Uma teologia do lixo: o que aprendi sendo lixeiro no verão

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23 Setembro 2017

"Quando o vento não levava o cheiro do caminhão ao meu nariz e eu podia girar a cabeça em direção à doce brisa do verão, tudo fazia sentido. O lixo fede, mas alguém tem que lidar com isso" escreve Nick Ripatrazone, escritor, em artigo publicado por América, 20-09-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

Pulo da traseira do caminhão de lixo e viro a primeira tampa. As latas de lixo com rodinhas são as mais fáceis. Puxo uma para a traseira do caminhão e deixo que o impulso carregue o peso. Coloco a lateral da lata na tremonha, e os sacos caem na confusão fedorenta: redemoinhos de café com pacotes de ketchup rasgados e restos fétidos. Se tem muita coisa para tirar, Craig, o motorista, me ajuda, mas no geral faço sozinho. É só eu e o lixo das pessoas.

Num verão durante a faculdade, trabalhei de lixeiro para o departamento rodoviário da minha cidade. Andava na parte de trás do caminhão enquanto as manhãs frescas davam lugar às tardes quentes. Nossa rota ficava colada no painel: um mapa das ruas laterais e becos sem saída, copiado mil vezes. Tínhamos que terminar antes da hora do almoço. Uma corrida rápida queria dizer que daria tempo para comer uma omelete e torradas no Hanover Diner e, em alguns dias, tirar uma soneca em uma rua sem saída. Nunca dormi por muito tempo. Ficava com medo de ser pego. Os outros caras, mais experientes, disseram que ninguém se importaria, a menos que não passássemos em alguma casa.

Temos que descartar grande parte da nossa vida.

Nunca aconteceu. Algumas pessoas colocavam as latas de lixo de borracha grossa alinhadas contra o meio-fio. Outras jogavam sacos muito cheios na calçada, que transbordavam durante a noite. Os ursos adoravam pegar potes de iogurte e, muitas vezes, deixavam um rastro de fraldas e sacos de fast food rasgados nos gramados frescos. Algumas pessoas corriam pela rua na última hora, de roupão e chinelos, empurrando uma lata na frente e puxando outra atrás, como se sua casa fosse ficar lotada se não colocassem fora uma semana de lixo acumulado.

Talvez. Temos que descartar grande parte da nossa vida. Extratos bancários rasgados. Calças jeans mofadas, que ficavam em um sótão úmido. Televisores preto e branco, com a tela arredondada toda quebrada. Testes do ensino médio, guardados pela nostalgia que vira bagunça. Blusões de lã com uns rasgos aqui e ali. Cedo ou tarde, tudo tem que ir.

A. R. Ammons escreveu uma vez: "o lixo tem que ser o poema dessa época porque / lixo é espiritual, suficientemente crível / para chamar nossa atenção". Antes de ser lixeiro, nunca liguei muito sobre arrastar as lixeiras até o fim da entrada. Não me preocupava de deixar as latas cheias da grama triturada que tirava do cortador de meu pai. Não percebia que deixá-las tão pesadas provavelmente afetava ou machucava as costas de alguém. Não entendemos a maioria dos empregos, a maioria das vidas até habitá-las. Só estava pensando em me livrar do que não era necessário. O lixo não pode ficar dentro de casa. O novo tem que substituir o velho.

Há muito espaço - em nossas casas, em nossos corações -, e, em algum momento, temos que deixar ir.

O lixo tem um ritmo. Há muito espaço - em nossas casas, em nossos corações -, e, em algum momento, temos que deixar ir. Voltam à poeira a nossa comida, nossos travesseiros e lençóis, nossas roupas, nossos espelhos, nossos tapetes e carpetes. Nossos confortos materiais servem ao seu propósito, depois ficam desgastados e deformados e precisam ser jogados fora.

Existe uma comunhão estranhamente silenciosa entre nós do caminhão e as pessoas que muitas vezes deixam coisas muito pessoais - restos de extratos bancários, velhas cartas de amor da faculdade - empacotadas na rua, no final da entrada de suas casas. É uma oferta baseada na fé. Em todas as outras semanas a coleta foi gigantesca. As pessoas colocavam fora cadeiras reclináveis velhas e estantes desgastadas. Às vezes, encontramos consoles de Atari, deformados por causa da chuva da manhã, em meio aos itens grandes. Sabíamos que as pessoas haviam dirigido suas camionetas depois de escurecer na noite anterior, procurando tesouros jogados fora, para vender, e às vezes quem sabe para guardar.

Esse trecho, a ideia de dar ao lixo vida nova, me lembra a nossa caminhada semanal ao centro de reciclagem da região. Eu subia na borda de um caminhão do lixo gigante e acenava de volta para Frank enquanto o caminhão emitia um som alto. Jogava no lixo a coleção de garrafas de cerveja marrons, latas de alumínio de refrigerante e caixas de leite. Eu desviava os olhos do show que esmagava e quebrava as coisas, pois parecia mesmo que um pedaço de algo me cortaria. Este lixo voltaria a ser útil novamente. E voltaria lá para o centro.

Algumas pessoas acumulam sucata. Enfiam cada vez mais coisas em quartos nos fundos e porões. Outras jogam suas malas pretas na traseira de uma camioneta e levam-nas para a floresta, onde ficam jogadas, são cobertas de vegetação e se integram (ou não) à terra. Outras ainda queimam o lixo em tambores de 190 litros e na manhã seguinte giram as cinzas com uma vara longa, revelando o lixo que sobreviveu às chamas: partes de pacotes de doces, parafusos e unhas. A maioria das pessoas colocava suas coisas na calçada. Galhos improvisados e mal-amarrados caíam das árvores na tempestade. Panfletos de supermercado de anos atrás ou óculos de sol esmagados no fundo da bagagem.

Fazíamos nossa rota semanal para remover o indesejado e, depois de sair, havia um rastro de latas vazias, presas como espantalhos na estrada. Quando o vento não levava o cheiro do caminhão ao meu nariz e eu podia girar a cabeça em direção à doce brisa do verão, tudo fazia sentido. O lixo fede, mas alguém tem que lidar com isso.

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