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27 Setembro 2017

Em seu livro "Urgences pastorales" (Bayard), Christoph Theobald oferece uma reflexão serena e construtiva sobre o cristianismo no século XXI, que surge da novidade radical dos tempos.

A reportagem é de Elodie Maurot, publicada por La Croix, 21-09-2017. A tradução de Luisa Rabolini.

Essencial. Assim deveria se tornar nas próximas semanas, meses e até anos, a reflexão teológica feita pelo jesuíta francês Christoph Theobald em Urgences pastorales.

Essencial para todos aqueles que procuram viver e propor o Evangelho hoje, na Europa, independentemente de suas atitudes, seus rótulos ou até mesmo seus sentimentos: identitários ou progressistas, voluntaristas, pessimistas e talvez até mesmo deprimidos. Agora se poderá contar com essa impressionante "aposta" teológica, que novamente propõe e vivifica a reflexão sobre o futuro do cristianismo. Com grande liberdade espiritual, o autor tenta discernir o que poderia ser a sua nova face. A obra é apresentada como uma ampla síntese, organizada em três partes: um diagnóstico sociológico e cultural que aborda com determinação a "crise de credibilidade" que o cristianismo atravessa em nossas sociedades; uma reflexão teológica que retorna a fonte cristã e revisita os temas centrais da fé e da missão ao séquito de Cristo e seus apóstolos; e, por fim, a proposta de uma "pedagogia da reforma" que comporta a "conversão necessária" da Igreja.

Sobre a crise das Igrejas na Europa, muito tem sido dito nos últimos anos. Entre elas permanecem vivas as suas diferenças quanto ao posicionamento em uma sociedade secularizada. "Se, na superfície do mapa climático do catolicismo francês e europeu parecem dominar a preocupação depressiva de alguns e a combatividade identitária de outros, cabe um questionamento a respeito de como poderiam se mover as linhas", reconhece Christoph Theobald.

No entanto, a situação exige um embaralhamento das cartas, porque os tempos são repletos de desafios. Por um lado, uma Igreja que tem dificuldade para tornar credível a sua visão global da existência em uma sociedade que se tornou plural e fragmentada. Uma Igreja de enquadramento e de território, herdeira da civilização paroquial, que se esforça para manter a oferta pastoral atual, apesar da redução das próprias forças. Uma Igreja, por fim, composta por cristãos que, no fundo, não sabem mais muito bem como se posicionar diante daqueles que não acreditam ou que acreditam de maneira diferente.

Por outro lado, ressalta Christoph Theobald, a nossa sociedade pós-moderna é caracterizada por uma crise de confiança e uma crise de convivência, pelo fascínio com as tecnociências e as biociências, por preocupações com as mudanças climáticas e pelo domínio da um sistema econômico baseado na especulação. Afinal, "é a relação com a morte, que representa hoje o maior problema das nossas sociedades", observa ele. O medo da morte alimenta um fascínio por sua superação através das técnicas, o que poderia sinalizar o fim do humanismo europeu.

Considerando que a Igreja e a sociedade parecem afastar-se cada vez mais como resultado de uma invisível movimentação de placas tectônicas, Christoph Theobald escavou profundamente para encontrar o ponto em que cristãos e não-cristãos poderiam se encontrar. Ele o identifica em uma "fé elementar, conectada com a bondade de fundo da vida", cujo desenvolvimento é necessário para a continuação da existência de cada um, mas cujo nascimento nunca é garantido em face às provas.

Em torno desse ponto focal, o teólogo reconstrói a missão da Igreja, tema que precisava realmente de uma revisitação e que há tempo não era abordado com a força adequada. Para os cristãos, a missão consiste em se colocar, "com gratuidade" e "isentos de espírito de conquista", a serviço da vida dos outros, colocando à disposição de "qualquer um" os recursos de confiança e de esperança do Evangelho. Convida, por exemplo, os cristãos a considerar a hospitalidade e o serviço da fraternidade uma "mística não sagrada". Christoph Theobald está convencido disso, a situação atual é um tempo fecundo, em que "a colheita é abundante".

Mas, para percebê-lo e dar-lhe resposta, a Igreja precisa realizar uma mutação, voltar para o coração da experiência cristã marcada pelo "tudo é graça", depois rever tanto as suas prioridades como seu funcionamento.

Nesse livro denso, que procede em bloco, o autor combina qualidades que raramente são encontradas juntas: erudição e pedagogia, fidelidade e senso crítico, prudência e ousadia. Aborda questões muito conflituosas (a diferença cristã, a missão da Igreja, os sacramentos, os ministérios, o lugar da doutrina, etc.), mas com um toque espiritual e uma preocupação evangélica que poderiam envolver leitores de sensibilidades opostas.

Uma fé não incumbente. "Qual é o fogo interior que tanto parece faltar a nós, europeus? Seria uma espécie de ‘zelo’? (...) Sem dúvida, mas, como evitar então a confusão entre a fé e ‘zelotismo’ religioso? Não seria melhor se referir à amizade com Jesus Cristo que nos faz compartilhar o "conhecimento" do que ele ouviu de seu Pai (cf. Jo 15,15)? Mas como não transformar esse conhecimento em um saber incumbente? Alguns, de bom grado, defenderiam o nosso direito de sermos "orgulhosos". (...) Sim, nós podemos sê-lo, mas como externar esse "orgulho" nas nossas realidades humanas (...)? Em suma, como evitar que o status diaspórico da Igreja degenere no elitismo e ter certeza de que permaneça radicalmente aberto à multiplicidade de situações humanas mais frágeis (...)?". (p. 184)

A intimidade divina. "A bela palavra ‘intimidade’ (íntima) torna muito concreto o que, numa perspectiva teológica, é esvaziado pelo léxico mais abstrato da ‘autorrevelação’ ou da 'autocomunicação’ de Deus: Jesus não apenas nos coloca diante de Deus como fizeram os profetas, os da Bíblia e do Alcorão, etc., mas permite-nos aceder à Sua intimidade, à Sua interioridade abissal, porque ele já está lá. Eis é a ‘diferença’ cristã! (...) É de uma profundidade abissal, essa intimidade divina; de fato, ao acessá-la, gradualmente temos um vislumbre do lugar único que cada ser humano tem nela e qual respeito infinito ali nos é comunicado pelo Espírito de Deus para cada um de nós".

(p. 156-157)

(Res)suscitar a confiança. "O que torna possível (res)suscitar essa confiança ou essa esperança, se é justamente ela que constitui o extremo ‘baluarte’ da humanidade? E quem tem essa ‘capacidade’? (...) Esse é também o ‘lugar’ em que uma pastoral missionária pode intervir. Não é suficiente querer convencer a partir de fora os outros, os nossos grupos, ‘ter confiança’. Só o interesse gratuito da Igreja para os seres humanos em sua singularidade inalienável (...) pode conseguir - talvez – ressuscitá-la". (p. 289)

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