Desempregado migra para SP e mora na rua por emprego em ação de Doria

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01 Dezembro 2017

Havia dois anos que Antônio Roberto da Conceição, 47, tinha perdido o emprego de gari em Maragogipe, a 53 km de Salvador, na Bahia.

Em uma pesquisa na internet com a palavra-chave "trabalho", ele chegou até uma notícia na qual o prefeito João Doria (PSDB) prometia empregar 20 mil moradores de rua até o fim do ano por meio do programa Trabalho Novo.

A reportagem é de Mariana Zylberkan, publicada por portal Uol, 01-12-2017.

Voltado aos sem-teto que vivem em São Paulo justamente para diminuir a população de rua da capital, o programa da gestão tucana tem atraído desempregados de outras cidades e Estados, que veem nas promessas do prefeito uma chance de recolocação no mercado de trabalho. As vagas são de cerca de um salário mínimo e incluem registro em carteira.

Para isso, porém, o desempregado migrante precisa se transformar em morador de rua. Aqueles que desembarcam na capital se submetem a dormir por um tempo nas ruas até serem encaminhados a um abrigo da prefeitura e entrar na fila por uma vaga oferecida pelo programa.

A Folha percorreu nos últimos dias locais para atendimento de moradores de rua na capital e encontrou pelo menos 14 pessoas que se mudaram recentemente a São Paulo após terem ouvido falar das vagas de emprego oferecidas pela gestão Doria.

Foi o que fez o gari. Ele deixou os bicos de pescador e rodou 1.900 km em um ônibus com a esperança de sair da fila do desemprego em São Paulo. "Morei algumas semanas na rua antes de ser encaminhado para um abrigo. Como o clima era pesado, procurava sempre dormir perto de alguma base da polícia ou em locais movimentados", diz Conceição, que vive desde o início de julho em um abrigo municipal na região de Santana, na zona norte.

A busca por uma vaga chegou ao fim após dois meses, quando foi selecionado para trabalhar na lavanderia do CTA (Centro Temporário de Acolhida) da Barra Funda, na zona oeste, onde ganha R$ 1.200, o dobro de seus vencimentos como gari na Bahia.

Nas próximas semanas, ele planeja se mudar para a casa que acabou de alugar por R$ 400. "Quero trazer o resto da minha família para participar do programa."

Ao menos outros oito conterrâneos da pequena cidade no interior baiano seguiram o mesmo percurso e rumaram para São Paulo em busca de emprego com ajuda da prefeitura. Dois já foram selecionados para vagas do programa após passarem um período curto nas ruas antes de conseguirem vaga em abrigo.

Para se tornar elegível às vagas disponibilizadas pelo Trabalho Novo, os participantes devem estar abrigados em algum equipamento da prefeitura. Não podem, por exemplo, estar morando nas ruas –esse um pré-requisito para conseguir vaga nos albergues.

Além disso, os interessados devem passar por um processo de capacitação de uma semana. Segundo a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, de fevereiro a novembro, 1.502 pessoas foram contratadas por meio do programa, e 2.978 foram capacitadas e ainda aguardam por uma vaga. Entre os que conseguiram o trabalho, 135 foram depois desligados.

Para o secretário de Assistência Social, Filipe Sabará, essa migração de pessoas para São Paulo não afeta o programa. "O acolhimento é oferecido a quem está na rua, não importa se por um dia ou por quatro anos", afirma.

Além disso, ele ressalta que é esperado no fim do ano o aumento de migrantes que se transformam em sem-teto por causa das doações de Natal. "Isso só mostra a gravidade da crise que o país está passando. São Paulo ainda é um destino visto como boa oportunidade de emprego."

'Criança na selva de pedra'

Desempregado e recém-separado, Darlei Belinelli Júnior, 38, decidiu viajar a São Paulo há cerca de dois meses para tentar um trabalho assim que soube da promessa de vagas de João Doria (PSDB). Sem dinheiro nem para o transporte, conta que andou por 20 dias entre Londrina, no Paraná, e a capital paulista.

Quando chegou, sem ter para onde ir após a maratona de 540 km, lembra que foi parar na Estação da Luz, no centro de SP, onde pretendia aguentar alguns dias na calçada até ser recolhido pela prefeitura para um abrigo.

Como a estação é próxima da cracolândia, entregou-se ao vício em álcool e drogas. Após uma "noite horrenda", quando diz ter ficado com medo das drogas, decidiu pedir ajuda para se internar.

Passou 40 dias em processo de desintoxicação como participante do programa anticrack da prefeitura.

"Eu me senti como uma criança na selva de pedra. Agora minha esperança é arrumar trabalho", diz Júnior sobre sua vinda a São Paulo.

Ele espera conseguir um emprego em que possa usar sua experiência em lavanderia industrial acumulada durante os dois anos em que viveu na Irlanda. Com cidadania italiana, Júnior espera se estabilizar novamente antes de voltar para a Europa. "Quem sabe daqui algum tempo consigo ir de férias para lá."

Diploma 

As drogas também acabaram interferindo nos planos de Gilmour Ramos, 40. Há sete meses em São Paulo, partiu de Guararema, no interior paulista, de olho na chance de sair do desemprego devido à promessa de Doria.

Como morou durante dez anos nos EUA e tem diploma em letras, planejava dar continuidade às aulas de inglês que ministrava no interior.

Ele lembra que, no começo, chegou a dividir o aluguel com um amigo em Taipas, na zona norte, e dar algumas aulas do idioma, mas o vício em drogas o levou de vez para a cracolândia, poucas semanas depois.

"Lembro que estava no metrô indo dar aula quando pesquisei 'cracolândia' no celular. Vi que estava perto e resolvi ir até lá para dar uma olhada. Fui e não saí mais de lá por um tempo", afirma.

Depois de gastar todo o dinheiro que tinha e trocar até a roupa e os tênis que usava por pedras de crack, Ramos decidiu que queria largar o vício. Foi acolhido em um dos contêineres instalados pela gestão Doria na região central para dar cama e refeições aos usuários de drogas.

Há cerca de três semanas ele conseguiu retomar a rota que havia traçado para si quando saiu de Guararema e se mudou para um abrigo na Barra Funda. Ele se prepara para passar pelo curso de capacitação do Trabalho Novo na próxima semana.

Ônibus

A espera pelo estágio preparatório também faz parte dos dias do eletricista Valter dos Santos, 54, que partiu de Ponta Grossa (PR) para SP por causa do Trabalho Novo.

Sem emprego formal há quase três anos, encarou viagem de quatro dias em seis ônibus intermunicipais para economizar na passagem. No caminho, chegou a trocar serviços de eletricista por pratos de comida. Lembra que percorreu a maior parte do trajeto com apenas R$ 15 no bolso.

"[Quando cheguei a SP] uma assistente social disse que eu tinha o perfil do projeto do Doria e me encaminhou para um centro de acolhida", diz ele, que tem feito consertos pela vizinhança do abrigo enquanto espera por uma vaga fixa de emprego.

Vindo há dois meses de Campinas, no interior de SP, o ajudante de pedreiro Rener da Silva Santos, 30, foi contratado para trabalhar em limpeza hospitalar por uma empresa participante do programa. Ele veio para a capital ao ser informado por uma amiga sobre as vagas da prefeitura.

"Com a crise, os bicos que eu fazia diminuíram", lembra ele, que mora em um centro de acolhimento da zona leste.

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