O papa contra as desigualdades: não é democracia, mas plutocracia

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21 Outubro 2017

“Se o lucro prevalece como fim, a democracia tende a se tornar uma plutocracia, em que crescem as desigualdades e também a exploração do planeta.” Foi o que o papa disse durante uma audiência aos participantes de uma oficina organizada nessa semana pela Pontifícia Academia das Ciências, na qual ele identificou “duas causas específicas que alimentam a exclusão e as periferias existenciais”: a desigualdade e a exploração, que “não são uma fatalidade nem uma constante histórica”, enfatizou Jorge Mario Bergoglio, e “o trabalho indigno da pessoa humana”, enquanto é necessário criar um novo trabalho, superando a “preguiça espiritual” e desvinculando-se “das pressões dos lobbies públicos e privados”.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 20-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É preciso “civilizar o mercado”, disse o papa ainda, e “não podemos sacrificar sobre o altar da eficiência – o ‘bezerro de ouro’ dos nossos tempos – valores fundamentais como a democracia, a justiça, a liberdade, a família, a criação”.

O papa centrou o seu discurso nas “duas causas específicas que alimentam a exclusão e as periferias existenciais”. A primeira é “o aumento endêmico e sistêmico das desigualdades e da exploração do planeta, que é maior do que o aumento da renda e da riqueza. Porém, a desigualdade e a exploração não são uma fatalidade nem uma constante histórica. Não são uma fatalidade porque dependem, além dos diversos comportamentos individuais, também das regras econômicas que uma sociedade decide se dar. Pense-se na produção de energia, no mercado de trabalho, no sistema bancário, no bem-estar, no sistema fiscal, no âmbito escolar. Dependendo de como esses setores são projetados, têm-se consequências diversas sobre o modo como a renda e a riqueza são repartidos entre aqueles que contribuíram para produzi-las. Se o lucro prevalece como fim, a democracia tende a se tornar uma plutocracia, em que crescem as desigualdades e também a exploração do planeta. Repito: isso não é uma necessidade; constatam-se períodos em que, em alguns países, as desigualdades diminuem, e o ambiente é mais bem protegido”.

A outra causa de exclusão é “o trabalho indigno da pessoa humana”, enquanto a criação de um novo trabalho “precisa, especialmente neste tempo, de pessoas abertas e empreendedoras, de relações fraternas, de pesquisa e investimentos no desenvolvimento de energia limpa para resolver os desafios das mudanças climáticas. Hoje, isso é concretamente possível. É preciso se desvincular das pressões dos lobbies públicos e privados que defendem interesses setoriais; e também é preciso superar as formas de preguiça espiritual”.

O desafio a ser enfrentado, disse o papa, é o de “esforçar-se com coragem para ir além do modelo de ordem social hoje predominante, transformando-o a partir de dentro. Devemos pedir que o mercado não seja só eficiente na produção de riqueza e ao garantir um crescimento sustentável, mas também que se ponha a serviço do desenvolvimento humano integral. Não podemos sacrificar sobre o altar da eficiência – o ‘bezerro de ouro’ dos nossos tempos – valores fundamentais como a democracia, a justiça, a liberdade, a família, a criação. Em essência, devemos visar a ‘civilizar o mercado’, na perspectiva de uma ética amiga do homem e do seu ambiente”.

O Estado, por sua vez, na época da globalização, “não pode se conceber como o único e exclusivo titular do bem comum, não permitindo que os corpos intermediários da sociedade civil expressem, com liberdade, todo o seu potencial. Isso seria uma violação do princípio da subsidiariedade, que, combinado com o da solidariedade, constitui um pilar da doutrina social da Igreja”.

Quanto à sociedade civil, o seu papel, concluiu o papa, “é comparável ao que Charles Péguy atribuiu à virtude da esperança: como uma irmã menor está no meio das outras duas virtudes – fé e caridade – segurando-as pela mão e puxando-as para a frente. Assim me parece que é a posição da sociedade civil: ‘puxar’ para a frente o Estado e o mercado, para que repensem a sua razão de ser e o seu modo de agir”.

A oficina da Pontifícia Academia das Ciências, órgão vaticano liderado pelo chanceler Dom Marcelo Sánchez Sorondo, intitulada “Mudar as relações entre Estado, mercado e sociedade civil”, ocorre entre os dias 19 e 21 de outubro.

“A globalização e a quarta revolução industrial”, afirma o panfleto de apresentação do evento que ocorre na Casina Pio IV, “levantam sérios desafios aos valores da justiça social, do bem comum global e da dignidade humana, como denunciado pelo Papa Francisco tanto na Evangelii gaudium (2013), quanto na Laudato si’ (2015). Isso requer um olhar novo que integre os progressos da economia em um diálogo crítico interdisciplinar com outras disciplinas e com atores específicos do mundo econômico, social, político e empresarial, como parte de uma reflexão filosófica, teológica e pastoral”.

O congresso, que – afirma-se – parte da Caritas in veritate, de Bento XVI (2009), “e, em particular, da conexão entre lógica de mercado, Estado e sociedade civil”, pretende “promover novas formas de cooperação entre essas três entidades”, porque “a intuição fundamental é de que a economia não pode se ocupar simplesmente de minimizar os custos da produção de bens ou de maximizar os lucros” e, ao contrário, precisa se perguntar como “evitar a exclusão e frear o processo de excluir”, graças a uma “articulação do mercado eficiente ética, política e economicamente”.

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