Os Estados Unidos que abraçam a ignorância. Artigo de Paul Krugman

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18 Janeiro 2018

“São necessárias medidas que estendam os benefícios do crescimento e da inovação. Mas o trumpismo pode ser concebido como uma tentativa de reduzir as disparidades regionais, cortando a grama debaixo dos pés daquelas que estão em crescimento. Porque esse é o efeito dos ataques à educação e à imigração.”

A opinião é do economista estadunidense Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton e prêmio Nobel de Economia de 2008. O artigo foi publicado por La Repubblica, 17-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nestes tempos, definir alguém como um know-nothing [sabe-nada] pode significar duas coisas. Se você for um estudante de história, talvez pretenda comparar esse alguém com um membro do Know Nothing Party dos anos 1850, uma formação política xenófoba e anti-imigrantes.

Mas, mais provavelmente, se você usou esse termo, quer insinuar que a pessoa em questão rejeita qualquer fato que entre em conflito com os seus próprios preconceitos. O triste é que os Estados Unidos atualmente são governados por pessoas que se enquadram em ambas as definições.

Os paralelismos entre os protestos anti-imigrantes de meados do século XIX e o trumpismo são evidentes: a Irlanda e a Alemanha, de onde vinha a maior parte dos imigrantes na época, eram os “países de merda” da época. Os irlandeses eram até representados como sub-humanos, subversivos, católicos fiéis ao papa.

Décadas mais tarde, a subsequente onda migratória, composta por italianos, judeus e muitos outros, inspirou preconceitos semelhantes.

E agora aqui estamos novamente. No entanto, os republicanos de hoje não são apenas Know-Nothing (no sentido de se inserirem naquela tradição política), mas também know-nothing (orgulhosos da sua ignorância).

Um resultado dessa escolha de abraçar a ignorância é o peculiar distanciamento que se produziu entre a direita moderna e os estadunidenses de elevada instrução. A direita insiste que a escassez de professores conservadores nas universidades é a prova de uma discriminação contra eles.

Mas os professores de direita são uma raridade até mesmo em ciências como a física e a biologia. Quando a posição do seu partido é de que as mudanças climáticas são uma fraude e de que não houve evolução, é difícil obter consensos entre pessoas que levam a sério os dados e as provas.

Isso deveria inquietar por várias razões, uma das quais é que o Partido Republicano rejeita aqueles mesmos valores que “tornaram a América grande”. Se não tivéssemos as ondas de imigrantes impulsionados pelo sonho de uma vida melhor, seríamos uma sociedade encurvada, estagnada, de segunda categoria.

E é isso que nos tornaremos se os Know-Nothing de hoje prevalecerem.

Estou relendo um livro de 2012, “A nova geografia do trabalho”, de Enrico Moretti, que fala da crescente divergência de fortunas econômicas entre as diversas regiões dos Estados Unidos. Até 1980, os Estados Unidos pareciam no caminho de uma prosperidade distribuída, com as regiões pobres, como o Sul profundo, preenchendo a lacuna.

Desde então, a distância voltou a se ampliar.

De acordo com Moretti, essa nova divergência reflete a importância das concentrações de trabalhadores altamente qualificados (muitos dos quais são imigrantes), que orbitam em torno das grandes universidades e criam círculos virtuosos de crescimento e inovação. E, coincidentemente, as eleições de 2016 contrapuseram essas regiões àquelas que ficaram para trás, razão pela qual os condados em que Hillary Clinton venceu, valem 64% do PIB dos Estados Unidos.

Obviamente, são necessárias medidas que estendam os benefícios do crescimento e da inovação. Mas o trumpismo pode ser concebido como uma tentativa de reduzir as disparidades regionais, cortando a grama debaixo dos pés daquelas que estão em crescimento. Porque esse é o efeito dos ataques à educação e à imigração.

Os Know-Nothing de hoje levarão a melhor? Não sei. Mas, nesse caso, não vão “tornar a América grande de novo”. Eles matarão as coisas que a tornaram grande.

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