O almoço do papa com os pobres na igreja. Entrevista com Maurizio Barba

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16 Outubro 2017

Para o Mons. Maurizio Barba, liturgista, o almoço com os pobres em uma igreja, trazido novamente à tona pelo Papa Francisco na sua viagem a Bolonha, não é uma novidade. O pobre é “outro Cristo”, não há separação entre o “sacramento do altar” e o “sacramento do irmão”.

A reportagem é de M. Michela Nicolais, publicada por Servizio Informazione Religiosa (SIR), 11-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não é uma novidade, mas sim uma tradição: que tem as suas raízes nas primeiras gerações cristãs. O Mons. Maurizio Barba, professor de liturgia no Pontifício Instituto Litúrgico do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, explica assim o costume do almoço com os pobres na igreja, trazido novamente à tona, recentemente, pelo Papa Francisco, durante a sua 17ª viagem na Itália. “Só uma Igreja solidária”, explica, “é uma Igreja sólida.”

Eis a entrevista.

O almoço com os pobres na Basílica de São Petrônio permanecerá como uma das imagens memoráveis da viagem do papa a Bolonha. Trata-se de uma novidade absoluta?

Abrir as portas das igrejas ao banquete para os pobres não é uma novidade absoluta na história da Igreja, assim como a atenção aos pobres não é algo incomum no pontificado do Papa Francisco. A Igreja apostólica levou a sério o exemplo de Jesus de socorrer aqueles que têm fome e sede, e os vinculou habitualmente à Eucaristia: nos Atos dos Apóstolos, afirma-se que a “fração de pão” deve ser acompanhada pela partilha dos bens materiais.

São Paulo liga a caridade com quem tem fome com a celebração eucarística: em Corinto, ela era precedida por um ágape fraterno. Aos coríntios, que, na cena, não compartilhavam o pão com os pobres, por serem considerados indignos da sua mesa, São Paulo recorda o amor ilimitado que levou Cristo a instituir a Eucaristia, entendida como memória de uma vida despedaçada pelos outros. Para Paulo, a Eucaristia está ligada à solidariedade: basta pensar na coleta organizada por ele para os cristãos de Jerusalém.

João Crisóstomo narra que, no fim da reunião sacramental, em vez de todos voltarem para as suas casas, os ricos convidavam os pobres, e todos se sentavam na mesma mesa preparada na própria igreja. Gregório Magno abriu as portas da igreja para dar de comer aos pobres em uma situação de dificuldade particular para a cidade de Roma, e também a velha basílica constantiniana de São Pedro tinha essa função, como contado por Paulino de Nola.

A atenção aos pobres não é estranha ao pontificado do Papa Francisco: ele fala continuamente da “cultura do descarte” e de “opção preferencial pelos pobres”: a frase inicial do seu pontificado – “como eu gostaria de uma Igreja pobre para os pobres” – é o programa que o próprio Jesus tornou conhecido na sinagoga de Nazaré. Durante o Jubileu, além disso, Francisco instituiu o primeiro Dia Mundial dos Pobres, que celebraremos no dia 19 de novembro.

Existe uma relação entre símbolo eucarístico e cidade dos homens?

Não há dúvida de que o pão e o vinho postos sobre o altar são sacramentos, sinal eficaz que realiza plenamente a presença do corpo e do sangue de Jesus. Na Eucaristia, o sacrifício de Cristo também se torna o sacrifício da Igreja: a vida dos fiéis, a oração, o trabalho, as alegrias e os sofrimentos estão unidos aos de Cristo e à sua oferta ao Pai, pela qual adquirem um valor novo. Entre Igreja e Eucaristia, existe uma relação de estreita conjunção: quando o cristão recebe o pão eucarístico, recebe o corpo do Senhor que quis incorporar em si todos os homens. Recebe, de algum modo, também a si mesmo, a Igreja inteira, aqueles que compartilham com ele a mesma fé. A Eucaristia torna-se, assim, o sacramento da unidade da Igreja: comendo o único pão, os fiéis estão em comunhão tanto com o Senhor, quanto entre si.

Para João Crisóstomo, a solidariedade é um sacramento, o sinal da presença de Cristo no mundo: o pobre é “outro Cristo”, o “sacramento do altar” deve se prolongar na vida cotidiana com o “sacramento do irmão”; não há separação entre eles. É o Evangelho que nos leva a ser servos dos pobres: para o cristão, a caridade não é exercida em nome de um humanismo anônimo ou de uma solidariedade genérica, mas em nome de Jesus e do Evangelho.

A liturgia eucarística é também liturgia do corpo?

Se quisermos encontrar Cristo, é necessário que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, escreveu o papa na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres. A Eucaristia manifesta uma ética de doação, de partilha e de solidariedade. Paulo chama a coleta para os pobres de koinonía, termo relacionado ao verbo grego koinoō, que também significa “contaminar”, “profanar”: a caridade, portanto, é como que uma contaminação na condição do outro, porque nos envolvemos na sua situação. O aspecto operacional da koinonía é a solidariedade, termo que deriva do verbo latino solidare, do qual também provém o adjetivo solidus.

Na chamada “modernidade líquida” em que vivemos, falta qualquer referência sólida para o homem de hoje. “Solidariedade” é o sustento recíproco ao modo em que cada parte de um sólido se sustenta e se mantém firme por meio de todas as outras: nenhuma é independente ou isolada. Quando não nos importamos com alguém que está mal ou está em necessidade, abre-se uma fissura no sólido, e, somando-se fissura a fissura, o sólido perde consistência e se desfaz. Só uma Igreja realmente “solidária” é uma Igreja “sólida”!

Comer junto com os pobres em uma igreja é também uma mensagem forte sobre o vínculo intrínseco entre liturgia e caridade.

A igreja, espaço da presença sacramental de Jesus entre os homens, é também o lugar onde se honra o corpo de Cristo no corpo dos pobres. Há uma dimensão de hospitalidade que o edifício da Igreja assumiu ao longo da história e que também pode chegar a assumir as formas de uma refeição compartilhada. Basta pensar nas grandes catedrais da Idade Média, lugares de acolhida a forasteiros e peregrinos: há, portanto, também, uma dimensão hospitaleira do espaço litúrgico que a Igreja sempre conheceu. Trata-se de um ato emblemático que significa que a charitas cristã brota do altar, da Eucaristia, razão pela qual ela tem um fundamento teológico, e o fato de ser exercida em um espaço litúrgico é a sua epifania.

Se não tiver a sua raiz em Cristo, a caridade se torna uma simples forma de assistencialismo ou de ideologia. Liturgia e caridade exigem uma relação harmônica que encontra em Cristo a sua unidade: não é preciso absolutizar nem uma, nem outra, nem separar uma da outra. Se for separada da caridade, a liturgia se torna autorreferencial; se for separada da liturgia, a caridade perde a sua referência fontal, que é o amor de Deus, e se reduz a filantropia.

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