''O papa nos ensina a aceitar a nossa irmã morte corporal.'' Entrevista com Vincenzo Paglia

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20 Novembro 2017

“Nem eutanásia, nem obstinação, nem abandono do doente, mas aceitação da nossa irmã morte corporal”, defende Dom Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, para explicar a mensagem que o Papa Francisco lhe enviou por ocasião do Encontro Regional Europeu da World Medical Association (WMA), a maior associação de médicos, com sede em Paris, que reúne em todo o mundo mais de 10 milhões de associados.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por L’Huffington Post, 16-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que a WMA realiza o seu congresso no Vaticano, nos dias 16 e 17 de novembro?

Eles nos pediram isso. Foram eles que quiseram envolver a Pontifícia Academia para a Vida sobre um tema significativo para toda a sociedade humana, como o fim da vida: é isso que dá razão também da escolha da sede, o próprio coração da Cidade do Vaticano. Precisamos de lugares em que o diálogo possa acontecer para além das paixões que se desencadeiam sobre temas candentes e controversos, não só pelo pluralismo que caracteriza o mundo de hoje, mas também pelo impulso exercido por eventos que se tornaram clamorosos pela crônica. De fato, é mais do que nunca oportuno não parar nas primeiras reações e nos aspectos emocionais, mas procurar as razões profundas das escolhas a serem feitas pelo bem.

Para dar um exemplo claro: na sua opinião, o discurso do papa é uma luz verde para casos como o do DJ Fabo?

Absolutamente não. A morte do DJ Fabo foi provocada, foi um suicídio assistido, não tem nada a ver com o que o papa disse hoje. O papa, ao falar da obstinação terapêutica, pretendeu dizer que é possível não usar tratamentos e meios desproporcionais para a situação concreta do paciente, e que, no fim das contas, acabam por penalizá-lo muito. Chega um ponto em que é preciso reconhecer que a vida acaba. Não se pode nem provocar a morte com a eutanásia, nem manter vivo um corpo a todo o custo, prejudicando uma pessoa. A técnica, os grandes avanços feitos pela medicina não são “a” salvação. Dou o exemplo macroscópico daqueles que querem se hibernar para esperar até serem despertados novamente daqui a 100 anos em um mundo em que possam ser novamente trazidos à vida.

O papa cita o famoso discurso de Pio XII aos anestesistas contra a obstinação terapêutica, um documento da Congregação para a Doutrina da Fé e várias vezes o Catecismo da Igreja Católica. Então, onde está a novidade?

Há uma novidade que está dentro de uma continuidade com o magistério dos últimos papas. Certamente, há uma linguagem nova, à qual o Papa Francisco nos acostumou. Uma linguagem não apodítica, em que é sublinhado o fato de a morte fazer parte da vida terrena. Depois, aqui é preciso considerar o rápido desenvolvimento da técnica – às vezes invasiva – que requer um contínuo discernimento das situações. Certamente, deve haver proporcionalidade das intervenções terapêuticas, que não devem se transformar em uma tortura. É um princípio tão simples de se afirmar na teoria quanto difícil de interpretar na prática.

E as declarações antecipadas de vontade, as chamadas DAV?

As dificuldades crescem principalmente quando a pessoa não é mais capaz de exercer a própria competência decisional. É nessa situação que as Declarações Antecipadas de Vontade podem fornecer à equipe de tratamento uma indicação válida sobre a vontade do paciente. Naturalmente, é preciso que elas sejam recolhidas com a devida atenção. Em primeiro lugar, a qualidade da comunicação que deveria caracterizar o diálogo no caminho que leva à sua formulação. É preciso evitar reduzir as declarações a um ato burocrático, avulso ao contexto médico-sanitário e desprovido do conveniente acompanhamento em um clima de confiança mútua.

E aqui vale o forte apelo à proximidade amorosa, de que o Santo Padre fala na mensagem que nos dirigiu. Uma proximidade que não deve ser entendida em uma ótica paternalista e dirigista, em contraste com a autodeterminação, conscientes de que estamos todos ligados uns aos outros. Por isso, o doente, no seu fim de vida, não deve ser abandonado nem nas decisões, nem no tratamento. Nessa perspectiva, o papa enfatiza a importância da medicina paliativa e, mais ainda, de que o homem sempre deve ser acompanhado, deve permanecer em relação com o seu médico, com a sua família, com os seus amigos. Devemos ficar atentos para não fugir da responsabilidade de estar ao lado do sofredor; devemos ajudar quem morre a enfrentar de forma humana – e, para mim, cristã – o último trecho da sua vida.

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