Aqueles pobres que almoçam na catedral de Bolonha com o Papa, e a acusação de "profanação”

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02 Outubro 2017

Comentários críticos sobre os "últimos” sentados à mesa com o Papa na Basílica de São Petrônio, em Bolonha.. Era hábito no início do cristianismo. Acontecia também em Roma, com Gregório Magno, que servia à mesa. E no século V foi realizado um almoço para os pobres em São Pedro, louvado por Paulino de Nola.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 01-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Papa Francisco havia falado a respeito um pouco antes, durante o encontro na Hub de Regional de Bolonha: "De longe podemos dizer e pensar qualquer coisa, como facilmente acontece quando se escrevem frases terríveis e insultos via Internet".

Aconteceu também no caso da decisão do arcebispo Matteo Zuppi de oferecer comida a cerca de mil pobres, junto com o Papa Francisco, dentro da Basílica de São Petrônio.

Comentaristas, jornalistas e "haters” profissionais, juntamente com sites autodenominados católicos, não se limitaram a não concordar com a escolha (crítica, aliás, legítima), mas como tantas vezes acontece exasperaram os tons, trazendo à baila até a palavra "profanação".

Nenhuma surpresa: se se chegou a tachar de herege o papa com base em supostas heresias que ele jamais escreveu ou proferiu, até mesmo um almoço com os pobres e desfavorecidos sob os arcos de uma igreja pode ser apresentado como um ato subversivo e muito grave, uma afronta à sacralidade do lugar e uma ofensa – aliás, uma verdadeira profanação - do Santíssimo Sacramento.

É o enésimo exemplo de "tradicionalistas” que, a fim de encontrar sua acusação diária contra o Papa, esquecem (ou ignoram) a tradição e a história da Igreja. O Evangelho está cheio de cenas que descrevem Jesus à mesa: justamente o seu sentar-se à mesa com os publicanos e pecadores é que provoca escândalo.

A própria eucaristia é instituída em torno de uma mesa posta para o jantar. São João Crisóstomo, Pai da Igreja venerado pelas igrejas católica e ortodoxa, escrevia: "Você deseja honrar o corpo de Cristo? Não o ignore quando ele está nu. Não o homenageie no templo vestido com seda quando o negligencia do lado de fora, onde ele está malvestido e passando frio. Ele que disse ‘Este é o meu corpo’ é o mesmo que diz ‘Tu me vistes faminto e não me destes comida’ e ‘quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’ ... Que importa se a mesa eucarística está lotada de cálices de ouro quando seu irmão está morrendo de fome? Comeces satisfazendo a fome dele e, depois, com o que sobrar, poderás adornar também o altar".

Essas palavras de João Crisóstomo atestam o vínculo indissolúvel entre o serviço no altar, a Eucaristia e a caridade e o amor para os outros e para os pobres, como pode ser lido em uma edição da revista teológica de 2009 (não certamente subversiva) Communio: "Uma ligação ressaltada nas Escrituras, bem como o tema do banquete messiânico, no qual os últimos serão alimentados".

É evidente que o almoço na igreja - como aquele que oferece, tradicionalmente, a Comunidade de Sant'Egidio aos pobres no dia de Natal, na Basílica de Santa Maria em Trastevere - continua a ser um evento excepcional, uma vez que é um lugar destinado à liturgia e oração. Mas o gesto feito hoje por Francisco em São Petrônio, em Bolonha, é muito mais tradicional do que se possa pensar ou do quanto digam aqueles que o acusam de "profanação".

O almoço comum era frequente nas primeiras gerações cristãs, e acompanhava a reunião da comunidade desde os tempos apostólicos. Narra São João Crisóstomo: "Nas igrejas havia um admirável costume: os fiéis reunidos, depois de ouvir a Palavra de Deus, participavam todos das orações rituais e depois dos Santos Mistérios. No final da reunião, em vez de ir direto para casa, os ricos, que haviam se preocupado em trazer provisões em abundância, convidavam os pobres e todos se sentavam ao redor da mesma mesa, arrumada na própria igreja, e todos, sem distinção, comiam e bebiam as mesmas coisas. Entende-se como a mesa comum, a santidade do lugar, a caridade fraterna que se manifestava em todos os lugares se tornavam, para cada um, fonte inesgotável de alegria e de virtude".

Não faltam, relata a Communio, disposições pormenorizadas sobre esses almoços, aos quais muitas vezes participava também o Bispo, a ponto de sugerir a imagem de uma espécie de "liturgia da caridade". Até mesmo Gregório Magno, Bispo de Roma no final do século IV, abriu as portas da Igreja para alimentar os mais pobres, em um momento difícil para a cidade, marcada pela violência e situações de extrema necessidade.

O Papa Gregório preparava o "triclinium pauperum”, um refeitório para os pobres, no oratório de Santa Bárbara, ao lado de sua residência, no Célio. No centro da pequena igreja foi construída uma grande mesa de mármore onde ele mesmo, o Papa, todos os dias, servia a refeição a doze pobres.

Até mesmo, a Basílica de São Pedro - não a atual, mas a anterior constantiniana - viu almoços semelhantes. São Paulino de Nola, que viveu entre os séculos IV e V, relata um almoço para os pobres oferecido na Basílica de São Pedro, no Vaticano, pelo senador romano Pammachio. O senador, convertido ao cristianismo, ofereceu um almoço em memória à sua falecida esposa. O Bispo Paulino com estas palavras elogia e apoia a obra do amigo: "Tu reuniste na basílica do Apóstolo (Pedro, ndr) uma multidão de pobres, patronos de nossas almas, que por toda a cidade de Roma imploram esmolas para viver (...) Parece que estou vendo toda aquela multidão de pessoas pobres afluir em grandes enxames, até o fundo na imensa basílica do glorioso Pedro (...) que lindo espetáculo foi aquele".

Quem hoje fala despropositadamente de "profanação" está, portanto, chamando de "profanador" não só o atual Pontífice e o atual arcebispo de Bolonha, mas a muitos de seus predecessores, incluindo santos. Esquecendo que há ocasiões especiais em que nas igrejas, para serem abençoados antes do Pálio de Siena, entram até mesmo os cavalos.

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