Deve a Igreja Católica estimular o veganismo?

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24 Fevereiro 2018

"Vê-se, portanto, que não podemos continuar a viver um eterno carnaval, isto é, uma eterna “festa da carne”. Que a quaresma sirva para recordar a importância do comedimento, do cuidado no exercício do poder, para que a humanidade não continue a agir como uma “força de ocupação”, ou ainda, como uma espécie predatória, a explorar a Terra como se fosse em seguida partir para algum outro lugar", escreve Felipe Dittrich Ferreira, mestre em antropologia pela Unicamp.

Eis o artigo.

Sim, há elementos na doutrina católica que recomendam vivamente a alimentação à base de vegetais (ou seja, a alimentação “vegana” ou “vegetariana estrita”). Vejamos os principais argumentos católicos em favor do “veganismo”:

Embora o ser humano esteja em condições de submeter os animais, de modo a transformá-los em alimento, é sinal de modéstia, humildade e decência não exercer tal poder. É possível que o ser humano de fato esteja no topo da cadeia alimentar. Tal superioridade, no entanto, não dá ao homem o direito de tiranizar as demais espécies, tratando-as como coisas. Coube ao homem nomear os animais, como ensina o livro do Gênesis. Nas entrelinhas do Gênesis pode-se ler, portanto, que um boi é um boi. O boi é mais do que a proteína e a vaca é mais do que o leite. Esse é um ponto fundamental. Assim como o ser humano, filho de Deus, não deve ser tratado como simples “força de trabalho”, ou ainda, como “capital humano”, também os animais não devem ser reduzidos à função que foram forçados a exercer: um cavalo não deve ter tratado como “tração animal”; um bezerro não deve ser reduzido a “baby-beef”; um coelho não deve ser considerado simples “tecido” para a realização de testes dermatológicos. O coelho, vale enfatizar, não é um tecido. É um ser vivo, criado por Deus, com finalidades próprias para além de sua suposta utilidade para os fabricantes de cosméticos ou produtos de limpeza. A vaca, da mesma forma, não é uma fábrica da leite. Uma vaca é um mamífero. Ela produz leite porque é desse modo que ela alimenta seus próprios filhotes.

Sobre isso falou o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si':

“Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, "pelo simples fato de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória"[41], porque "o Senhor Se alegra em suas obras" (Sl 104/103, 31). (…) Hoje, a Igreja não diz, de forma simplista, que as outras criaturas estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas e fosse possível dispor delas à nossa vontade; mas ensina – como fizeram os bispos da Alemanha – que, nas outras criaturas, "se poderia falar da prioridade do ser sobre o ser úteis".” (clique aqui)

É preciso lembrar, ainda, que o domínio humano sobre a Terra, de acordo com a doutrina católica, não é absoluto. O ser humano, deve atuar, na sua relação com as demais partes da criação, como “depositário fiel”. O único verdadeiro soberano é Deus. A Ele o ser humano deve prestar contas. A superioridade humana, implica, portanto, responsabilidade. Não há, em lugar algum na Bíblia, base para um suposto direito humano à tirania. Se coube ao ser humano governar a Terra, é necessário que esse governo seja benévolo e generoso. Nesse ponto, convém recordar, novamente, o ensinamento do Papa Francisco:

“Precisamente pela sua dignidade única e por ser dotado de inteligência, o ser humano é chamado a respeitar a criação com as suas leis internas, já que "o Senhor fundou a terra com sabedoria" (Pr 3, 19).” (clique aqui)

Essa posição, válida, em termos gerais, desde a aurora do monoteísmo, ganhou, ao longo das últimas décadas, particular relevância, na medida em que o ser humano tornou-se efetivamente capaz de colocar fim à vida na Terra, seja de uma só vez, por meio das armas nucleares, ou gradualmente, por meio da emissão descontrolada dos gases causadores do aquecimento global, ou ainda por meio do esgotamento ou contaminação das fontes de água doce.

Como dizia João XXIII, é preciso dar atenção aos “sinais dos tempos”. A doutrina católica não é estática. Ela desenvolve-se no curso da história, de acordo com os desafios com os quais a espécie humana, em conjunto com as demais partes da criação, se defronta. Novos significados se revelam e algumas lições esquecidas subitamente se revelam preciosas. É exemplo disso o descanso sabático. No Levítico, por exemplo, encontra-se, dirigida à espécie humana, uma ameaça pungente, talvez nunca levada suficientemente a sério: “todo o tempo em que ficar desabitada, a terra descansará pelos sábados que não descansou quando nela habitáveis” (Lv, 26:35). Esse versículo, hoje, adquiriu um sentido novo. Se antes era possível pensar que se aplicasse apenas à “terra prometida”, nas margens do Jordão, hoje está claro que ele pode ser aplicado à Terra inteira. Se antes Deus falava aos israelitas, hoje está claro que fala à toda a humanidade. Portanto, é do planeta, isto é, da nossa “casa comum”, que fala Deus e é sobre a espécie humana que pesa hoje a ameaça do exílio e do extermínio.

A falta de respeito na relação com as demais partes da criação pode, em outras palavras, acabar voltando-se contra a espécie humana. Estamos criando monstros que acabarão por nos engolir, se não corrigirmos o rumo a tempo. O antropólogo Lévi-Strauss lançou luz sobre o dilema central a ser em breve enfrentado pela humanidade:

“Num mundo em que a população global terá provavelmente dobrado em menos de um século, o gado e os outros animais de criação se tornam para o homem temíveis concorrentes. Calculou-se que, nos Estados Unidos, dois terços dos cereais produzidos servem para alimentá-los. E não esqueçamos que esses animais nos dão em forma de carne muito menos calorias que as que eles consumiram durante sua vida. (...) Em contrapartida, os especialistas calculam que, se a humanidade se tornasse integralmente vegetariana, as superfícies hoje cultivadas poderiam alimentar o dobro da atual população”. (clique aqui)

Vê-se, portanto, que não podemos continuar a viver um eterno carnaval, isto é, uma eterna “festa da carne”. Que a quaresma sirva para recordar a importância do comedimento, do cuidado no exercício do poder, para que a humanidade não continue a agir como uma “força de ocupação”, ou ainda, como uma espécie predatória, a explorar a Terra como se fosse em seguida partir para algum outro lugar.

Deixar de matar animais é um passo necessário e possível para reequilibrar a relação humana com a Terra. Alguém poderia perguntar: mas se apenas eu deixar de comer animais, que diferença vou fazer, num mundo com bilhões de pessoas? Como disse o Papa Bento XVI, "é preciso não temer a humildade dos pequenos passos e confiar no fermento que se mistura com a massa e que, lentamente, a faz crescer" (clique aqui). Uma ecologia integral, disse o Papa Francisco de modo similar, “é feita também de simples gestos cotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”. (clique aqui)

Ao mesmo tempo, é preciso recordar outro ensinamento da encíclica Laudato Si':

“Aos problemas sociais responde-se não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias. (...) A conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária”.

A Igreja propôs ao mundo, lembra Francisco, “o ideal de uma civilização do amor”. Isso implica notar que o amor tem uma dimensão social, civil e política:

“Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade.”

A construção da “civilização do amor” requer, portanto, não apenas decisões individuais, mas também coletivas. Que a Igreja, como comunidade embrionária do novo mundo que há de surgir, faça a sua parte. Que nunca mais uma família ou comunidade cristã se reúna em torno de animais mortos. Não celebremos, por exemplo, o Natal comendo os animais que com tanta ternura sempre lembramos de incluir no presépio. Que nunca mais se veja na porta de uma igreja o grotesco anúncio “churrasco aos domingos”, que desmoraliza o catolicismo e estimula entre os fiéis não apenas a gula, mas também a indiferença com relação ao sofrimento. Que nas festas de São João, não se permita, em meio à alegria das músicas e das brincadeiras, a venda de animais mortos.

Somos chamados a agir, em todas as esferas, como o bom pastor (João 10, 11-18). Somos chamados a colocar em prática ensinamentos fundamentais, até agora largamente ignorados. A encíclica Laudato Si' serve como guia. Lá está descrita, em linguagem clara e completa, o rumo que precisamos tomar, em termos teológicos e sociológicos, para resgatar a nossa “casa comum”:

“O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. (...) Porventura uma pessoa, ouvindo no Evangelho Jesus dizer – a propósito dos pássaros – que "nenhum deles passa despercebido diante de Deus" (Lc12, 6), será capaz de os maltratar ou causar-lhes dano? Convido todos os cristãos a explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis.”

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