Argentina. “Cambiemos impôs sua interpretação”, analisa antropólogo

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25 Outubro 2017

Antropólogo e analista político, Alejandro Grimson analisa as eleições legislativas [argentinas] e refletiu sobre se os eleitores têm interesses objetivos e como atuam as emoções em relação ao Governo, com uma oposição fragmentada.

Disse que “a antropologia não é a única disciplina que vê a importância de jamais perder a determinação de qual é o ponto de vista dos atores sociais”. Admitiu que muitos sociólogos e historiadores fazem o mesmo. Contudo, esclareceu que “ nós, antropólogos, buscamos esse ponto de vista obsessivamente, porque se você se esquece da subjetividade das pessoas, deixa de ser antropólogo”.

“Não tenho relativismo ético, moral ou político”, afirmou este pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET) e da Universidade San Martín. “Mas, como antropólogo devo compreender inclusive o que não compartilho. E, já que estamos, não seria uma má coisa para a política, não é? Ou para analisar as eleições”.

A entrevista é de Martin Granovsky, publicada por Página/12, 24-10-2017. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que Cambiemos triunfou?

Na minha avaliação, não venceu porque conseguiu resolver os problemas sociais e econômicos que se intensificaram nos últimos anos. Venceu porque pôde resolver a interpretação da causa desses problemas e, para seus eleitores, conseguiu ficar de fora da responsabilidade. Uma grande parte dos eleitores da coalizão Cambiemos não considera que está melhor que antes. Mas, pensa que os problemas atuais não são culpa da coalizão Cambiemos. E continua havendo uma expectativa alta de que as coisas melhorem no futuro. Há mais de um ano que existe uma distância entre pessoas com altas expectativas para o futuro, que são ao redor de 50%, e pessoas que dizem estar melhor e são uma faixa muito menor; ao redor de 20 a 25%. Néstor Kirchner disse, certa vez, que a política é cash mais expectativas. Cambiemos não venceu pelo cash, mas, sim, pelas expectativas. Em algum momento, essa distância entre os dois grupos pode se encerrar.

Como?

Uma possibilidade é que as pessoas que estejam melhor e sintam isto assim. Outra é que estejam pior e as expectativas se diluam. Muitos de nós pensamos que essa distância se resolveria logo. A conquista da coalizão Cambiemos é a de ter conseguido mantê-la por muito tempo. Não se encerrou em seu favor, mas tampouco contra ela.
    
Os eleitores possuem interesses objetivos?

Há um problema de concepção da política e do social que parte de uma presunção muito polêmica: a de supor que alguém saberia com certeza absoluta quais são os interesses dos eleitores. Como se fossem interesses totalmente objetivos. Por exemplo, é provável que todos queiramos ganhar salários mais altos e pagar menos de luz e de água. Mas, as pessoas possuem ilusões, confianças, desconfianças. Às vezes, conseguem identificar seu próprio interesse com o interesse da chefia hierárquica de seu próprio trabalho e não com seus pares. Podem desejar, sobretudo, uma inflação baixa porque preferem certa previsibilidade ao invés de situações que consideram instáveis. E poderia seguir.

Os interesses são fixos?

Não. Vão se deslocando ao longo do tempo. Se as pessoas conseguem certos objetivos em termos econômicos, mudam suas demandas e passam a ter outras, por exemplo vinculadas à transparência, ao transporte público ou à seguridade cidadã. É errôneo ter uma concepção objetivista da política, que desconsiderem os imaginários ou o desejo.

Sem ser objetivista, não há um campo objetivo?

Tomemos a cidade de Buenos Aires, onde o índice de aprovação de Horacio Rodríguez Larreta, de ao redor de 70%, supera inclusive a votação de Elisa Carrió. A gestão não fez metrôs, mas, por outro lado, cumpriu outras coisinhas que as pessoas percebem como concretas e em seu benefício. E para falar em nível nacional, a inflação de 2017 é altíssima, mas menor que em 2016. O desemprego ainda não disparou aos números que poderia chegar sem o famoso gradualismo do Governo. Ou talvez a percepção sobre Cambiemos foi boa porque o Governo fará, a partir de hoje, o que até agora postergava, pois buscava uma legitimação eleitoral de meio termo.

No entanto, o Governo não prometeu um ‘tarifaço’, mas não escondeu que subirá tarifas e praticará uma reforma trabalhista.

A campanha de Macri em 2015 se encaixa na famosa frase de Menem: “Se eu lhes dissesse o que pensava fazer, não teriam me elegido”. A eleição do último domingo, dia 22, foi diferente. Não só foram anunciando o que viria, como também foram efetivos em jogar a culpa da inflação de 2016 sobre o kirchnerismo, sobre muitos de cujos funcionários pesam questões judiciais.

No entanto, houve processos de mobilização.

Sim, com uma intensidade poucas vezes vista em uma situação que não é terminal como em 2001 e 2002. Houve marchas por temas científicos, educacionais, sociais e de direitos humanos. Mas, foram heterogeneidades políticas que não puderam ser sintetizadas por nenhuma força política por si só. Cambiemos conseguiu impor sua interpretação sobre os problemas da realidade e, ao mesmo tempo, houve fragmentação das oposições ao projeto político do Governo.

Os grandes meios de comunicação atuaram a seu favor.

Sem dúvida. E não menosprezo seu enorme poder, mas também não o absolutizo. Na Argentina e na América Latina triunfaram e se mantiveram no Poder Executivo processos políticos que não coincidiram com a visão dos grandes meios de comunicação. Contam as ondas, os ciclos ou os momentos.

O mesmo ocorre com as redes sociais?

É uma dimensão diferente. Às vezes, inclusive, servem para fenômenos de democratização. Há grandes mobilizações convocadas através das redes.

A marcha contra o dois por um sentenciado pela Suprema Corte, em maio último.

Sim. Uma marcha que foi possível porque refletiu a rejeição visceral da sociedade argentina diante da sentença.

Tudo é visceral na política?

No voto são lançadas emoções, identidades, relações entre emoções e bolso, entre emoções e casa própria, entre emoções e direitos... Agora, está na moda dizer que tudo é novo. Porém, o voto de fevereiro de 1946, quando Juan Perón venceu a União Democrática, também pode ser analisado como um voto visceral. Se você pensava que Perón era nazista, votava visceralmente em Tamborini-Mosca. Se você estava convencido de que a União Democrática era a oligarquia, votava em Perón. Não existe a política sem paixão, ainda que um dos problemas da cultura política argentina é se existe a chance de construir um cenário político que se pareça um pouco menos com uma partida de futebol, onde aplaudimos o árbitro apenas quando erra em favor de nossa equipe.

Não houve uma dose alta de racionalidade na vitória de Raúl Alfosín, em 1983, ou na de Cristina, em 2007, depois que Kirchner se foi com uma popularidade de mais de 60%?

Sim. Esses e outros foram momentos em que a sociedade conseguiu acordos importantes. Há pouco, falamos do dois por um. Bom, a rejeição ao dois por um para os repressores possui um amplo consenso. Os adversários, em função da pior versão que temos do adversário, corre um risco: que sejam rompidos alguns acordos. Por exemplo, contra o dois por um. Por exemplo, direitos humanos. Tenho o temor de que haja ações do Governo Macri que rompam o consenso sobre direitos humanos. Outro acordo: a sociedade argentina é saudavelmente intolerante diante da violência política e, em especial, ao que vem do Estado. Tomara que o Governo Macri não queira romper esse acordo.

Deseja rompê-lo?

Há uma série de ações, como a repressão de manifestações, que tornam razoável questionar se não há uma vontade ativa de rompimento. No Chile, não há mobilização estudantil que não acabe em gases lacrimogêneos. Na Argentina, as mobilizações eram, ao menos até agora, um lugar pacífico, onde até famílias inteiras podiam ir. Continuará sendo assim ou o que vem precisa de uma parcela de medo?

O que seria o que vem?

Não acredito que venha o fim do gradualismo. Suponho que se manterá o projeto original de ajuste, com busca de votos. O governo irá pisar no acelerador, enquanto mantém a varredura da sociedade através de Jaime Durán Barba. Para que suas reformas avancem, necessitam que a mobilização diminua. Pode baixar por desgosto (porque aqueles que se mobilizam não conseguem seus objetivos), porque o Governo se legitimou ou porque há medo. De qualquer modo, ao menos até agora, o Governo mantém um nível de gasto social que lhe permite continuar vencendo eleições e com um nível importante de obra pública. Macri faz as duas coisas, ao mesmo tempo em que busca um aumento claro da desigualdade e favorece os setores concentrados. E, além disso, hoje, o preço da soja lhe serve. Continuará tudo assim? Não sabemos. Mas, também não pensemos que, no caso de uma crise profunda, inexoravelmente será o fim. O capitalismo sofreu a crise de 2008 e se reconfigurou. Peru, Colômbia e Chile têm modelos neoliberais sem uma crise terminal.
    
Não há nada inevitável.

Não. É equivocado fazer política acreditando que aquilo que você não gosta cairá por si só, sem que você construa uma alternativa de superação e que convença a uma maioria. Caso contrário, a política seria totalmente religiosa.

Não é?

Se digo que sim, ficará como uma crítica desmedida. Se digo que não, terei esquecido de que para os antropólogos existe o religioso em um sentido amplo, das crenças e dos rituais, como diria Émile Durkheim. O kirchnerismo, por exemplo, não tem problemas pelo fato de sustentar crenças. Acaba tendo quando não consegue desempenhar uma política eficaz porque suas crenças podem não contribuir para sua fortaleza política.

Por exemplo?

Vejo muitos mais preocupados em ter razão do que em persuadir. Se você busca ter razão em todas as coisas, não será uma maioria. O melhor é ter é um caráter reflexivo para ir modificando as próprias práticas, porque o refluxo internacional não permite a você muitas receitas, exceto uma: unir toda a diversidade que é contra o modelo hegemônico. Essa, sim, é uma receita que sempre vale para todas as etapas defensivas.

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