''O Islã aprisiona os corpos das mulheres.'' Entrevista com Kamel Daoud

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25 Novembro 2017

“Escrever é o único estratagema eficaz contra a morte. Os homens tentaram com a oração, as drogas, a magia ou a imobilidade, mas acho que sou o único que encontrou a solução: escrever.”

A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 24-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Kamel Daoud manteve durante anos uma coluna no jornal Le Quotidien d’Oran, ponto de referência do debate intelectual na Argélia. A publicação do romance “O caso Mersault” projetou-o para um sucesso internacional.

Daoud tornou-se um dos intelectuais mais ouvidos e publicados no Ocidente, com posições às vezes controversas, nunca alinhadas. O escritor argelino não quer ser porta-voz de ninguém, nem das vítimas do “Sul” ou do “chamado mundo árabe”, nem das razões do “Norte” ou do Ocidente.

Le mie indipendenze [As minhas independências] (que é publicado agora na Itália pela editora La Nave di Teseo) é uma seleção dos artigos publicados entre 2010 e 2016, em que se encontram muitas das suas posições e ideias: sobre as mulheres, a sexualidade, o islamismo, o Deus subtraído ao dogma. O estilo é sempre franco, áspero, fulgurante.

Eis a entrevista.

No livro, há também o artigo sobre as violências sexuais do da virada do ano de 2015 em Colônia, que você escreveu para o nosso jornal e que lhe valeu muitas críticas e a acusação de islamofobia e fez com que você se decidisse a se retirar da cena pública por um tempo. Você ainda o reescreveria hoje?

Da primeira à última linha. Só vou parar de dizer que há um problema com a relação com o corpo, o desejo e a sexualidade no mundo árabe-muçulmano no dia em que as mulheres puderem sair à noite, dispor do seu corpo, ter direito ao prazer e ao orgasmo.

É um tema sobre o qual você reflete há muito tempo. O primeiro artigo da coleção, datado de 2010, intitula-se “Descolonizar o corpo”. O que significa?

Na Argélia, assim como em outros países chamados árabes, transmite-se um culto ao corpo morto, não se faz nada mais do que recordar os mártires, os caídos das guerras. Estamos impregnados com o elogio da morte e do sacrifício, não do desejo, do encontro dos corpos, do prazer sexual. Além disso, somos filhos de uma cultura religiosa muito específica, que nos priva do nosso corpo, a nudez deve ser escondida, a sexualidade é sempre perversa. A única maneira de gozar fisicamente é morrer e renascer no paraíso. Já cheguei à conclusão de que muitos dos nossos problemas passam por essa relação patológica com o corpo.

Você não acha que o escândalo de Weinstein e tudo o que ele está provocando nos dizem algo sobre a relação com o corpo no Ocidente?

No mundo árabe-muçulmano, põe-se o véu no corpo da mulher. No Ocidente, ao contrário, o corpo é o véu sobre a mulher. No Ocidente, não se trata de libertar o corpo, mas de libertar a mulher. E eu acho que está em curso um movimento não só feminista, mas universal.

Você ficou surpreso com as acusações de violência sexual contra o pregador muçulmano Tariq Ramadan?

O caso em si não me interessa muito. A Justiça é quem vai decidir qualquer culpabilidade. Mas me chamam a atenção as reações entre nós, no Sul e nas comunidades muçulmanas na Europa: rapidamente se desliza para a conspiração, para a paranoia. Muitos muçulmanos têm uma atitude de rejeição em relação à realidade. E há também uma extraordinária injustiça em relação àquilo que eu sofri logo depois do meu artigo sobre Colônia.

Na instrumentalização do escândalo?

Haviam me acusado de essencialismo com base em um fato da crônica, embora a minha reflexão fosse mais ampla e antiga. Hoje, as mesmas pessoas usam o caso Ramadan para fazer aquilo de que me acusam, ou seja, reduzir um todo, uma comunidade, a um homem. Ramadan não representa o Islã. É escandaloso dizer isso. Eu sou contrário a essa generalização, mesmo não tendo nenhuma simpatia por Ramadan, ao contrário, acho que a religião deveria finalmente se livrar dos pregadores.

É mais difícil se expressar quando se torna um intelectual global?

No início, houve um efeito quase paralisante. Quando você escreve para um circuito fechado, você está mais ou menos certo de que o texto será interpretado no sentido desejado. No momento em que você entra no circuito internacional, cada frase pode assumir muitas interpretações. Um comentário meu intitulado “Em que os muçulmanos são úteis para a humanidade” não é lido do mesmo modo na Argélia e na Europa. É uma equação difícil de resolver.

Como escrever sem ser mal interpretado ou instrumentalizado?

O dilema apareceu em igual medida na Guerra Fria, entre aqueles que denunciavam o stalinismo e eram acusados de fazer o jogo do imperialismo, e aqueles que elogiavam o comunismo, silenciando os horrores do gulag. Quero denunciar o stalinismo e os gulags. Se os meus textos são instrumentalizados por alguns extremistas, paciência. A alternativa seria optar por um silêncio prudente, dar-se por vencido.

Você não foi apenas objeto de críticas, mas também recebeu insultos, ameaças de morte.

A responsabilidade dos intelectuais evoluiu na era da internet com uma difusão que não tem mais fronteiras geográficas, fusos horários, barreiras linguísticas. Depois de passar por um momento de crise, de refletir longamente, eu disse que – em qualquer caso – eu não sou responsável pela forma como os outros me leem. E também nem quero antecipar qual será a reação aos meus textos. Estou vivo e quero continuar me ocupando de coisas que machucam, ferem e fazem mal justamente porque fazem parte da vida.

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