A crise do padre. "Não os deixem sós!"

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23 Setembro 2017

Francesco Cosentino, 38 anos, presbítero da Diocese de Catanzaro-Squillace, atualmente é oficial na Congregação para o Clero e Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, reflete sobre a 'crise do padre', em artigo publicado por Settimana News, 03-07-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

Independentemente da perspectiva com a qual se enfrenta a crise do padre, se não se quiser escorregar para uma leitura superficial e sociológica do ministério, a pergunta que sempre volta é aquela da sua identidade: quem é o padre?

Tínhamos começado a falar sobre isso nas reflexões antes do verão, atentos ao valor do "inútil" e à importância de reconciliar-se com isso. Tal limite, frequentemente, é uma benção, não só para proteger-se a si mesmo e "não se queimar", mas, muito mais positivamente, para poder dispor, mesmo em meio a cansaços e desânimos, de energias criativas para repensar de modo inovador o ministério presbiteral.

À realidade do descartável são conaturais desafios de natureza humana e espiritual, que variam de acordo com as condições pessoais, eclesiais e de idade do presbítero.

O cuidado de si

O jovem presbítero, que chega cheio de expectativas e de desejos cultivados ao longo dos anos, muitas vezes, colide com uma realidade diferente daquela imaginada; pode sentir-se decepcionado, descobrir-se inexperiente, sentir-se isolado. O desafio é tão cansativo quanto de grande valor: aprender a não idealizar a si mesmo, e nem a Igreja que está à sua volta. Descobrimo-nos todos os dias necessitados de aprender e de ser conduzidos pela mão de Cristo. Somos, dessa forma, forjados, embora, muitas vezes, a caro preço, na humildade, característica típica do cristão e do pastor.

Isso não exime que, na Igreja, seja preciso apostar no apoio e no acompanhamento dos padres, especialmente os mais jovens. Eu ouvi do Papa Francisco, em 1 de junho, na Assembleia Plenária da Congregação para o Clero: "Não os deixem sós. A proximidade: os bispos próximos dos sacerdotes; bispos juntos dos padres".

Também os menos jovens - não apenas em idade, mas em anos de experiência no ministério - devem abraçar desafios. Situações pastorais, relações com o povo de Deus, anúncio da Palavra e a orientação da comunidade em contextos cada vez mais fragmentados e seculares, unem-se ao amadurecimento interior de cada um, à alguma desilusão generalizada que nos habita, à rigidez dos esquemas pastorais adotados, à apatia com relação à oração ou ao trabalho, a certos preconceitos que se formaram ao longo do tempo, e assim por diante.

Enfatizo estes aspectos porque - parece-me - quando falamos sobre o padre, de como deveria ser seu ministério e da sua crise, esquecemos frequentemente de sua humanidade.

Gostaria de falar, para além dos bispos, aos irmãos leigos: um padre cresce, muda, envelhece. Muitas vezes mastiga amargura, frustração e solidão. Outras vezes carrega dentro de si uma alegria que deseja compartilhar e comunicar. Ele adoece e se cansa. Erra, sim; mas precisa de uma discreta ternura antes que de moralismos e julgamentos. Em suma, não esqueçamos que ele é um ser humano e não um super-herói.

Às vezes, seria bom, para nós padres, lembrar e integrar, como dimensão imprescindível da própria espiritualidade e da oração, tudo o que serve para permanecermos humanos e cuidarmos da nossa humanidade.

Atitude de abertura

É dentro destas situações pessoais e pastorais que o padre se forja. Não por meio de um ideal abstrato, mas nas condições vacilantes da vida e na impressionante tempestade das relações humanas e pastorais. Aqui, o desafio é aprender a permanecer abertos, sem minimizar, com superficialidade, as situações, e sem escorregar na atitude cínica e pessimista de quem já largou os remos.

Diante das novas formas pastorais, dos problemas inéditos da comunidade, dos momentos históricos da vida da Igreja, dos novos cenários culturais e espirituais, o padre continua sendo uma figura aberta. Com seus cinco pães e dois peixes, pronto a recomeçar sempre de novo. Sem escapatórias fáceis, vai para uma terra estrangeira que Deus indicará, equilibrando-se entre o medo do novo e a coragem de ousar, carregando a bordo a capacidade de abandonar qualquer segurança adquirida - mesmo aquela eclesial - para recomeçar todos os dias.

Trata-se de "aceitar a inutilidade", mantendo, porém, um grande coração. Abraçar a universal missão do reino de Deus, encarnando-a no limitado círculo da carne e da história. Mais ainda, trata-se de entrar com compaixão e entranhas da ternura na história dos homens, mas lembrando-se de levantar o olhar para o alto em direção a nossa verdadeira pátria, que está em outro lugar. Enviados para o mundo e no mundo, mas sem nunca acorrentar o ministério àquela "mundanidade espiritual" que, sob aparências religiosas e formais, vai na direção da busca do próprio ego, do próprio poder e de própria glória.

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