Economia em sandálias. Entrevista com Daniel Schteingart

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09 Novembro 2017

Doutor em Sociologia e mestre em Sociologia Econômica, este pesquisador concentra seus esforços na análise de modelos de desenvolvimento econômico comparado, dos problemas do perfil produtivo dos países e da dinâmica da pobreza e da desigualdade.

Quanto os argentinos sabem sobre economia? Como ler os dados que são repetidos ao infinito na mídia? A que modelo de desenvolvimento a Argentina deve aspirar? A partir da sociologia econômica, Daniel Schteingart – doutor em Sociologia, mestre em Sociologia Econômica (Unsam) e pós-doutorado do Conicet – tenta esclarecer estas e muitas outras perguntas que vinculam o cotidiano com a economia. Atualmente, concentra seus esforços na análise de modelos de desenvolvimento econômico comparado, estudando as problemáticas do perfil produtivo dos países e a dinâmica da pobreza e da desigualdade.

A entrevista é de Pablo Esteban, publicada por Página/12, 08-11-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que a sociologia econômica estuda?

Ela se liga à construção de uma perspectiva social em relação aos processos econômicos e o objetivo é entender que por trás de categorias como "desenvolvimento", "consumo", "crescimento" e "emprego" existem ideias subjacentes, que podem ser abordadas a partir do quadro fornecido pelas ciências sociais. A sociologia econômica pode funcionar como uma resposta a algumas abordagens da economia ortodoxa, que conservam um viés que tende a pensar nos indivíduos como agentes racionais, maximizadores da utilidade, separados da história e da cultura. Trata-se de uma perspectiva que recupera o interesse no conflito social, com base na reflexão sobre as relações entre o Estado, os empresários e os sindicatos.

No entanto, ultrapassando alguns postulados anacrônicos, hoje existe um consenso ao afirmar que a economia é uma ciência social.

Claro. Também é verdade que a economia, ao contrário de outras ciências sociais, usa doses maiores de matemática. Esta característica pode conferir-lhe um sinal distintivo. Devemos promover a fertilização cruzada entre as disciplinas.

Quanto você acha que os argentinos sabem sobre economia? Sempre que se discute questões como inflação, PIB ou pobreza, nunca se sabe realmente o que está sendo discutido.

Há conhecimentos práticos e também intuições que devem ser contempladas. Por exemplo, quando um cidadão vai ao açougue, ele entende o que é a inflação, quando negocia o salário, ele interpreta aspectos relacionados ao "poder aquisitivo" e ao "conflito distributivo", da mesma forma que quando se observa um morador de rua se pode refletir sobre o conceito de "necessidade básica insatisfeita" e pobreza. Interagimos o tempo todo com as dimensões econômicas, por isso é fundamental aprender a consumir os dados que fazem chover sobre nós todos os dias.

O que implica "aprender a consumir os dados"?

Muitas vezes, consumimos os dados como quando comemos um alimento pré-processado, sem observar a informação nutricional. É necessário saber que os dados não equivalem à realidade, mas é uma maneira de entendê-la e de se aproximar dela. Esse caminho que vai da realidade aos dados pode ser chamado de "metodologia", a verdadeira letra miúda de todas as análises econômicas. É indispensável que os argentinos saibam que quando falamos sobre números de pobreza, estamos empregando um conjunto de técnicas e métodos muito pontuais para estabelecer os cálculos. Sempre que nos comparamos com outros países em determinados contextos, temos que ter a certeza de que estamos medindo "peras com peras", porque se a metodologia for modificada, a comparação não se aplica.

É fundamental prestar atenção na forma como os dados expostos são construídos...

Exatamente. Na pobreza, por exemplo, há muito pouco conhecimento sobre a metodologia utilizada pelos profissionais para o seu cálculo. Por trás de cada número existem múltiplas decisões arbitrárias. É bom lembrar aqui a frase de Angus Deaton, Nobel da Economia de 2015, que afirma: "As linhas de pobreza são construções tão científicas quanto políticas". Se a Argentina usasse o modo de medir a pobreza dos Estados Unidos, teríamos 65% de pobres; se utilizasse os métodos desenvolvidos pelo Banco Mundial para calcular a pobreza na África subsaariana, seria de 1,7%; e se, finalmente, usasse a proposta do Chile, a cifra chegaria a 11%. Como nos debates esse tipo de aspecto não é resgatado, tendemos a construir uma visão muito distorcida da realidade. Na Argentina, acredita-se que a pobreza não parou de crescer nos últimos anos.

E o que os números indicam?

Que a partir de 2011, com uma certa margem de intermitência, ficamos estagnados. No entanto, estamos muito melhores do que nos anos 1990. Pensar e dizer que "cada vez estamos pior" tem a ver com o tratamento que os comunicadores dão. A verdade é que o sensacionalismo e as notícias pessimistas vendem mais.

Recentemente, li um artigo seu intitulado "Nós não somos um país de merda". Os argumentos que acaba de mencionar vão nessa direção.

Exatamente. Eu me cansei de ouvir que sempre, independentemente do Governo de plantão, "as coisas sempre vão piorar". A realidade é que quando eu analisava os dados, notei algo diferente. Desde a saída da convertibilidade até 2011 houve melhorias muito importantes na qualidade de vida da população. Penso que o imaginário que nos leva a pensar dessa maneira está relacionado e se opõe, com as ideias que indicavam que a Argentina era o país mais desenvolvido da América Latina no início do século XX. Depois de 1970, surgiram os principais problemas porque aumentaram os índices de pobreza, marginalidade, desigualdade e desindustrialização.

Uma maneira de pensar a realidade econômica argentina é através dos "modelos de desenvolvimento". Como poderia defini-los?

Embora todos os países se encontrem condicionados por forças externas, eles desenvolvem possibilidades para exercer seu destino; de fato, os países subdesenvolvidos não estão condenados à pobreza extrema. Do ponto de vista produtivo, os modelos de desenvolvimento podem ser pensados a partir da análise daqueles setores que cada país avaliará como estratégicos para promover um crescimento econômico com inclusão social. Por exemplo, a Coreia do Sul ancorou sua estratégia de sucesso, já que na década de 1960 tinha renda per capita muito semelhante à de qualquer país africano, com restrições externas, mas guiada por uma forte vontade política voltada para a promoção da eletrônica e da indústria pesada. A Austrália, por sua vez, sempre teve uma vantagem geopolítica, uma vez que, após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se o grande aliado dos Estados Unidos no Pacífico Sul e privilegiou um desenvolvimento baseado no aproveitamento dos recursos naturais, especialmente a partir de 1970.

Nessa linha, que estratégia a Argentina deveria adotar?

Deveríamos desenvolver um híbrido entre a Coreia e a Austrália. O nosso país tem recursos naturais, embora não tantos como se costuma acreditar, e muito por promover o setor do agronegócio e da mineração. No entanto, isso não basta se o objetivo é promover um país inclusivo com 45 milhões de habitantes. Então, é necessário explorar as capacidades históricas em indústrias importantes, como a indústria farmacêutica, automotiva, metal-mecânica e têxtil. O pensamento que se opõe à indústria e ao agronegócio faz parte de uma falsa antinomia. Devem ser considerados de modo complementar.

Qual deve ser o papel do Estado?

Países asiáticos como Coreia, Japão, Taiwan, China e Cingapura tiveram Estados desenvolvimentistas que intervêm de maneira ativa e seletiva para transformar a estrutura produtiva de suas sociedades. Eles estão dotados de burocracias altamente qualificadas que acabam criando as burguesias nacionais. O mesmo acontece inclusive com os Estados Unidos que, apesar de responderem a uma tradição discursiva do laissez-faire, criam e sustentam suas inovações tecnológicas mais significativas baseadas na intervenção estadual. Aqui, também é necessário superar uma falsa e antiquada antinomia: mercado versus Estado.

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