Hora de reabilitar Teilhard de Chardin?

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29 Janeiro 2018

Denominar o Padre Jesuíta Pierre Teilhard de Chardin um doutor da Igreja — ou pelo menos retirar o "aviso" de seus textos — daria ao cientista e filósofo jesuíta mais legitimidade na Igreja, segundo seus defensores. E dois abaixo-assinados endereçados ao Vaticano visam exatamente isso.

A reportagem é de Heidi Schlumpf, publicada por National Catholic Reporter, 27-01-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Numa reunião de cientistas e líderes religiosos de todo o mundo, em novembro, membros do Pontifício Conselho para a Cultura aprovaram por unanimidade um abaixo-assinado pedindo ao Papa Francisco para revogar o "monitum" contra os escritos de Teilhard de Chardin, que estava em vigor desde 1962.

O trabalho de Teilhard foi publicado apenas após sua morte, em 1955, devido a medidas disciplinares da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício) durante a sua vida. A popularidade de seus livros O Fenômeno Humano e O Meio Divino levaram ao monitum, ou aviso, em 1962, para as "ambiguidades e até mesmo erros graves".

No entanto, estudiosos do Pontifício Conselho para a Cultura disseram no outono passado que enquanto alguns de seus escritos podem estar abertos a críticas construtivas, seus "pensamentos seminais" e "visão profética" têm "inspirado teólogos e cientistas", relatou a revista America.

Também notaram que quatro papas — Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco — haviam feito referências explícitas à sua obra, como uma menção numa nota de rodapé da encíclica de Francisco "Laudato Si', sobre o cuidado da Casa Comum".

Enquanto isso, uma Irmã de São José na Filadélfia tem recolhido assinaturas — mais de 1.200 até agora — para um abaixo-assinado que pede que Teilhard seja considerado doutor da Igreja.

"Acho que ele merece", disse a Irmã Kathleen Duffy, professora de física da Chestnut Hill College na Filadélfia e diretora do Instituto de Religião e Ciência da instituição.

A designação "Doutor da Igreja" homenageia indivíduos, geralmente teólogos ou estudiosos, cujo ensino ou pensamento beneficiou grandemente a Igreja. O título já foi concedido a 36 pessoas até o momento.

Duffy acredita que as tentativas de Teilhard de reunir teologia e ciência têm uma relevância especial para a Igreja e para o mundo hoje e que suas ideias sobre o "cristianismo evolutivo" podem trazer esperança num momento que muitos veem como caótico.

"Há uma teoria científica do caos que diz que não se pode ter qualquer nova criação sem desequilíbrio", disse Duffy. "Mas não podemos apenas sentar e dizer: 'Deus cuidará disso.' Tem que haver alguma motivação da nossa parte."

Teilhard, que leu as escrituras cristãs através das lentes da história evolutiva, pegou o processo do surgimento do universo (“cosmogênese”) e projetou-o para o futuro, no qual uma complexidade crescente exigiria uma unidade também crescente (“Cristogênese”), explicou Duffy.

"Ele tinha uma visão ampla e enxergava eras à frente, onde tudo convergia", disse ela, acrescentando que esta convergência demandaria que as pessoas se unissem com um amor maior a Deus e ao próximo. "Então, mesmo quando estamos desanimados, Teilhard de Chardin pode nos dar esperança em meio ao caos."

Suas ideias se popularizaram pelos que abraçam a "história universal", como o escritor Thomas Berry, e pelos que trabalham para salvar o ambiente. Talvez a sua mais importante citação — encontrada em vários memes — é de seu ensaio de 1936, "The Evolution of Chastity" (A evolução de castidade), em Toward the Future (Rumo ao Futuro, tradução livre):

Um dia, depois de dominar os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, mobilizaremos para Deus as energias do amor, e então, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o fogo.

Mas, muitas vezes, segundo Duffy, leituras parciais de Teilhard levam a interpretações erradas de suas ideias complexas, que se baseavam em suas experiências místicas e refletem o mistério pascal. "As pessoas veem seu entusiasmo pela vida, mas não se chega lá sem passar pelo sofrimento", disse. "E Teilhard sofreu muito, inclusive de depressão. Por outro lado, ele disse que estava sempre na presença de Deus."

Ela explorou esse misticismo em seu primeiro livro sobre Teilhard e está trabalhando em um segundo, a respeito de suas ideias sobre o sofrimento. Também é editora de estudos sobre Teilhard, uma série de monografias produzida pela American Teilhard Association.

Teilhard tornou-se fonte de inspiração para Duffy quando um padre e professor disse à jovem freira que suas perguntas eram muito parecidas com as do filósofo francês. Quando ela leu seus textos, ficou “impressionada”, revelou.

"Eu estava com dificuldades com quem era Deus, e depois de estudar física, não conseguia colocar tudo junto", lembrou. Teilhard de Chardin ajudou-a a fazer isso, mas também consegue "mudar sua ideia sobre quem é Deus", disse.

Ela é mais uma das muitas religiosas católicas que se inspiraram em Teilhard, o que causou problemas no passado. Barbara Marx Hubbard, defensora não católica da "evolução consciente", fez um discurso na reunião da Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference of Women Religious) de 2012, que na época estava sob intervenção do Vaticano. Sua fala foi vigorosamente repreendida pelo cardeal Gerhard Müller, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Müller comparou a evolução consciente ao gnosticismo, dizendo que "não oferece nada que nutra a vida religiosa".

Apesar das críticas demasiado simplificadas de Teilhard, classificando-o como "New Age", Duffy espera que o papa atual — que, assim como Teilhard, é jesuíta e cientista — ajude a reabilitar a imagem do filósofo.

A mensagem de Teilhard poderia ser um bálsamo para a apatia que tem afligido tantos estadunidenses, disse Duffy. "Precisamos trabalhar juntos. Mesmo no caos, podemos contribuir para progredir. Isso traz esperança".

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