Humanae Vitae, depois de meio século. A leitura de diferentes católicos

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11 Janeiro 2018

“Acusar Francisco e seus teólogos de serem parte do "consenso liberal ocidental" não faz sentido. O que é imperdoável, para alguns, é que o Papa Francisco não seja parte do consenso neoconservador ou neotradicionalista estadunidense”, escreve Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Universidade de Villanova, em artigo publicado por Commonweal, 09-01-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

In Papal Primacy: From Its Origins to the Present (Primazia Papal: das origens ao presente, tradução livre), o jesuíta alemão Klaus Schatz disse o seguinte sobre as encíclicas: "Ensinamentos papais deste tipo dificilmente se deparavam com qualquer oposição significativa dentro da Igreja antes de Humanae Vitae (1968)." Com a passagem de 2017 e do 500º aniversário da Reforma, 2018 está se configurando como o aniversário de um tipo diferente de reforma — ou um tipo diferente de cisma. Serão 50 anos da encíclica final do pontificado de Paulo VI, um documento muito lembrado por seu ensino contra os métodos artificiais de controle de natalidade e quase nada por sua recepção do ensino em Gaudium et Spes sobre os dois objetivos do matrimônio: amor mútuo e procriação.

Os preparativos para celebrar este aniversário sugerem que haverá ainda mais sinais de tensão na forma como diferentes católicos (geográfica e culturalmente) entendem o catolicismo. Pelo programa que lançaram no encontro de novembro em Baltimore, por exemplo, os bispos dos Estados Unidos estão muito mais animados com a comemoração do aniversário de Humanae Vitae do que os bispos no resto do mundo, que parecem estar analisando o matrimônio e a família com um foco diferente. E esta "lacuna no entusiasmo" reflete mais do que apenas o momento presente; sugere a continuação do conflito interno da Igreja que tem persistido durante o papado de Francisco.

Começou alguns meses após sua eleição, com a decisão de frear a ênfase obsessiva na sexualidade. Não foi apenas uma discussão e silentio (de silêncio), mas ele afirmou explicitamente, por diversas vezes, nos anos seguintes. Houve a entrevista com Antonio Spadaro, SJ, editor do La Civiltà Cattolica, em setembro de 2013; a decisão de convocar os sínodos episcopais de 2014 e 2015 sobre a família e o matrimônio; a publicação de Amoris Laetitia "sobre o amor na família" (não apenas no matrimônio), na primavera de 2016. No verão de 2016, Francisco consolidou sua visão pastoral sobre a família e o matrimônio, com a criação do Dicastério para os Leigos, a Família e as Vida, e com novas nomeações para a Pontifícia Academia para a Vida e o Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e a Família. Em 2017, estabeleceu-se o Instituto Pontifício Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, da Universidade Lateranense, em Roma, substituindo a instituição criada por João Paulo II.

Mais diretamente relacionada a Humanae Vitae foi a criação, em julho de 2017, de uma comissão especial para estudar a história da elaboração da encíclica. Esta comissão recebeu um aviso a respeito da regra dos setenta anos para acessar documentos, para que pudessem avaliar os da comissão que elaborou Humanae Vitae, que ficam guardados nos arquivos da Congregação para a Doutrina da Fé e pela Secretaria de Estado. (Existem estudos sobre a história do debate no Vaticano II, mas os papéis da comissão nunca foram examinados). O líder da comissão é o sacerdote e teólogo italiano Gilfredo Marengo, professor de antropologia teológica no Instituto João Paulo II. A comissão inclui outros dois teólogos — Monsenhor Pierangelo Sequeri, presidente do Instituto João Paulo II e Monsenhor Angelo Maffeis, presidente do Instituto Paulo VI, em Brescia — bem como o historiador sobre a Igreja Philippe Chenaux, da Pontifícia Universidade Lateranense).

Essas etapas foram atendidas com desconfiança pelos cães de guarda da ortodoxia católica, conhecidos por identificar o catolicismo com questões vitais relacionadas a cultura de guerra.

Essas etapas foram atendidas com desconfiança pelos cães de guarda da ortodoxia católica, conhecidos por identificar o catolicismo com questões vitais relacionadas a cultura de guerra. Revelam que os autores desses ataques contra as decisões do Papa Francisco sobre sua equipe geralmente não dizem muito sobre as orientações teológicas dos novos nomeados. Marengo, Sequeri e o Arcebispo Vincenzo Paglia (presidente da Pontifícia Academia para a Vida e do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e a Família de São João Paulo II) escrevem em italiano e são bem conhecidos e respeitados na Itália, mas não têm tanta familiaridade com os católicos de língua inglesa. Essa lacuna não é um fenômeno novo. A novidade é o senso de perigo que os guerreiros da cultura sentem em relação a Humanae Vitae, embora não devessem. Fica claro para qualquer um que leia os escritos das pessoas nomeadas por Francisco que eles não são seus inimigos. O problema é que eles representam uma abordagem que não é a abordagem da cultura de guerra.

Ultimamente, houve críticas também à Pontifícia Universidade Gregoriana dos jesuítas, em Roma, que organizou uma série de palestras (de outubro de 2017 a maio de 2018) sobre Humanae Vitae. O artigo de novembro de George Weigel no First Things foi ápice de uma série de artigos publicados na mídia católica on-line acusando a liderança da Universidade Gregoriana de sabotar a leitura ortodoxa de Humanae Vitae e enfraquecer o ensinamento da Igreja sobre a encíclica. Para além de imprecisões (os nomes e filiações dos palestrantes) e das omissões (de que é parte de um programa plurianual de encíclicas papais — Laudato Si' em 2015-2016 e Populorum Progressio em 2017-2018), o que é impressionante é como a natureza preventiva dos artigos tenta causar intimidação. O que realmente está acontecendo em Roma é um envolvimento pluralista e intelectualmente diversificado com Humanae Vitae; além do programa organizado pela Universidade Gregoriana, havia também a conferência no Angelicum em setembro passado. Enquanto isso, os bispos dos Estados Unidos têm uma série de eventos claramente focados em "planejamento familiar natural".

Também é interessante como católicos neoconservadores e neotradicionalistas citam Paulo VI apenas por Humanae Vitae. O resto de seus ensinamentos — principalmente Populorum Progressio, sobre justiça social e econômica; Evangelii Nuntiandi, sobre evangelização contemporânea; as últimas três das quatro sessões do Concílio Vaticano II e a direção da reforma litúrgica — são muito menos populares com eles. Trata-se do que poderia ser chamado de uso muito seletivo do magistério pontifício e revela um problema maior. Não é apenas a tentativa de esmagar a reflexão intelectual e pastoral que está ocorrendo em uma Universidade Pontifícia Católica e demonizá-la na mídia on-line. Não é apenas a postura antieuropeia que é costume ("a Europa está caindo no esquecimento demográfico por sua autocontracepção" — George Weigel). Não é a ideia de que existe uma catolicidade real e ortodoxa marginalizada pelos centros culturais e intelectuais em Roma no pontificado. Não é nem a acusação de ignorância culpável ("os que organizaram esta série de palestras infelizmente não sabem o que está acontecendo fora de sua bolha intelectual ou que os organizadores da conferência da Universidade Gregoriana estão tramando alguma coisa” — George Weigel novamente). A verdadeira questão não é nem que o aniversário de Humanae Vitae deve se tornar um novo capítulo na tentativa de deslegitimar o Papa Francisco.

O verdadeiro problema é o que esta abordagem ao legado complexo de Humanae Vitae diz sobre o empobrecimento do debate teológico público entre os continentes. O primeiro sintoma do empobrecimento é o evidente anti-intelectualismo que se esquiva de qualquer esforço de estudar a história da elaboração e da recepção dos ensinamentos papais mais críticos e contestados da modernidade. De uma perspectiva histórica e teológica, não sabemos muito sobre o que aconteceu no catolicismo global depois do Concílio Vaticano II, muito menos sobre o que aconteceu na recepção de Humanae Vitae. Não há nenhum equivalente global ou católico do estudo magistral de Leslie Tentler sobre os estadunidenses católicos e a contracepção. O que resta para ser analisado não é apenas a recepção na Europa versus nos EUA, mas também na América Latina, na África e na Ásia. Impor suposições sobre a história do matrimônio, da procriação e da família no resto do mundo não substitui estudos sérios.

O segundo sintoma de empobrecimento é a tendência de reduzir a compreensão de um ensinamento papal especificamente delicado e sua recepção a um determinado ponto de vista cultural e geográfico e depois universalizá-la. Neste caso, mais uma vez trata-se de catolicismo "ortodoxo" estadunidense vs. europeu, transformando um capítulo fundamental na história da tradição católica em mais um episódio de "natalismo competitivo” (nos termos de Leslie Tentler), não entre próximos ou paroquianos, mas entre diferentes igrejas católicas continentais. Os católicos europeus não precisaram esperar por Humanae Vitae ou pelo Concílio Vaticano II para ter menos filhos: mais de uma década antes de Humanae Vitae, entre 1950 e 1955, a taxa de fecundidade na Itália era 2,3 e nos EUA era 3,3. Sendo europeu, sei muito bem que a crise demográfica da Europa é real; dos 30 alunos da minha turma de ensino médio, sou um dos poucos que é casado e tem mais de um filho. Mas será que realmente queremos usar uma nova avaliação de Humanae Vitae como um teste para a vitalidade reprodutiva do catolicismo, em mais uma tentativa de apresentar a interpretação "ortodoxa" estadunidense como o padrão do catolicismo global?

Além disso, há a questão subjacente à questão: o gozo teológico-político do debate com a interpretação de Richard John Neuhaus de que o Vaticano II se fundiu com o "consenso liberal ocidental". Acusar Francisco e seus teólogos de serem parte do "consenso liberal ocidental" não faz sentido. O que é imperdoável, para alguns, é que o Papa Francisco não seja parte do consenso neoconservador ou neotradicionalista estadunidense.

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