"O Papa se impressionou ao ver diáconos indígenas"

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25 Janeiro 2018

O padre dominicano espanhol David Martínez de Aguirre (Vitoria-Gasteiz, 1970) chegou ao Vicariato Apostólico de Puerto Maldonado, confiado à Ordem dos Dominicanos, em 2001. Depois de conviver 13 anos com os Machiguenga, foi nomeado bispo coadjutor. Em 2015, ele assumiu a responsabilidade pastoral deste território tão grande quanto as regiões de Castela e Leão, e Aragão juntas, mas no qual vivem apenas 380 mil habitantes.

A entrevista é de María Martínez López, publicada por Alfa e Ômega, 23-01-2018. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis a entrevista.

Francisco pediu em várias ocasiões durante esta viagem que os povos originários não fossem tratados como minorias, mas como autênticos interlocutores. Que aplicação prática tem estas palavras?

Tratá-los como minoria seria dar ao Estado o poder de decisão sobre quais políticas irá desenvolver em seu território, e em seguida, dar-lhes algumas doações. Ao falar de interlocutores, nos referimos a levar em consideração qual tipo de modelo de desenvolvimento eles querem. Eles são os únicos que sabem como seu ambiente funciona. E escutá-los não tem que ser necessariamente algo para se opor aos seus projetos: muitas vezes, as comunidades querem que as empresas venham, porque isso pressupõe oportunidades para eles. Mas eles não querem exploração na qual os outros vêm, pegam e saem, enquanto eles permanecem na pobreza. Em diferentes países da região estão implementando leis de consulta, e acredito que o Papa estivesse se referindo a elas.

Ele pediu, inclusive, o reconhecimento internacional das comunidades indígenas.

Chegou a dizer que temos um sistema que foi quebrado, que deixa muitos excluídos e danifica o planeta. Os povos indígenas nos dão uma oportunidade para repensar a relação entre nós e a terra.

Em sua área, Mãe de Deus, a denúncia de Francisco de que a destruição do meio ambiente e das pessoas caminham juntas foi comprovada?

Aqui a mineração de ouro não é uma questão das grandes empresas, mas de centenas de milhares de pessoas que vêm de regiões pobres à procura de um modo de vida e que estão formando grupos. Assim, o maior problema ambiental não é apenas a mineração em si, mas os bolsões de pobreza. Se acabarmos com a mineração, amanhã recorrerão à exploração madeireira. Se acabarmos com a exploração madeireira, irão para o cultivo ilícito... E o impacto ambiental repercute no social. Quem sofre os maiores problemas de contaminação por mercúrio [utilizado na mineração, NdR] são as comunidades indígenas que estão a centenas de quilômetros de áreas de extração de ouro, porque os peixes que ingeriram o minério chegam até eles.

Próximo ao Sínodo de 2019 sobre a Amazônia, um dos problemas mais mencionados é a falta de agentes da pastoral para extensões de território tão vastas. Há catequistas nas comunidades indígenas?

Em algumas, sim, mas outras ainda são consideradas objetos de evangelização. Isto se deve principalmente a uma concepção do missionário como alguém que vem de fora, um forasteiro. Com um menor número de vocações, faz falta a presença do missionário que participa de toda a vida da comunidade. É importante que elas mesmas se sintam protagonistas, que passem a ser sujeitos da evangelização. Em Puerto Maldonado, sinalizei para o Papa alguns diáconos permanentes. Eles eram da tribo Achuar, do Vicariato Apostólico de Yurimaguas. Expliquei-lhe que faziam parte da estrutura da Igreja a partir de sua própria identidade. O Papa ficou impressionado e os considerou modelo, logo após, no encontro com os bispos. Ele está dizendo que quer uma Igreja inculturada, e que a Igreja também necessita ver o rosto de Cristo nos povos indígenas.

Quais são as características deste rosto indígena, amazônico, que o Santo Padre pede à Igreja?

Francisco não quer dizer, propriamente, como é esse rosto, mas que sejam os povos amazônicos a enriquecerem a Igreja universal com sua visão sobre Cristo e a Igreja. Também achei interessante que o Papa não falou de uma Igreja Amazônica, como uma porção da Igreja que se sente igual, de tal forma que poderia haver outra no ocidente; mas que a Igreja universal é Amazônica, pois toda ela se sente convocada a prestar atenção nesta região.

E que visão esses povos originários têm sobre Cristo?

Em Jesus de Nazaré eles enxergam, assim como vemos, um modelo de humanidade que Deus quer para nós. Desde a sua concepção de mundo Machiguenga, do mundo Axaninca... Eles descobrem como o Evangelho revitaliza suas culturas. Jesus potencializa e resgata dessas culturas o que é mais apropriado, o que é mais positivo, os valores que os tornam mais humanos, mais fraternos: a presença de Deus na vida, a contemplação da natureza, a partilha, o perdão, a rejeição da ganância, o deixar sempre uma abertura à conversão, ao diálogo...

O Papa também falou de não idealizar essas culturas.

Ele falou isso depois de mencionar os povos indígenas em isolamento voluntário, os pequenos grupos que se dispersaram ou se separaram do resto de suas tribos. O Papa disse que eles são os mais vulneráveis e pediu aos demais indígenas que não deixem de protegê-los, porque eles são o seu próprio povo. E também nos disse que não os consideraremos uma peça de museu, restos para serem preservados. Referia-se a não idealizar sua cultura, pensando que eles estão vivendo no estado do bom selvagem. Tampouco se pode cair no outro extremo, dizendo que "é preciso tirá-los do seu estado de selvageria e civilizá-los".

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