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02 Novembro 2017

Tempo presente. "Sulla tecnica", uma coletânea de ensaios do filósofo francês Gilbert Simondon, que abrange desde os anos cinquenta até o final da década de 1980, publicado pela Orthotes.

O comentário é de Benedetto Vecchi, publicado por Il Manifesto, 28-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma coleção de ensaios, entrevistas, réplicas a críticas desde o início dos anos cinquenta até o final da década de oitenta do século XX. Esta é a proposta do livro que a editora Orthotes com muito louvor traduziu para reconstruir o percurso teórico de Gilbert Simondon, o filósofo francês que era desconhecido na Itália até a tradução do ensaio sobre A individuação psíquica e coletiva realizada por Paolo Virno, que acrescentou ao livro, publicado pela DeriveApprodi em 2001, um valioso posfácio que contextualiza a obra de Simondon dentro da reflexão do pensamento crítico em torno de alguns pontos básicos - o princípio de individuação, a discussão sobre a natureza humana e a crise de representação.

O volume, editado por Antonio Stefano Caridi, tem um título um tanto genérico, mas não menos desafiador do que aquele sobre a ‘individuação’, porque permite conhecer os elementos que caracterizam a produção teórica de Simondon: Sulla tecnica (Orthotes, pp. 420, €23) - não tendo ainda sido traduzido Du mode d’existance des objets tecniques, considerada a sua obra mais importante. Nessa coletânea de ensaios, existem fortes ecos da teoria da informação e da teoria dos sistemas, da crítica ao determinismo economicista de uma parte relevante do marxismo "oficial" na França na década de 1960, bem como uma reformulação criativa das teses de Georges Canguilhem, que muito condicionaram Michel Foucault e Gilles Deleuze.

Será especialmente este último que vai incentivar o desenvolvimento dos caminhos de pesquisa de Simondon, abruptamente interrompida por sua morte, em 1989. Para Deleuze, Simondon foi um dos mais perspicazes intérpretes das formas de vida e das relações sociais onde a técnica desempenha o papel fundamental e paradigmático de mediação entre o homem e a natureza.

Deve ser dito que o filósofo francês tem o mérito de conseguir desatar o emaranhado de antinomias entre natureza e cultura, cultura e técnica que marcavam a filosofia, a antropologia e a sociologia dominantes.

Para Simondon, mais que tensão e conflito, cultura e técnica são dimensões complementares da propensão humana para dar uma dimensão normativa para a reprodução da nossa espécie: a cultura e a técnica são instrumentos que os seres humanos utilizam para controlar a natureza, e dobrá-la para as próprias necessidades de reprodução. Tese seminal, ou melhor, precursora de tanta literatura sobre o antropoceno, ou seja, sobre o sinal de alarme quanto à irreversibilidade das alterações introduzidas pelo homem na natureza, que poderiam levar ao desaparecimento da espécie humana. Não é por acaso que os últimos textos de Simondon, presentes nesse volume, são dedicados para a possibilidade de uma filosofia "ecologista" que não recuse nem a técnica nem a ciência.

Técnica e não tecnologia, no entanto, é um nó a ser desatado. Portanto, não a sucessão de produtos tecnológicos que acompanharam o desenvolvimento científico e industrial da modernidade, mas o status da técnica como produto cultural e social que é o núcleo da reflexão de Simondon, que introduz o termo "tecnofania" para indicar o excedente mitológico, simbólico, social e cultural desempenhado por um produto tecnológico. O caso mais clamoroso é o automóvel, entendido não como um aglomerado de componentes, mas como um objeto investido de um papel e significado que excedem o próprio objeto. A tecnofania não diz respeito a qualquer automóvel, mas um determinado tipo de veículo que teve características específicas seja do ponto de vista inovador como no imaginário coletivo.

Simondon escreve amplamente sobre a evolução técnica, ressaltando que ela pode ser representada como as ondas concêntricas que são propagadas por uma pedra atirada num lago. As primeiras ondas são os objetos, os próprios componentes de um produto técnico. Podem melhorar ao longo do tempo, mudar, mas continuam a ser produtos que, apenas quando montados, terão a capacidade de se transformar em artefatos técnicos.

Às vezes, podem ser equiparados ao resultado de um bom trabalho artesanal que consegue atrair a admiração de grupos profissionais restritos, mas apenas as ondas mais externas da evolução técnica adquirem, através do uso, uma "sobre-determinação” cultural. Isso aconteceu com alguns carros (a ‘dois cavalos’ na França e a ‘cinquecento’ na Itália) e, poder-se-ia acrescentar, alguns computadores pessoais. Tanto para os carros como para os computadores a tecnofania refere-se não aos pistões, às rodas ou o volante, ou aos microprocessadores, mas a historicidade psicossocial do objeto técnico em sua unitariedade e univocidade.

Simondon repete várias vezes que o uso não produz automaticamente a historicidade psicossocial de um produto. São necessárias outras passagens, outras elaborações no corpo social, mas tais passagens não seriam possíveis se não existisse, contudo, um inegável valor do uso do produto.

A ‘dois cavalos’, na França, representou assim não apenas um meio de transporte ou de trabalho no campo, mas também uma ideia de liberdade de movimento: é a partir dessa conotação simbólica que é tecida a sua articulada tecnofania. Simondon distingue, de fato, a historicidade psicossocial nas áreas rurais daquela metropolitana; aquela dos homens e a das mulheres. Elementos diferentes, que, no entanto, compõem uma tecnofania reconhecida individualmente e socialmente, mesmo que culturalmente articulada - usando um léxico de Simondon - dependendo dos grupos e subgrupos sociais.

O mesmo, pode-se acrescentar, aconteceu com alguns computadores pessoais: a partir do lendário Commodore 64 ao mais elegante McIntosh da Apple. Ambos representavam a ciência arrancada dos especialistas e restituída para o povo.

Simondon não nega que as "tecnofanias" tenham muitos elementos em comum com a sacralidade. Assim como a sacralidade é multifuncional ao fornecer uma explicação, mitificada e abstrata, das dinâmicas sociais com os seus "mistérios" ou traços elusivos. Em outros termos são, ainda que de maneira diferente, fatores que medeiam a relação entre o homem e a natureza; e entre os homens. E entre os homens e as mulheres.

Como recentemente enfatizou a filósofa e psicóloga Sherry Turkle, muitas mulheres conjugam os computadores no masculino e fazem de tudo para humanizá-los; assim como muitos homens os declinam ao feminino. É essa historicidade psicossocial que constitui um terceiro tipo de alienação que acompanha a marxista e a psicanálise. No entanto Simondon não a declina negativamente, mas a apresenta como o inevitável resultado da difusão da tecnologia na modernidade. Sulla tecnica apresenta textos escritos e elaborados em mais de quarenta anos de estudo e ensino.

Mas no conjunto de sua reflexão emerge com força a conotação social da técnica. É por isso que nunca é objetiva ou neutra. A sua reflexão sobre a tecnofania mantém uma atualidade se for aplicada, por exemplo, ao software: a sua concepção, a sua tradução em fluxogramas e a escrita do código definem tanto como será usado depois de produzido e distribuído, mas também os princípios normativos e as relações de poder que quer reforçar e legitimar. O software manifesta, assim, uma visão das relações sociais de produção.

Por esse ponto de vista, o software sempre trai a sua performatividade em relação à realidade social. Além do código informático é, portanto, também um dispositivo "político" que visa a transformação das relações sociais sem modificar as relações de poder. Seguindo o uso de Simondon da teoria da informação, poder-se-ia dizer que o software manifesta uma verdadeira ideologia dominante.

A reflexão de Simondon manifesta, além disso, outro traço atual quando enfrenta uma dimensão lúdico-artesanal na tentativa de melhorar o objeto técnico por parte de quem o usa. Poderíamos dizer que são os ancestrais dos prosumer (neol. produtor + consumidor, ndt) venerados pelos cultores apologistas da sharing economy. As páginas que o filósofo francês dedica ao trabalho maker (movimento maker, ndt) parecem ter sido escritas como uma crônica "raciocinada" da difusão da retórica sobre o maker digital que tanto apaixona o mundo anglo-saxão. Mas perde contundência quando relega a reflexão marxista como manifestação de um maquinismo com fim em si mesmo. E perde radicalismo teórico quando considera o ‘craftman’ – e nisso suas teses não são muito distantes daquelas de Richard Sennett ou dos apologistas da sharing economy - uma figura prometeica sem vínculos sociais, como se o maker fosse um indivíduo proprietário que acessa à técnica para tirar proveito de seu próprio capital humano.

O mérito desse livro reside, portanto, na abertura de caminhos de pesquisa para a superação de paralisantes antinomias, como aquelas entre natureza e cultura, entre técnica e cultura. E abrir espaços para a reapropriação daquele saber e daquele conhecimento solidificado na máquina, fator indispensável de uma política radial de transformação que passa, justamente, pela reapropriação do capital fixo que não são apenas máquinas, mas também produtos imateriais, como o software.

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