Injustiça hídrica e clamor por água

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04 Novembro 2017

"Antigamente, esperava-se chegar a chuva para plantar, mas agora os empresários do agronegócio plantam várias vezes por ano lavouras irrigadas, captando água das lagoas, dos córregos, dos rios e do lençol freático via poços artesianos. Só que a captação está beneficiando apenas alguns proprietários empresários e deixando milhares de famílias camponesas na dificuldade. Assim, a miséria está se alastrando no campo e na cidade no noroeste de Minas", escreve Gilvander Moreira, Frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica, doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Movimentos urbanos de luta por moradia.

Eis o artigo. 

Precedida por doze pré-romarias, em doze cidades do noroeste, norte e centro-oeste de Minas, com a participação de seis mil pessoas, a 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais teve sua celebração final em Unaí, no noroeste de Minas, na Diocese de Paracatu, dia 23 de julho de 2017, com o tema: “Povos da Cidade e do Sertão Clamando por Água, Terra e Pão”; e com o lema: “Povos, Rios, Veredas e Nascentes são Dons de Deus em Romaria e Resistência”.

Percorrendo os 12 municípios envolvidos diretamente na 20ª Romaria, constatamos o alto grau de degradação do Bioma Cerrado e do ecossistema que o envolve, em uma região considerada “caixa d’água” de Minas: rios secos ou com baixo volume de água, devido ao uso abusivo de pivôs na irrigação de monoculturas de cana, soja, milho, capim, além de extensas plantações de eucalipto e mineração devastadora. A ênfase no agronegócio, que engorda a conta bancária de empresas e de alguns privilegiados não esconde os malefícios advindos dessa política predatória: contaminação do lençol freático e dos alimentos pelo uso de agrotóxicos; espantoso aumento da incidência de câncer e de outras doenças em toda a região noroeste de MG; morte de animais, extinção de espécies vegetais, seca prolongada, desertificação, desemprego (devido ao alto grau de mecanização nas grandes lavouras), conflitos agrários, violência no campo e nas cidades. Os rios Urucuia, Paracatu e Preto estão à míngua e o Rio São Francisco por um fio... Essas mesmas práticas acontecem em outras regiões de Minas Gerais e do Brasil, com a cumplicidade do poder público/órgãos ambientais, afetando outros biomas, esgotando e poluindo as águas, expulsando populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros e pescadores, quebrando tradições e conhecimentos seculares.

Guimarães Rosa dizia: “Meu rio de amor é o Urucuia”. Assim como os rios Preto, Paracatu e São Miguel, no noroeste de Minas Gerais, o rio Urucuia está na UTI, pois está sofrendo com o processo de assoreamento por parte do agronegócio e do hidronegócio. A captação de água no rio Urucuia para irrigar monoculturas do agronegócio é muito maior do que o que a COPASA capta para abastecer a população da cidade de Buritis. Seu leito está secando devido à construção de barragens e pivôs ao longo de seus afluentes, prejudicando o rio e a população que necessita da sua água para trabalhar, beber e viver. Mas o rio não está sozinho: “Na luta por liberdade / Você não está sozinho / São milhares de pessoas / Que te têm muito carinho”. Nas palavras de Jorge Augusto Xavier de Almeida, o Jorjão Sem Terra, preso político em Unaí, MG, referindo-se tão carinhosamente, ao córrego Barriguda. Impossível não associar a todas as fontes de água doce do nosso país.

Durante a Caravana Cultural da 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais, com sete shows “Eco-lógico”, dos cantores Carlos Farias e Wilson Dias, em sete cidades do noroeste de MG, várias vezes, o violeiro Wilson Dias fez referência a uma metáfora muito eloquente. Dizia ele: “Não sei se vocês já viram um roçado pegando fogo. Quando o roçado pega fogo, os pássaros, em alvoroço, cantam e gritam muito para alertar que algo muito perigoso está acontecendo. Sem o roçado, os pássaros sabem que não terão futuro. Com tanta devastação ambiental, nós violeiros juntamos nossas vozes para cantar e convocar todo mundo para salvarmos o roçado que está pegando fogo. Nosso roçado é Minas Gerais, é o Brasil, é o mundo. Os rios onde nadávamos na nossa infância já foram secados. Com urgência, precisamos frear os processos de devastação. Basta de monoculturas, de agronegócio, de hidronegócio. Cuidar dos olhos de água se tornou necessário e vital para o futuro das próximas gerações.”

As famílias de agricultores familiares dos 77 Assentamentos de reforma agrária do noroeste de Minas estão encurraladas por grandes fazendas industriais mecanizadas, em agricultura do agronegócio e do hidronegócio. Muitos desses assentamentos estão precisando de caminhão pipa para o fornecimento de água. Os municípios de Unaí e Paracatu se tornaram os campeões do Brasil em número de pivôs de irrigação e em área irrigada, mais de 120.903 mil hectares (Dados da ANA, 2014). Em Unaí, em 2104, havia 663 pivôs irrigando 61.151 hectares de lavouras. Em Paracatu, em 2014, havia 882 pivôs irrigando 59.752 hectares de lavoura. O exagero de agrotóxico jogado na agricultura empresarial tem causado uma “epidemia” de câncer, alzheimer e outras doenças.

Antigamente, esperava-se chegar a chuva para plantar, mas agora os empresários do agronegócio plantam várias vezes por ano lavouras irrigadas, captando água das lagoas, dos córregos, dos rios e do lençol freático via poços artesianos. Só que a captação está beneficiando apenas alguns proprietários empresários e deixando milhares de famílias camponesas na dificuldade. Assim, a miséria está se alastrando no campo e na cidade no noroeste de Minas.

O que acontece no noroeste mineiro é que os grandes fazendeiros praticantes da agricultura empresarial têm avançado na consolidação de seus projetos de irrigação, de forma abusiva. Ocorre que se tornou rotina na região a construção de barragens nas cabeceiras dos principais córregos, em nascentes e lagoas, com o objetivo de captar água para a irrigação. Isso funciona com uma quantidade enorme de água sem que eles sejam autorizados ou licenciados pelos órgãos ambientais. E esses córregos são responsáveis pelo abastecimento dos rios Urucuia, Preto, Paracatu e outros afluentes do rio São Francisco. O poder público/Estado e os órgãos ambientais estão sendo cúmplices dessa devastação socioambiental. Não fiscalizam e concedem licenças ambientais que na prática são usadas para se captar muito mais água do que o permitido legalmente. A 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas denunciou isso e anuncia que o caminho justo e ecologicamente sustentável é reforma agrária, agricultura familiar agroecológica em comunhão com preservação ambiental. Isso precisa ser garantido através de lutas coletivas em nome da nossa responsabilidade socioambiental e geracional.

A ONU reconheceu a água como um direito humano. “O espírito de Deus está nas águas” (Gênesis 1,2). Logo, matar as nascentes de água ou contaminar a água é matar o espírito vivificador. Água é fonte de vida, alertava a Campanha da Fraternidade de 2004. Água é o sangue da terra. A terra sem água é um corpo sem vida. Os córregos e rios são as artérias do grande corpo que é a Terra, Gaia. Por amor à vida, à água, aos povos, a todos os organismos vivos e às próximas gerações, é urgente o compromisso de todos para frear a imensa injustiça hídrica que está em curso. A guerra pela água já iniciou. Feliz quem se comprometer coletivamente com a revitalização de todas as nascentes e das bacias hidrográficas! A luta pela água implica luta pela terra, luta pela redução do agronegócio e das monoculturas dizimadoras das águas. Implica também luta pela superação do modelo de Estado que temos: Estado cúmplice do sistema do capital, com uma classe política profissional que faz o serviço sujo da classe dominante.

 

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