O Papa pode estar quieto, mas tenhamos certeza: o Vaticano observa o drama iraniano

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08 Janeiro 2018

Em termos gerais, quase sempre quando há uma situação tensa a se desenrolar no mundo, podemos contar com que os papas erguerão suas vozes para apelar à paz e à calma. Até que ponto isso desencadeia alguma diferença fica em aberto, mas as intervenções que fazem são tão regulares quanto os relógios.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 04-01-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Esta regra de ouro faz-se digna de nota, num momento em que um ciclo de protestos no Irã se aproxima do fim de sua primeira semana, tendo irrompido na última quinta-feira com 21 mortos até então em decorrência dos embates entre os manifestantes e a polícia, sem que tenha havido praticamente nenhum comentário por parte do Vaticano.

Desde a quinta-feira passada, 28 de dezembro, o Papa Francisco teve oportunidades para expressar a preocupação em, no mínimo, três momentos: a oração do Angelus na Véspera de Ano Novo, um outro Angelus no Dia de Ano Novo e a sua Audiência Geral regular na quarta-feira. Ele nada falou nestas ocasiões sobre a situação no país, apesar de se dirigir a uma série de outras causas geradoras de preocupação, incluindo os ataques recentes no Egito contra a minoria ortodoxa copta.

Outros líderes mundiais certamente não estão observando a regra de silêncio, entre eles o presidente americano Donald Trump, mas também o presidente francês Emmanuel Macron, que telefonou a Teerã na quinta-feira pedindo “moderação”, e o presidente russo Vladimir Putin, cujo Ministério do Exterior divulgou uma nota em 2 de janeiro afirmando que “forças externas” estão alimentando as revoltas.

Não houve também nenhum comunicado da Secretaria de Estado do Vaticano, que é a principal agência diplomática do Estado do Vaticano, bem como nenhum comentário na imprensa por parte de altas autoridades. A cobertura dos protestos até agora no L’Osservatore Romano, jornal vaticano, tem sido restrita, fornecendo as últimas notícias, e nada mais.

É preciso dizer: nada disso significa que o Vaticano não esteja prestando atenção.

Pelo contrário, há poucas relações diplomáticas nas quais o Vaticano tem investido um maior esforço nos últimos anos do que as relações com Teerã, considerando este como um ente fundamental não só para uma série de situações espinhosas ao redor do mundo, incluindo a Síria e o desarmamento nuclear, mas também numa busca mais ampla para evitar o temido “choque de civilizações”.

Do lado de Teerã também, há inúmeros sinais claros de que ele leva a sério os seus laços com Roma. De certo modo, as relações diplomáticas do Irã com o Vaticano são mais antigas do que as de Washington, já que sobreviveram ao choque da Revolução Iraniana em 1979 de forma ininterrupta. Eis um fato pouco conhecido porém revelador: ainda hoje, o Irã tem mais diplomatas acreditados em sua embaixada vaticana do que qualquer outro país exceto a República Dominicana.

Fundamentalmente, o Irã não quer ser visto como um “Estado perverso”, e um engajamento positivo com o líder cristão mais visível do planeta é um modo poderoso de se distinguir entre as forças radicais dentro do mundo islâmico. Mais que isso: estar em bons termos com o papa é também visto como um modo de o Teerã contrariar a sua relação geralmente fria com as demais potências ocidentais, sobretudo os EUA na era Trump.

Os últimos meses trouxeram sinais claros de um alinhamento entre Roma e Teerã em temas grandes e pequenos.

Francisco e o presidente iraniano Hassan Rouhani viram-se parceiros, por exemplo, na denúncia da decisão do presidente americano em transferir a embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Rouhani chegou até mesmo a enviar os seus cumprimentos de natal ao pontífice, dizendo: “É da responsabilidade dos políticos, estudiosos e pensadores religiosos criar um mundo belo pleno de paz e moderação, livre da violência e do extremismo com a ajuda dos demais, e deixar este legado para o futuro”.

Desde a questão geopolítica à cooperação no nível do varejo, quando um terremoto atingiu o Irã em novembro, deixando 454 mortos e mais de 7 mil feridos, uma rápida resposta veio do grupo católico de caridade Caritas Itália, que entrou em ação, com a permissão do governo, em esforços que mais tarde foram elogiados pelas autoridades iranianas.

Num nível mais profundo, muitos especialistas nas relações entre cristãos e muçulmanos sustentam haver uma afinidade espiritual natural entre os católicos e o Islã xiita predominante no Irã, que inclui uma forte tendência à religiosidade popular e à devoção, uma mistura de escrituras e tradição, além da liderança de uma casta clerical.

Diante disso tudo, a cautela do Vaticano em adentrar o universo dos protestos atuais pode ser compreensível.

De um lado, a situação nas ruas do Irã não está clara, pelo menos em termos de seus desdobramentos. Se o papa disser algo percebido como a incentivar os protestos, poderá se ver mais violência e uma deterioração nas relações com Teerã; se o Vaticano permanecer silente, poderá ser visto como em concordância diante das aspirações legítimas por mais democracia e oportunidades econômicas.

Fosse um terremoto ou inundações, digamos, seria muito mais fácil manifestar solidariedade sem ser aparentemente partidário.

Além disso, um Irã desestabilizado teria consequência em toda a região, incluindo o Líbano, a Síria e o Iraque – aliás, todos países onde a presença católica é, em geral, amiga de grupos políticos aliados ao Irã, entre eles o Hezbollah no Líbano. Um Irã em tumulto poderia também atrapalhar as iniciativas em torno do desarmamento nuclear, causa na qual o Vaticano esteve particularmente ativo em 2017 – com Francisco a encerrar o ano circulando um cartão que carregava uma imagem do “fruto da guerra”.

Há também o princípio – nem sempre seguido, mas mesmo assim um princípio – de que os comentários da Igreja em questões políticas de um país devem vir dos bispos locais ao invés de ser feito pelo representante papal nele sediado.

Recentemente vimos uma reiteração explícita disso num contexto bastante diferente, a República Democrática do Congo. Quando contatado para comentar sobre os protestos contra o governo no país, que deixaram pelo menos oito mortos, o escritório do embaixador papal disse que “a promoção da justiça social e a defesa dos direitos civis e políticos dos cidadãos são parte integrante da doutrina social da Igreja”, mas acrescentou que era o lugar do arcebispo de Kinshasa, não do Vaticano, dizer se os protestos eram legítimos.

Finalmente, há também a verdade dura e crua de que o Vaticano possui um outro grupo que deve considerar antes de fazer qualquer declaração sobre o Irã, que é a minoria cristã local. A situação aqui é tênue, com grupos cristãos históricos pequenos tolerados, mas relegados a uma espécie de cidadãos de segunda classe, ao mesmo tempo em que aqueles que se convertem ao cristianismo enfrentam perseguições e violência.

(De acordo com alguns analistas, a quantidade destas pessoas não é grande. No ano passado, a organização Operation World considerou o Irã como o país onde mais cresce o número de evangélicos. Em 1979, estimava-se haver 500 cristãos vindos do islamismo no Irã. Hoje, os relatos são de centenas de milhares a mais de um milhão.)

Portanto, qualquer papa ou diplomata do Vaticano deve, sempre, avaliar se um comentário qualquer será motivo para facilitar ou piorar a vida de uma comunidade cristã minoritária, e muitas vezes este é o motivo para se ter cautela.

O papa terá uma outra oportunidade para se pronunciar sobre o Irã, quando pronunciará o discurso anual ao corpo diplomático acreditado no Vaticano, geralmente considerado o seu discurso sobre política externa mais importante do ano.

Dependendo de como as estrelas se alinharem, não devemos apostar que Francisco vá dizer alguma coisa arriscada neste dia. Mesmo se ele decidir que a discrição é o melhor a se ter, podemos ter certeza de que os seus funcionários estão a pleno vapor, analisando e monitorando a mais recente crise iraniana.

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