Português inimigo da austeridade presidirá os ministros da Economia europeus

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05 Dezembro 2017

Todas as presidências de instituições europeias estão em mãos de conservadores. Todas? Não: o Eurogrupo, a reunião informal de ministros de Economia e Finanças da zona do euro, resiste em mãos dos social-democratas. O ministro da Fazenda de Portugal, Mário Centeno, conseguiu nesta segunda-feira a presidência do Eurogrupo, em uma votação à qual se apresentaram também o liberal luxemburguês Pierre Gramegna, o socialista eslovaco Peter Kazimir e a liberal letã Dana Reizniece-Ozola.

A reportagem é de Claudi Pérez, publicada por El País, 04-12-2017.

Centeno, ex-professor de Harvard especialista em mercado de trabalho, coloca um ponto final simbólico à narrativa da austeridade: a Europa, em sua opinião, aplicou uma receita “errada, parcial e incompleta”, como ele disse meses atrás a este jornal, e receitou um grande número de reformas e cortes para uma crise fiscal, quando a Grande Recessão era uma crise múltipla originada no mercado financeiro e que só foi puramente fiscal na Grécia. Juntamente com a Alemanha de Angela Merkel e Wolfgang Schäuble, o supostamente social-democrata Jeroen Dijsselbloem esteve na posição dos credores com relação às políticas econômicas do Eurogrupo. Mas Schäuble já não está no posto. E o sucessor do holandês Dijsselbloem, Centeno tem a chance de virar essa página definitivamente. “É a oportunidade de escrever um novo roteiro para a eurozona”, disse aos jornalistas.

Centeno integra da coalizão de esquerda que governa Portugal, quase uma raridade na Europa. Aplicou reformas e cortes, mas defende um timing diferente, combinado com políticas de incentivo à demanda. “A lição fundamental [da gestão europeia da crise] é que, para funcionar, as reformas precisam de tempo, além de políticas de demanda. Essa não é a receita de Bruxelas: portanto, é preciso explicar isso no Eurogrupo. Mas essa tem que ser a receita da esquerda. Funciona: em Portugal, aprovamos orçamentos com restrições, mas não estigmatizamos as políticas de demanda. Seria ainda melhor se fossem políticas de estímulo europeias, pois os limites para países como Portugal são evidentes. Conseguimos fazer políticas e reduzir a carga fiscal com nossos sócios da coalizão, mas dentro das regras”, disse ao El País em junho.

“É preciso fortalecer a zona do euro”, declarou em sua primeira coletiva, “tirar lições do que fizemos e completar o que ainda falta.” A cúpula do euro, em meados do mês, será a primeira prova de fogo após as propostas da Comissão Europeia para a reforma da União Econômica e Monetária, que serão apresentadas nesta quarta-feira. Bruxelas pretende transformar o mecanismo de ajuda (Mede) em um Fundo Monetário Europeu que possa resgatar os países com problemas e servir de “corta-fogo” para fechar bancos com problemas financeiros. Elaborou também um orçamento anticrise para o euro menos ambicioso do que parecia inicialmente. E quer um superministro de Finanças que seja vice-presidente da Comissão e presida o Eurogrupo em 2020, quando expirar o mandato de Centeno, que terá início em janeiro. “A eurozona deu grandes passos nos últimos tempos, mas ainda há muito a fazer para assegurar a estabilidade financeira, voltar à convergência e aumentar a resistência do euro”, afirmou Centeno. “Existe um grande consenso no Eurogrupo sobre tudo isso.”

Mas esse consenso é hoje um queijo gruyere com um buraco no meio: Centeno é consciente de que o Governo alemão está ocupando o cargo. E sabe que, uma vez transformado no sucessor de Dijsselbloem, para seu trabalho será fundamental conhecer o nome do sucessor de Schäuble, autêntico cacique do Eurogrupo durante quase uma década.

O novo presidente deveria se alinhar com políticas econômicas mais expansivas e as posições tradicionais da social-democracia, numa eurozona que saiu da Grande Recessão graças às políticas monetárias de Draghi, apesar do viés austero da política fiscal. Essa é a guinada que muitos esperam do ministro das Finanças português. No momento, porém, a chegada de Centeno é também o adeus do autor desta frase, Jeroen Dijsselbloem: “Não posso gastar todo meu dinheiro com álcool e mulheres, e depois pedir ajuda.

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