A Igreja dos “príncipes” contra Francisco - um vídeo espantoso

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13 Novembro 2017

O vídeo que este post apresenta é, talvez, a mais condensada e simbólica representação da oposição conservadora ao Papa Francisco e seu projeto. A cena aconteceu numa das basílicas do Santuário de Fátima, em Portugal. O personagem é o cardeal estadunidense Raymond Burke, líder da oposição a Francisco.

São 14min15seg impressionantes.

A reportagem é de Mauro Lopes, publicada em Caminho pra casa, 11-11-2017.

Mais da metade do tempo dedica-se a mostrar o cardeal sendo montado, em pleno altar – o vídeo começa quando a vestição de Burke já havia sido iniciada, o que leva a crer que a montagem completa talvez tenha se prolongado por mais de 10 minutos.

O ambiente da cena oscila entre o surreal e o macabro, algo como um filme dos anos 1970/80 sobre a realeza decadente. O “príncipe” cercado por uma corte de homens de cenho cerrado, vestido com capas negras ou púrpuras, algo como um retrato em negativo da klu klux klan, sem os capuzes.

Aos 3min25 há uma cena difícil de acreditar que tenha acontecido depois de todos os escândalos de pedofilia e abuso de menores da Igreja: um menino leva ao cardeal seu barrete cardinalício, um chapéu que é um símbolo de caráter evidentemente fálico do poder dos hierarcas da Igreja. O menino ajoelha diante de Burke um sem-número de vezes e é orientado a beijar uma das pontas do barrete e da capa magna, um verdadeiro fetiche dos conservadores – é simbólico que um homem, adulto, fique todo o tempo conduzindo o menino no ritual de ajoelhar e beijar.

Este é o projeto de uma Igreja imperial que a oposição a Francisco tem a apresentar ao mundo. Chega a ser inacreditável que eles tenham ainda alguma expressão.

Que diferença com a simplicidade de Francisco e sua Igreja pobre com os pobres!

Uma descrição magistral desse projeto foi resumida em apenas um parágrafo por um dos maiores nomes da Igreja contemporânea, o dominicano francês Yves Congar, que sofreu por mais de 30 anos perseguições e punições de toda ordem pela Cúria romana e seus prepostos.

Foi escrita em 11 de outubro de 1962, em pleno Concílio Vaticano, do qual Congar foi talvez o principal protagonista, em confronto com os Burke da época, liderados pelo cardeal Ottaviani e pelo arcebispo Marcel Lefebvre – os dois, como os conservadores de hoje, repudiaram o concílio em menor ou maior grau.

Leia a descrição de Congar e constate como ela antecipou a cena de Burke em Fátima:

Vejo o peso daquilo a que nunca se renunciou, do período em que a Igreja se comportava como um senhor feudal, quando detinha poder temporal, quando o papa e os bispos eram lordes que tinham suas cortes, eram mecenas de artistas e pretendiam uma pompa igual à dos Césares. A isso a Igreja nunca repudiou em Roma. Deixar o período constantino para trás nunca fez parte de seu programa”[1].

Nota:

[1] CONGAR, Yves. My Journal of the Council. 1ª ed. Adelaide: ATF Press, 2012. P. 124.

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