Em 1968, Ir. Roger, de Taizé, viajou no avião que levava Paulo VI a Bogotá

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07 Setembro 2017

Anotações inéditas. Neste artigo para o L’Osservatore Romano, 05-09-2017, o regente da Prefeitura da Casa Pontifícia, Mons. Leonardo Sapienza – com base em cartas e anotações inéditos consultados para a preparação de um livro sobre as relações entre Paulo VI e o Ir. Roger – conta como nasceu a iniciativa de hospedar o prior de Taizé no voo papal rumo à Colômbia em 1968.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No voo para Bogotá, no dia 22 de agosto de 1968, Paulo VI fez com que um hóspede muito agradável subisse a bordo. Ou, melhor, dois. “Convidados especiais” era a qualificação impressa nos bilhetes do Ir. Roger Schutz e do Ir. Robert Giscard, da comunidade ecumênica de Taizé. “Esta é uma exceção feita a amigos – hóspedes no avião”, escreveu o papa, no dia 15 de junho, em uma nota à Secretaria de Estado. Com uma recomendação: “Seria bom manter confidencial esta notícia, para evitar pedidos de outros, desejosos de um favor igual”.

Tinha sido o próprio Roger que pediu expressamente a Paulo VI para poder viajar no avião com ele, junto com um coirmão, “bem-entendido, às nossas custas”. Apesar do canal direto com o apartamento papal, o prior de Taizé preferira dirigir-se por escrito – a carta é datada de 11 de março de 1968 – ao arcebispo Giovanni Benelli, sostituto da Secretaria de Estado. Motivando detalhadamente as razões do pedido.

A comunidade de Taizé, em suma, estava presente na América Latina há 10 anos já, apoiando o projeto de cooperativas agrícolas nas terras de propriedade de algumas dioceses, com coleta de fundos chamada “Operação Esperança”. Em 1964, o Ir. Roger passou da promoção humana dos mais pobres ao seu crescimento espiritual, e, assim, de Taizé, começaram a ser enviadas à América Latina um milhão de cópias do Novo Testamento, em uma nova tradução editada por um grupo ecumênico de especialistas, que levaram em conta as peculiaridades idiomática daqueles povos.

Na iniciativa, foram envolvidos todos os bispos latino-americanos, proporcionalmente ao número dos habitantes. Mas também os protestantes. A distribuição das cópias foi gratuita e capilar, a ponto de chegar até aos vilarejos mais remotos.

Sobre tudo isso, o Ir. Roger informou, em detalhes, ao arcebispo Benelli. E tranquilizou-o: a iniciativa foi concordada com os cardeais Carlo Confalonieri, prefeito da Congregação para os Bispos, e Antonio Samorè, presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina. Este último viajou com o prior no avião papal, como membro da comitiva de Paulo VI, junto com o cardeal Eugène Tisserant, decano do Sagrado Colégio, com o próprio Benelli, com o arcebispo Agostino Casaroli, secretário do Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja, com o Mons. Mario Nasalli Rocca di Corneliano, prefeito do Palácio Apostólico, com o Mons. Jacques Martin, consultor da Secretaria de Estado, com o Mons. Joseph Grémillon, secretário da Pontifícia Comissão Iustitia et Pax, com os monsenhores Paul Marcinkus e Eduardo Martínez Somalo, autoridades da Secretaria de Estado, e com o Mons. Gabriel Montalvo, autoridade do Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja.

Na comitiva papal, também estava, entre outros, os monsenhores Pasquale Macchi e Bruno Bossi, secretários do papa, e Federico Alessandrini, vice-diretor do L’Osservatore Romano.

Mas o Ir. Roger, na carta ao Mons. Benelli, não se deteve no pedido de viajar no avião com o papa: ele tinha outra questão central a ser apresentada a Paulo VI, sempre através dos escritórios do sostituto da Secretaria de Estado. O pontífice iria a Bogotá também para o Congresso Eucarístico Internacional, assim como para a Conferência Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), e – escreve ele na carta – tem um grande significado o fato de unir a Eucaristia com a difusão capilar da Palavra de Deus através das cópias do Novo Testamento.

Por isso – este é o pedido – seria possível receber a Sagrada Comunhão diretamente das mãos do papa? É a ocasião propícia, reitera, “para testemunhar a nossa fé na presença real. Mas, se isso não for possível, nós compreendemos sem problemas”.

Um pedido que Paulo VI logo assumiu, de modo particular. Mas não decidiu sozinho: ele interpelou os seus colaboradores, incluindo o cardeal Augustin Bea. Solicitou “a resposta para Taizé” com pelo menos dois bilhetes assinados. E, no fim, pediu que Benelli comunicasse que, pelo menos por enquanto, ainda não é possível que o Ir. Roger participe da comunhão eucarística. E ainda mais recebe-la diretamente das mãos do papa. De sua parte, o prior agradeceu por escrito ao papa pela sua atenção e confidenciou que compreendia as motivações.

O Ir. Roger permaneceu na Colômbia durante toda a viagem do Papa Montini. Naqueles dias, optou por se hospedar em uma favela, junto com o Ir. Robert Giscard e também com Max Thurian, um dos seus primeiros companheiros que o precedera esperando o avião do papa em Bogotá. E, assim, o prior foi testemunha direta e comovida do abraço espontâneo e muito caloroso do povo colombiano a Paulo VI. A tal ponto que as pessoas literalmente disputavam para pegar a terra beijada pelo papa na sua chegada, a ponto de deixar um verdadeiro buraco no chão, como contou Mons. Macchi, testemunha ocular do fato.

O Ir. Roger também esteve presente quando o pontífice ordenou 161 sacerdotes e 41 diáconos provenientes de toda a América Latina. E escutou o seu histórico discurso pronunciado em Medellín na abertura da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Justamente lá, ele teve a oportunidade de conhecer o secretário-geral do Celam, Dom Eduardo Francisco Pironio, uma personalidade de destaque, capaz de desempenhar, depois, um papel de primeiro plano na missão na América Latina e, em seguida, no serviço à Igreja universal.

Em suma, o Ir. Roger viveu como observador realmente privilegiado tanto os trabalhos do Congresso Eucarístico Internacional, destacando no seu discurso como a Eucaristia é um sinal e um chamado à unidade, quanto do Celam. E também abraçou os camponeses colombianos, relançando imediatamente e com força o testemunho do papa que quis se encontrar com os mais pobres, denunciando como muitas vezes faltam honra e pão.

As palavras de Paulo VI aos camponeses, além disso, se tornaram para Taizé um verdadeiro manifesto no serviço aos mais pobres.

O Ir. Roger sempre levou idealmente consigo o ícone do Campo San José, aquela interminável planície de Mesquera, a 30 quilômetros de Bogotá, onde Montini celebrou a missa diante de mais de 250 mil pobres trabalhadores do campo. Ele não esqueceu as palavras do papa, diretas, simples, proféticas: “Vocês são um sinal, vocês são uma imagem, vocês são um mistério da presença de Cristo. O sacramento da Eucaristia nos oferece a sua presença escondida, viva e real; mas vocês também são um sacramento, isto é, uma imagem sagrada do Senhor entre nós, como um reflexo representativo, mas não escondido, da sua face humana e divina. Vocês são Cristo para nós. Nós os amamos com uma afeição preferencial; e conosco ama, recordem bem, recordem sempre, a Santa Igreja Católica”.

Sobre essas palavras, assim como do significado dos grandes eventos do Congresso Eucarístico e da Assembleia do Celam, o Ir. Roger pôde falar face a face com Paulo VI durante o voo de volta para Roma. Recebendo do papa o mandato de continuar, precisamente naquela diretriz, o serviço da comunidade de Taizé entre os mais pobres da América Latina.

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