitamos sofrer e, pelo mesmo motivo, agora estamos contentes, porque certos problemas podem ser resolvidos e podemos olhar para a frente.

Mas agora, concretamente, como estão as coisas na sua diocese?

Os sacerdotes estão unidos. Eu prezo para que as coisas sejam decididas em uma consulta com todos eles. Todos trabalhamos pela unidade da Igreja, e eu sinto que o Papa Francisco está nos levando a viver essa unidade. Também abrimos uma casa de acolhimento para os deficientes e duas casas para os idosos.

Mas o senhor não tem nenhuma preocupação com as negociações entre o governo chinês e a Santa Sé? Nenhuma sugestão para dar?

É claro, peço que sempre se use a prudência nesse processo. Mas o diálogo que começou nesses anos já produziu benefícios entre nós. O governo só nos pede que nos registremos. Todos os sacerdotes foram registrados pelo governo. E, se a Santa Sé me disser que eu posso fazer isso para ajudar o trabalho pastoral, eu também vou me registrar. Eu acredito que, em tudo isso, nas relações com o governo e as autoridades políticas, todos sempre devemos seguir a frase de Jesus relatada no Evangelho: dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

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