Tradução fiel: 'Magnum Principium' esclarecido

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17 Outubro 2017

"Fazendo eco às palavras de Paulo VI, o Papa Francisco fala que as orações vernáculas estão se tornando "a voz da Igreja". Não são uma mera sombra dos originais latinos. Têm sua própria integridade" escreve Rita Ferrone, autora de vários livros sobre liturgia, incluindo o livro “Liturgy: Sacrosanctum Concilium (Paulist Press), em artigo publicado por La Croix International, 14-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

Quando o papa Francisco emitiu o seu motu proprio sobre tradução litúrgica (Magnum principium), em setembro, grande parte dos comentários que se seguiram focaram na mudança no Direito Canônico que trazia, fortalecendo o papel das conferências dos bispos. As instruções de 2001 do Vaticano sobre tradução, Liturgiam authenticam, centralizaram fortemente a autoridade em Roma e diminuíram o papel das conferências dos bispos. Por isso, foi uma excelente novidade o Papa Francisco reafirmar de forma autoritária a visão do Vaticano II expressa na Constituição sobre a Sagrada Liturgia 36.4, devolvendo aos bispos seu papel de preparar e aprovar traduções.

Tão importantes quanto a questão da supervisão, porém, as partes do motu proprio diretamente preocupadas com a tradução são dignas de cuidadosa consideração.

O Papa Francisco diz muito sobre os valores subjacentes à produção e recepção de textos litúrgicos nas línguas vernáculas. Ele fez um comentário interessante, que toca em muitos dos pontos nevrálgicos das "guerras de tradução" e reestrutura nossa compreensão sobre elas.

Ele não se escondeu. Sua fala sobre a tarefa foi muito proveitosa.

O primeiro elemento a notar é a frequência com que Francisco se baseia nas primeiras instruções sobre tradução litúrgica, aprovadas por Paulo VI em 1969 e conhecidas por seu nome em francês, Comme le prévoit (CLP). (Essa instrução foi substituída por Liturgiam authenticam em 2001.)

A tradução missal de 1973 produzida de acordo com Comme le prévoit foi incansavelmente criticada antes da publicação da mais recente versão inglesa do Missal Romano, em 2011. Liturgiam authenticam, na verdade, inclui uma reprimenda incomum: "As omissões ou erros que afetam certas traduções vernaculares - especialmente no caso de certas línguas - impediram o progresso da inculturação que, na verdade, deveria ter ocorrido.

Consequentemente, a Igreja não conseguiu lançar as bases para uma renovação mais completa, saudável e autêntica" (tradução livre).

Para os especialistas, essa dura avaliação apontou o dedo culpabilizando Comme le prévoit diretamente, bem como os que foram guiados por ele.

Portanto, é surpreendente e extremamente importante na compreensão da declaração do papa que ele se baseie fortemente em Comme le prévoit para formular os pressupostos interpretativos que agora torna seus em Magnum principium (MP).

As seguintes passagens do motu proprio de Francisco advêm diretamente da instrução de 1969 sobre tradução:

MP 6: " O texto litúrgico, enquanto sinal ritual, é meio de comunicação oral. Mas para os crentes que celebram os ritos sagrados, também a palavra é um mistério: com efeito, quando são proferidas as palavras, em particular quando se lê a Sagrada Escritura, Deus fala aos homens, o próprio Cristo no Evangelho fala ao seu povo que, por si ou através do celebrante, com a oração responde ao Senhor no Espírito Santo."

CRE 5: “um texto litúrgico, na medida em que é um sinal ritual, é um meio de comunicação falada. É, antes de tudo, um sinal percebido pelos sentidos e usado pelos homens para se comunicar uns com os outros. Mas para os crentes que celebram os ritos sagrados, uma palavra é em si um 'mistério'. Por palavras faladas, o próprio Cristo fala ao seu povo e o povo, através do Espírito Santo na Igreja, responde a seu Senhor."

MP 7: "A finalidade das traduções dos textos legislativos e dos textos bíblicos, para a liturgia da palavra, é anunciar aos fiéis a palavra de salvação em obediência à fé e exprimir a oração da Igreja ao Senhor."

CRE 6: “o propósito das traduções litúrgicas é proclamar a mensagem da salvação para os fiéis e expressar a oração da Igreja para o Senhor."

MP 7: " Com este objetivo é preciso comunicar fielmente a um determinado povo, através da sua língua, o que a Igreja pretendeu comunicar a outro por meio da língua latina."

CRE 6: "a tradução litúrgica... deve comunicar fielmente, a um determinado povo e na sua própria língua, o que a Igreja, por meio deste dado texto, originalmente pretendia comunicar com outro povo em outra época."

MP 7: "... a fidelidade nem sempre pode ser julgada por simples palavras mas no contexto de toda a ação da comunicação e segundo o próprio gênero literário.”

CRE 6: "uma tradução fiel, portanto, não pode ser julgada com base em palavras isoladas: deve-se manter em mente o contexto total deste ato específico de comunicação, bem como a forma literária adequada para o respectivo idioma."

Esses são elementos significativos na filosofia de tradução de Comme le prévoit. E agora não são mais as palavras de uma instrução obsoleta, e muito menos de um documento nas sombras da desaprovação oficial. Tornaram-as palavras do papa Francisco, faladas para o nosso tempo.

Também é importante notar que não existem empréstimos comparáveis de Liturgiam authenticam no motu proprio de Francisco.

O secretário da Congregação para o Culto Divino, o Arcebispo Arthur Roche, num comentário oficial divulgado com o texto, afirmou que a nova redação do Cânone 838.3 (o cânone sobre o papel das conferências dos bispos) "esclarece que as traduções devem ser realizadas fideliter segundo os textos originais, reconhecendo, assim, a principal preocupação da Instrução Liturgiam authenticam".

Mas isso dá muito crédito a Liturgiam authenticam; é Comme le prévoit que diz respeito à produção de traduções "fiéis" - Liturgiam authenticam preocupa-se com a precisão.

O principal exemplo disso está no parágrafo 6 de Comme le prévoit, que diz que a tradução não deve "meramente reproduzir" as ideias e as expressões do original, mas deve "comunicar fielmente" o que a Igreja pretende transmitir.

E reitera, no parágrafo 33: "Algumas formulações eucológicas e sacramentais... devem ser traduzidas de forma integral e fiel, sem variações, omissões ou inserções". Por um lado, a fidelidade é uma questão de transmitir o significado; por outro, determina que algumas formulações sejam traduzidas com grande exatidão.

Está em questão justamente isso: o que significa preparar uma tradução fiel? Até que entendamos isso, não saberemos o que significa que nossos bispos o façam "fideliter".

O arcebispo Roche certamente está certo em dizer que Liturgiam authenticam defendeu a reprodução fiel das fontes latinas, mas o caminho da fidelidade, como observa Francisco, vai além. Também deve levar em conta os valores pastorais e o respeito pela língua do receptor, argumentos defendidos por Francisco em Magnum principium.

Fazendo eco às palavras de Paulo VI, o Papa Francisco fala que as orações vernáculas estão se tornando "a voz da Igreja". Não são uma mera sombra dos originais latinos. Têm sua própria integridade. Esse desenvolvimento é descrito por Francisco como decorrente do próprio Concílio, parte do "grande princípio" (magnum principium) da reforma litúrgica. Mais uma vez, ele se baseia em Comme le prévoit:

MP 2: "[A Igreja latina] abriu voluntariamente a porta para que essas versões [como textos vernáculas], como parte dos próprios ritos, se tornem a voz da Igreja comemorando os mistérios divinos juntamente com a língua latina".

CRE 6: "as traduções litúrgicas tornaram-se... a voz da Igreja" (fala de Paulo VI aos participantes no Congresso sobre traduções de textos litúrgicos, 10 de novembro de 1965).

Enquanto Liturgiam authenticam defende a preservação do conteúdo e da integridade dos textos originais de modo a desenvolver um idioma "sacro", falado apenas no culto divino (LA 47), Francisco tem uma visão diferente. Ele descreve o papel dos textos vernaculares como funcionando "de forma não dissimilar ao Latim litúrgico por sua elegância no estilo e profundidade de conceitos, com o objetivo de alimentar a fé".

As características que Francisco escolhe destacar aqui são bastante interessantes. Ele não elogia o latim litúrgico como modelo por não estar vivo fora do culto, nem por preservar nosso patrimônio histórico, e menos ainda por ser um "véu" que envolve o sagrado. Ele sugere a emulação apenas destas duas virtudes: o estilo elegante do Latim e sua capacidade de expressar conceitos profundos que nutrem a fé.

Infelizmente, qualquer um que ouviu ou rezou com a tradução de 2011 do Missal Romano para o inglês teria dificuldades em afirmar honestamente que tinha "elegância de estilo" ou "profundidade de conceitos" em alguns lugares. Como observou Rupert Shortt, que analisou a tradução do Missal na Times Literary Supplement: "O latim é, obviamente, traduzido de forma mais exata, mas muitas vezes isso custa a perda de elegância ou tom”.

"Alguns trechos da coleta são pomposos demais para se prestarem à recitação pública. Como se fossem compostos por pessoas pedantes e incompetentes, deveriam ter voltado para a revisão na primeira oportunidade", escreveu.

Os defensores da tradução de 2011 do Missal Romano desculparam as infelicidades dos ingleses, alegando que faz bem para os fiéis lutar com e refletir sobre as orações. Alguns chegaram a argumentar que as orações devem parecer incompreensíveis. Sua falta de graça em inglês nos lembra que não se trata do "real", que, afinal, é a liturgia em latim.

Essa forma de pensar, no entanto, diverge totalmente do processo de que o Papa Francisco fala - que surgiu no Concílio e avançou desde então -, que prevê que as línguas vernáculas tornem-se as próprias línguas litúrgicas, com elegância e riqueza adequadas para elas.

Comitês de tradução de várias línguas em todo o mundo gastaram uma enorme quantidade de energia - muitas vezes contra o que pensavam ser o melhor - tentando seguir Liturgiam authenticam na carta porque sabiam que qualquer coisa diferente disso causaria a rejeição de Roma. A Comissão Internacional de Inglês na Liturgia (International Commission on English in the Liturgy - ICEL) trabalhou com afinco para se adequar a ela com exatidão.

De fato, um comitê chamado Vox Clara foi nomeado por Roma para ser um cão de guarda, garantindo conformidade rigorosa à instrução em inglês. O papa Francisco, no entanto, diz que todas as instruções existem como "diretrizes gerais" que devem ser seguidas "na medida do possível" - uma descrição que sugere que há espaço para interpretação.

Depois do surgimento do motu proprio, os canonistas observaram que Liturgiam authenticam permanece em vigor (embora seja necessário revisá-lo para que reflita a mudança no Código de Direito Canônico decretada por Francisco).

No entanto, enquanto isso, Francisco parece estar ampliando o espaço para o julgamento pastoral, mesmo antes do surgimento de uma nova versão de Liturgiam authenticam. Se, como diz ele, a "fidelidade" não deve ser julgada por palavras isoladas, mas pelo ato comunicativo como um todo, não podemos continuar insistindo na abordagem literal, palavra por palavra, veiculada por Liturgiam authenticam.

Quando Francisco fala de o sentido do texto original ser "traduzido total e fielmente", inclui condições de acompanhamento. O mais importante é a preocupação pastoral: "Sem dúvida, deve ser dada atenção ao benefício e ao bem dos fiéis". Ele também confere às conferências dos bispos a responsabilidade de salvaguardar a "natureza de cada língua" enquanto produz uma tradução completa e fiel.

Quando estas preocupações - pastorais e linguísticas - entram em conflito com Liturgiam authenticam, e isso vai acontecer, é hora de tomar uma decisão. Os bispos que utilizam essas "diretrizes gerais" devem assumir a responsabilidade e tomar decisões.

O motu proprio termina dizendo: "Quanto deliberado com esta Carta apostólica em forma de “motu proprio”, ordeno que tenha vigor firme e estável". Portanto, é importante considerar tudo o que Francisco declara - não apenas as mudanças textuais que faz no Cânone 838. Magnum principium deve afetar as traduções que já estão em andamento e quaisquer traduções futuras também.

Seu motu proprio, como um todo, abre novas possibilidades para traduções mais responsivas e, de fato, mais "fiéis".

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