O infinito ano de 1968 que não pode ser difamado

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15 Fevereiro 2018

É preciso começar a partir do subtítulo para dar conta do livro de Marco Boato intitulado Il lungo '68 in Italia e nel mondo [O longo 1968 na Itália e no mundo] (Ed. La Scuola di Brescia, 352 páginas), publicado nesta semana. “O que foi, o que resta”, diz o subtítulo: questão enorme, sobre a qual se debate desde sempre.

A reportagem é de Paolo Morando, publicada por Trentino, 10-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas a resposta, sublime na sua síntese, já está nas duas linhas da epígrafe: “Há apenas uma coisa pior do que as celebrações de 1968, que eu detesto há muito tempo, e é a difamação daquele período”. Ponto. Palavra de Adriano Sofri.

E há realmente tudo: a eterna ritualidade (hoje pelos 50 anos), a doença nacional do “reducionismo”, sobretudo uma vulgata que vê há algum tempo o ano de 1968 como causa de todos os males italianos. Boato pensa como Sofri, explicando logo que seu trabalho quer ser “uma análise crítica, sem mitologias e sem ‘demonizações póstumas’, que se dirige tanto às gerações adultas ou mais ‘idosas’, quanto às novas gerações”.

Esclarecimento oportuno, se pensarmos que os protagonistas da época hoje estão na casa dos 70 anos (e quantos já faleceram), enquanto, hoje, para os jovens, 1968 é pré-história. Que, para ser explicada, precisa realmente de páginas cheias de datas, eventos, raciocínios. Como os de Boato, que foi o protagonista excepcional daquele ano em Trento, em sociologia.

Basta ir ao fim do volume e folhear o índice dos nomes, que contém nada menos do que 930. Mas não esperem um “tijolão”. O livro está dividido em três partes bem distintas, mas unidas por um fio dourado: a vontade de fornecer instrumentos de compreensão.

Os fatos são os protagonistas da primeira seção. Mas o 1968 italiano é longo, muito longo: termina até em 1977, e se dirá por quê. E, para se aproximar disso, Boato parte justamente do governo Tambroni de 1960 e dos incidentes de Gênova, passa pelos da Praça Statuto em Turim, dois anos depois, dá conta do primeiro reconhecimento por parte do secretário do Partido Comunista Italiano, Togliatti, contestado precisamente por Sofri em Pisa em 1963, que “aqui está acontecendo alguma coisa, e nós não entendemos nada” (e, obviamente, se trata dos sinais do protesto juvenil).

Depois, os confrontos na Universidade de Roma, em que, em 1966, morreu o estudante Paolo Rossi, morto pelos fascistas. Ainda: o processo contra os estudantes milaneses do Parini, por causa da investigação sobre a posição da mulher na sociedade italiana publicado pelo jornalzinho do liceu, La Zanzara.

E o caso Braibanti, primeira e única condenação por plágio na história republicana, os “anjos da lama” da enchente de Florença, a dramática escalada dos confrontos de rua que, de Avola (dezembro de 1968), chegam a Battipaglia (abril de 1969), com as primeiras mortes pelas mãos da polícia com um governo de centro-esquerda.

Mas, entre os fatos, Boato também enumera os frutos positivos de 1968, as muitas conquistas civis dos anos 1970: e isso também serve para articular o rancor de Sofri com a difamação.

Crônica, comentários, reações: Boato não esquece seus anos como jornalista no jornal Lotta Continua. Mas não renuncia a documentar passagens mais complexas, que, lidas hoje, estão a anos-luz de distância, realmente: como a crise das representações estudantis pré-1968, ou a lista das revistas que animavam então o debate cultural e político, páginas muito densas de periodicidade semanal, se tudo ia bem, mas que, durante meses, alimentavam pensamentos e debates.

Realmente, outros tempos, se comparados com o balbucio sem gramática via Twitter dos nossos dias. E depois o detalhe (muito crítico) das análises sociológicas sobre o 1968 italiano. E não só: porque o livro também dá conta, precisamente, do 1968 no mundo, portanto, acima de tudo, o Maio francês, Berkeley, Berlim, Praça das Três Culturas na Cidade do México, mas também os protestos estudantis – muito menos conhecidos – na Grã-Bretanha, Brasil, Japão, nas ditaduras da Grécia, Turquia e Espanha. E, claro, na Europa oriental, com o mea culpa de Rudi Dutschke, líder do 1968 alemão: “Em retrospectiva, o evento realmente importante de 1968 não foi Paris, mas Praga. Mas, na época, não fomos capazes de ver isso”.

Acima de tudo, porém, a “Carta a uma professora”, do Pe. Milani: para Boato, um texto decisivo do 1968 italiano, muito mais do que “O homem unidimensional”, de Marcuse. E é a chave de leitura para o livro inteiro.

Trento e Sociologia. O caso obviamente ocupa muitas páginas, e não podia ser diferente. Acima de tudo, na segunda parte, em uma ampla seção construída com perguntas e respostas gerais sobre 1968 e seu significado, o da época e o atual (o que foi e o que resta, justamente).

É aqui que a epopeia da sociologia e seu destaque vêm à tona de forma imponente: primeira faculdade ocupado ainda em 1966, a ocupação mais longa de 1968 (nada menos do que 67 dias), a experiência da Universidade Crítica.

E, por outro lado, voltando ao índice dos nomes, tirado o então presidente do Conselho, Aldo Moro (terceiro, com 21 citações), dos cinco primeiros, nada menos do que quatro estão relacionados com Trento: Mauro Rostagno (25 vezes), o próprio Boato (22), Bruno Kessler (17) e Francesco Alberoni (13).

E, sobre Boato, é preciso dizer uma coisa: naqueles meses, sempre que algo se movia, ele estava no meio, não só em Trento. E bastam seus encontros com Marcuse ou com o cubano Franqui para testemunhar isso.

A terceira parte do livro, “Materiais”, propõe artigos, discursos e ensaios do próprio Boato, não só em relação ao 1968. E eis precisamente o longo 1968 que termina em 1977, “annus horribilis”, cujo clima dramático está perfeitamente documentado em uma longa entrevista do jornal Alto Adige com o autor, no rescaldo da controversa conferência sobre a repressão em Bolonha, em que justamente Boato, em um ginásio de esportes repleto de trabalhadores autônomos, sofreu um protesto que quase terminou em linchamento.

Ele também conta sobre a marcha muito tensa do dia seguinte, de outra quase agressão. E de como, anos mais tarde, durante uma visita à prisão como deputado radical, um detento de primeira linha lhe disse: “Você sabia que, naquele dia em Bolonha, havia um plano para matá-lo?”.

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