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21 Novembro 2017

"Dentro da frente popular a ser criada contra essa difusão rasa de linguagens e ideias de extrema direita se destacam três categorias: plataformas on-line, as figuras públicas e os nossos vizinhos. Por parte das plataformas serve primeiramente mais transparência. É preciso que Twitter, Facebook e similares percebam com maior antecedência que suas plataformas estão sendo exploradas pelos russos e por outros mal-intencionados a fim de influenciar o referendo sobre o Brexit ou sobre as eleições nacionais, e compartilhem conosco, usuários, os seus achados", escreve Timothy Garton Ash, escritor britânico, em artigo publicado por la Repubblica. A tradução é de Luisa Rabolini, 18-11-2017.

Eis o artigo. 

Todas as escolas de jornalismo no mundo deveriam mostrar aos alunos o vídeo em que um repórter da televisão estatal polonesa pergunta todo animado a um sujeito de meia-idade com um boné branco e vermelho (as cores da bandeira polonesa) o que significa para ele participar da manifestação convocada em Varsóvia para celebrar o Dia da independência nacional de 11 de novembro.

"Significa tirar o poder das mãos... dos judeus!" foi a resposta. Considerando que na Polônia está no governo o partido nacionalista populista de direita Lei e Justiça (PiS), quais seriam esses judeus no poder? O líder do partido, Jaroslaw Kaczynski? A premiê, Beata Szydlo? Ou alguém que está no poder em algum outro lugar, como Donald Trump, Theresa May ou Mark Zuckerberg? Ou os judeus em Marte?

Perdendo clamorosamente a rara oportunidade de entrevistar um antissemita pronto para se abrir diante das câmeras, o jornalista, embaraçado, virou-se para uma mulher ao lado, repetindo mais ou menos a mesma pergunta. Ela mostrou-se de acordo com o entrevistado anterior e declarou-se orgulhosa de estar nas ruas entre outros compatriotas. Então, o repórter virando-se para a câmera exclamou eufórico: "Este é o orgulho de ser polonês!".

Como é possível que alguém assim seja um jornalista? Na verdade não passa de um medíocre reporterzinho que trabalha para uma rede pública, TVP-Info, agora aviltada para canal de propaganda do PiS, e que se atém rigorosamente à linha do partido.

Concentro-me no jornalista e não no antissemita porque confrontado com uma realidade global de ideias e slogans da extrema-direita, tanto em Charlottesville como em Varsóvia, Dresden ou Moscou, a verdadeira questão é uma só: como reagir?

Primeiro é preciso entender o que está acontecendo. Em qualquer caso, estamos lidando com um extraordinário conjunto de elementos locais e transnacionais. Esta "marcha da independência" de 11 de novembro, por exemplo, vem sendo realizada há alguns anos em Varsóvia, organizada por grupos de direita locais e foi gradualmente crescendo, atingindo 60.000 participantes. Na manifestação, organizada este ano sob o lema "Nós queremos Deus" participaram uma espécie de "black blocs" de extremistas fascistas e radicais de direita, carregando uma faixa "Europa branca fraternidade de nações". No centro era orgulhosamente exibida uma cruz celta, um símbolo que raramente é visto na Polônia, mas em outros lugares é prerrogativa dos supremacistas brancos. Em outra faixa estava escrito "Deus Vult" (Deus quer), o grito de guerra da primeira Cruzada, também patrocinada pela extrema direita transnacional. A marcha contou com a presença dos líderes de outros países, incluindo Itália, Grã-Bretanha, Hungria e Eslováquia.

Enquanto no passado os nacionalistas tendiam a ser nacionais, existe hoje uma rede internacional de xenófobos de extrema direita. Deveríamos chamá-lo de Sexta Internacional (depois de cinco para a esquerda, uma vai para a direita)? Esses modernismos reacionários fazem uso hábil das mídias sociais para difundir suas mensagens sorrateiras. Um recente relatório do Institute for Strategic Dialogue mostra que algumas das hashtags mais populares em favor do partido nacionalista populista Alternative für Deutschland (AfD) durante as eleições alemãs de setembro foram difundidas maciçamente por ativistas de extrema-direita. Com a AfD no papel do segundo maior partido da oposição, a Alemanha é mais um exemplo das perigosas ligações entre o nacionalismo conservador e extremismo de direita. Mas, isso também não seria válido para a América de Trump? Para não falar da linguagem usada em um tweet pela conta oficial da organização em favor do BrexitLeave EU’, que define como "um câncer dentro de seu próprio partido e traidores de seu país", os 15 parlamentares conservadores contrários à emenda que insere a data de saída da UE na correspondente lei.

Dentro da frente popular a ser criada contra essa difusão rasa de linguagens e ideias de extrema direita se destacam três categorias: plataformas on-line, as figuras públicas e os nossos vizinhos.

Por parte das plataformas serve primeiramente mais transparência. É preciso que Twitter, Facebook e similares percebam com maior antecedência que suas plataformas estão sendo exploradas pelos russos e por outros mal-intencionados a fim de influenciar o referendo sobre o Brexit ou sobre as eleições nacionais, e compartilhem conosco, usuários, os seus achados.

As figuras públicas precisam estigmatizar todo excesso no debate político legítimo. O governo polonês acaba de dar uma prova em contrário, quando vários ministros desqualificaram a realidade dos fatos falando de "acidentes" ou "provocações" no âmbito de uma manifestação "de outra forma belíssima" (para salvar a honra da Polônia, interveio o Presidente Duda com o seu veto). Outro exemplo negativo chega do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, que defende qualquer afirmação indefensável de Trump como se fosse a vontade de Deus. Os defensores honestos do Brexit deveriam manter distâncias de discursos venenosos recheados de expressões como câncer e traição.

Mas não são apenas os políticos que falharam. Na Polônia, foi vergonhoso o silêncio da cúpula da Igreja Católica, que não se manifestou sequer em defesa daquele "Nós queremos Deus" distorcido para fins políticos. Depois vêm os jornalistas, que certamente não têm a função de proferir sermões sobre o politicamente correto, mas sim de registrar, investigar e relatar.

Também os professores, os jogadores de futebol, as estrelas de cinema e televisão têm a sua voz ouvida. E depois temos você e eu, porque agora todos nós vivemos lado a lado com pessoas sensíveis a tais opiniões extremas - se não fisicamente, certamente no nível virtual.

Sempre que nos deparamos com determinado tipo de ideias, no bar, no campo de futebol ou no Facebook, precisamos nos manifestar, rebater. Não precisa obrigatoriamente ser uma polêmica rancorosa, pode-se usar também a arma da ironia, um grande antídoto contra o fanatismo. Neste espírito, gostaria de propor um novo prêmio para o péssimo jornalismo, conferindo-o ao alegado jornalista da TVP-Info.

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