É preciso ouvir os “sinais dos tempos”, alerta bispo australiano sobre casamento homoafetivo

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18 Setembro 2017

Muito embora a maioria dos bispos australianos esteja defendendo o “não” em um plebiscito nacional programado referente ao casamento homoafetivo, dois deles estão propondo algo um pouco diferente. Dom Vincent Long van Nguyen, da Diocese de Parramatta, diz que esta votação “deveria ser uma oportunidade de testemunharmos o nosso profundo compromisso com o ideal de matrimônio cristão (...) mas que também deveria ser uma oportunidade para ouvirmos o que o Espírito está dizendo através dos sinais dos tempos”.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 17-09-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Após declarações feitas por vários bispos australianos reafirmando o ensino da Igreja para os católicos australianos na dianteira de um plebiscito sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, dois bispos estão propondo algo um pouco diferente, com um deles dizendo que é “uma decisão que cada um está livre para tomar”.

Dom Vincent Long van Nguyen, nomeado pelo Papa Francisco para a Diocese de Parramatta, também falou que, assim como a legalização do divórcio não alterou as regras da Igreja, qualquer que seja o resultado do plebiscito sobre o casamento homoafetivo a acontecer ainda este ano, ele não mudará o ensino da Igreja.

“A Igreja continuará a defender que o matrimônio é uma instituição natural estabelecida por Deus para ser uma união permanente entre um homem e uma mulher, orientada para o companheirismo mútuo e para a formação de uma família em que os filhos são gerados e nutridos”, escreveu o bispo.

Long igualmente convidou os católicos a se envolverem neste “discernimento comunitário”, afirmando não se tratar de um simples “sim ou não”.

“Deveria ser uma oportunidade para testemunharmos o nosso profundo compromisso com o ideal do matrimônio cristão”, disse. “Mas que também deveria ser uma oportunidade para ouvirmos o que o Espírito está dizendo através dos sinais dos tempos”.

Nas próximas duas semanas, os agregados familiares australianos receberão uma cédula postal que permitirá que os 16 milhões de eleitores expressem o que pensam sobre o tema.

As pesquisas de opinião mostram que uma maioria votará a favor. Se este for o caso, o governo prometeu apresentar no parlamento um projeto de lei para legalizar o casamento homoafetivo antes do Natal.

As cédulas deverão ser submetidas em novembro. Diferentemente de um referendo, em que o voto dos cidadãos altera a lei ou, pelo menos, não pode ser facilmente ignorado, um plebiscito é apenas uma amostragem da opinião pública e não possui vinculação jurídica.

“É importante lembrar desde já que esta sondagem postal é sobre se os australianos querem, ou não, que a definição jurídica do casamento civil seja alterada para incluir os casais do mesmo sexo”, escreveu Long.

“Não é um referendo sobre o matrimônio sacramental conforme entendido pela Igreja Católica”, acrescentou ele em uma carta pastoral endereçada aos fiéis de diocese e assinada em 13 de setembro.

Long é um vietnamita-australiano que foi nomeado bispo pelo Papa Francisco no ano passado. A sua nomeação foi motivo de manchetes internacionais porque ele passou a ser o primeiro bispo australiano de origem vietnamita. O religioso chegou ao país em um barco com refugiados no começo da década de 1980.

Em fevereiro passado, ele contou à Comissão Real Australiana para Respostas Institucionais a Casos de Abuso Sexual Infantil que, embora adulto quando chegou ao país, ele sofreu abusos sexuais por clérigos e que isso o fazia simpatizar com as vítimas.

Para muitos católicos, escreveu Long em sua carta, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é “simplesmente teórico, mas profundamente pessoal”, seja porque elas próprias experienciam a atração homoafetiva, seja porque os amigos ou parentes vivem esta realidade”.

“Em casos assim, eles ficam divididos entre o amor deles pela Igreja e o amor deles pelo filho, neto, irmão, sobrinho, amigo, vizinho homoafetivo”, afirmou no texto.

Reiterando o compromisso feito em sua instalação, de tornar a Igreja em Parramatta em uma casa para todos os povos, onde se pode experienciar menos exclusão e mais “um encontro de amor radical, inclusividade e solidariedade”, o religioso falou que esse objetivo inclui a todos, independentemente da orientação sexual, do estado civil e da situação das pessoas.

Long escreveu ainda que muitas vezes, ao longo da história, as pessoas LGBTIs não foram tratadas com respeito.

“Lamentavelmente, a Igreja nem sempre era um lugar onde elas se sentiam bem-recebidas, aceitas e amadas”, disse. Por isso, e independentemente de como o plebiscito terminar, os católicos devem apoiar as pessoas LGBTIs, “reafirmando a dignidade delas e acompanhando-as em nossa caminhada comum em direção à plenitude da vida e do amor em Deus”.

Dom Bill Wright, da Diocese de Maitland-Newcastle, adotou uma posição parecida, dizendo que o argumento do “bem comum” poderia ser trazido ao debate, e que “em nossa sociedade pluralista, o fato de os casais gays terem um lugar nas estruturas reconhecidas contribui mais para a paz e a harmonia comunitária do que a permanência desta exclusão”.

Em texto publicado no sítio eletrônico diocesano, Wright disse que, algum tempo atrás, ele notou que a pressão para o casamento homoafetivo “parecia surgir do desejo dos casais gays de terem uma cerimônia oficialmente sancionada para formalizar o compromisso deles entre si e, depois, para fazer com que esta relação acordada fosse legal e tivesse reconhecimento social”.

Segundo Wright, não é normal que em uma sociedade, onde as relações homoafetivas são legalizadas e os casais gays podem adotar e criar filhos, a relação em si não tenha um status jurídico claro.

A atitude aparentemente aberta de Long para com o casamento civil gay está em contradição com que a Igreja ensina.

Vários meios de comunicação na Austrália acusaram os bispos locais de irem contra Francisco, a quem percebem como sendo a favor do casamento gay pelo seu comentário “Quem sou eu para julgar?” e pelo chamado a uma Igreja mais inclusiva.

Entretanto, Francisco na verdade tem defendido o ensino católico sobre o assunto. Em seu documento sobre a família, Amoris Laetitia, ele escreve: “(…) quanto aos projetos de equiparação ao matrimônio das uniões entre pessoas homossexuais, que não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família”.

Dom Anthony Fisher, da Arquidiocese Sydney, desafiou as percepções da imprensa em uma postagem na internet datada de 31 de agosto. Ele cita o que Francisco disse nos últimos tempos, bem como reproduz afirmações feitas de quando ele ainda era arcebispo de Buenos Aires, período em que a Argentina se tornaria o primeiro país na América Latina a legalizar o casamento gay.

“Um casamento – composto de homem e mulher – não é o mesmo que a união de duas pessoas do mesmo sexo. Distinguir não é discriminar, mas respeitar as diferenças”, escreveu na época o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio. “Num momento em que pomos a ênfase na riqueza do pluralismo e da diversidade social e cultural, é uma contradição minimizar diferenças humanas fundamentais”.

Mais adiante, Fischer cita várias ocasiões em que Francisco reitera o posicionamento da Igreja, escrevendo que um acompanhamento pastoral sensível para com os gays e lésbicas, incluindo os casais homoafetivos, “é coerente com a defesa da verdade sobre o matrimônio”.

Francisco disse repetidas vezes que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo seria ‘um passo atrás para a humanidade’ e prejudicaria gravemente todos nós – incluídas as pessoas homossexuais – porque a saúda da ‘ecologia humana’ depende de uma cultura conjugal saudável”, escreve Fischer, citando discursos que Francisco fez em 2013, 2014 e 2015.

Ao citar Amoris Laetitia, o prelado também afirmou que cada cônjuge contribui de uma maneira distinta para a formação da criança. Por essa razão, “respeitar a dignidade da criança significa reafirmar o direito natural dela de ter uma mãe e um pai”.

Existem cinco milhões de católicos na Austrália, e recentemente Dom Denis Hart, da Arquidiocese de Melbourne, publicou a advertência dizendo que dos funcionários católicos espera-se que vivam de acordo com o ensino da Igreja, independentemente do resultado da votação.

“Esperamos que os nossos professores, os funcionários das paróquias observem totalmente a fé católica e aquilo que pensamos sobre o matrimônio. As pessoas precisam ver nas palavras e no exemplo que o nosso ensino sobre o matrimônio é sublinhado”, disse.

Um panfleto publicado pela Conferência dos Bispos da Austrália no começo deste mês sustenta esta ideia dizendo que o casamento entre um homem e uma mulher “não é uma crítica aos demais relacionamentos”, nem uma asserção de “intolerância, dogma religioso ou tradição irracional, mas um reconhecimento da ecologia humana”.

No fim de agosto, os bispos igualmente lançaram uma campanha, convidando os católicos a orarem e jejuarem durante o mês de outubro “porque as famílias todas precisam das nossas orações e precisam da Graça de Deus”.

O sítio eletrônico para o matrimônio católico e conselho de família (“Catholic Marriage and Family Council”) convida as paróquias, as escolas e os lares de todo o país a orarem “pelo entendimento de nossa nação sobre a importância do matrimônio: nós iremos agir para proteger o desígnio de Deus para o matrimônio e a vida em família. Vamos também orar pelo bem-estar dos casamentos e das famílias e, de um modo especial, pelas pessoas que se atraem pelo mesmo sexo ou se questionam sobre a questão de gênero”.

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