Crise dos padres. Aceitar "a inutilidade"

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18 Julho 2017

Padre Francesco Cosentino continua a reflexão sobre a figura e o papel do sacertote hoje, depois das três contribuições do Padre Armando Matteo (cf. Settimananews 4, 10 e 13 de Junho de 2017), "O que resta do padre?", seu primeiro texto (cf. Settimananews, 02 de julho) versava sobre a identidade do sacerdote e dos condicionamentos históricos que o marcaram. Neste artigo, o professor insiste sobre a necessidade do padre de saber fazer conviver na sua pessoa a grandeza da vocação com a fragilidade da sua humanidade.

Padre Francesco Cosentino, 38 anos, é sacerdote desde 2005, da Diocese de Catanzaro-Squillace, professor e diretor de retiros espirituais e encontros, atualmente funcionário da Congregação para o clero e professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. Apaixonado pelo discurso sobre Deus, publicou numerosos trabalhos sobre este assunto.

O artigo é publicado por Settimana News, 14-07-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

A atual crise afeta a identidade do sacerdote que, portanto, precisa rever seu modelo ministerial e pastoral, retornando à essência da chamada e ao essencial do ministério. Partimos daqui, só para uma breve fotografia e para começar a tocar algum nervo descoberto.

Voltarei a problemática, a alguns dos seus principais aspectos e sobre o tipo de padre que, pelo menos hoje, parece estar em crise, invocando caminhos novos e criativos para repensar esta figura; no entanto, exatamente por partir da convicção de que antes de qualquer "receita" pragmática é preciso reflexão e pensamento – coisa que, no entanto, não convence muito, nem mesmo os padres! - é bom debruçar-se sobre a já mencionada questão da identidade presbiteral. Não se terá sucesso em lidar com a figura do padre se, antes de tudo, as soluções, não partirem da questão da identidade: quem é, realmente, o padre?

Uma "inutilidade" intransponível

A pergunta não quer ser retórica, nem se limita a oferecer alguma meditação de corte espiritual. Ela nasce de uma simples convicção: em relação a crise atual, há razões contingentes e contextuais, como as mudanças socioculturais das últimas décadas, o crescente desinteresse em relação à fé cristã, os novos desafios para a proclamação da fé, ou a queda das vocações que sobrecarregam alguns e aumentam a idade média do clero. Essa crise, no entanto, parece atingir a “totalidade do ser padre", sua identidade profunda e radical, que transcende qualquer aspecto histórico particular.

Ninguém se assuste, porém, se digo que ... a pergunta sobre a crise do padre é estritamente "teológica", isto é, ela realmente não poderá ser de fato resolvida se nos concentramos epidermicamente na análise sociológica ou nas fáceis soluções de tipo pastoral.

Há uma palavra que, acima de tudo, nos representa: a inutilidade.

Nós a sentimos interiormente, quase como um estremecimento, por sua capacidade de fotografar o que experimentamos, a cada momento, em nossa pele, e nos remete, precisamente, ao conteúdo teológico da identidade sacerdotal. Não se trata simplesmente de sentir-se "inadequados" – pois também um médico, em parte, o é, dada a gravidade de certas situações que deve tratar, ou um juiz em relação a uma decisão difícil - e, ainda menos, devemos escorregar em um moralismo depressivo fixado na fragilidade e no pecado. Sempre seremos padres pecadores.

Aqui há muito mais: a inutilidade está inscrita constitucionalmente em cada vocação cristã e, em geral, na experiência de fé: Deus e o homem, Aquele que chama e o chamado, o Mestre e o discípulo, o Evangelho e o coração do homem, nunca estarão no mesmo plano. A revelação de Deus em Jesus Cristo derruba os muros de separação e preenche tais distâncias, mas, no entanto, isso nunca vai significar um cancelamento da "diferença". Entre Deus e nós ela vai continuar a existir.

É Deus quem envia e sustenta Moisés, quem purifica os lábios de Isaías, quem tranquiliza o jovem Jeremias, quem confia a um pescador impulsivo a orientação da Igreja; todavia, isso não acontece por causa de um "salto" de humanidade, que, de repente, anularia a impureza, ou a juventude ou a impulsividade, mas, - como bem confessará São Paulo – exatamente dentro das fraquezas e nos espinhos da carne.

Portanto, a questão da identidade do padre nos remete às origens da vocação, e àquela "diferença" que sempre assinalará uma lacuna com relação Àquele que nos chamou, e à tarefa que nos foi confiada; trata-se de permanecer sempre em caminho - nunca estacionados e satisfeitos - abertos a forma como o Senhor, mantendo-nos na inutilidade, por vezes, difícil de suportar na carne, nos consolará, nos fortalecerá e nos fará ver, ainda que à distância, "a terra onde corre leite e mel".

Não somos chamados a fazer "tudo"

Cada vez que o próprio ministério nos desloca para outro lugar, nos chama e nos redefine, nos convida a recomeçar a partir do zero, fazendo-nos mudar destinos pastorais e modelos anteriormente adquiridos, nossa identidade sacerdotal muda, evolui, amadurece e se abre a paisagens inéditas. Isso acontecerá enquanto não nos fecharmos rigidamente em esquemas pré-estabelecidos e nos deixarmos interrogar - com grande fadiga - pelo Espírito e pela vida.

Sobre a insignificância da vida do padre escreveu, com pertinência, Antonio Torresin, afirmando que o ministério sacerdotal "é marcado por uma excedência, por um contraste insuperável que marca a experiência de ser discípulos, da missão e do mandato recebido. Melhor, marca cada chamada, até a do próprio ser humano. Não estamos à altura da tarefa confiada, pois ela nos transcende de modo insuperável, nos esmaga e nos supera: é demais para nós. No entanto, é o que melhor nos corresponde, é aquilo sem o qual nossa humanidade está perdida. Este excesso, que é o ministério, é nossa única salvação; ele não só é o caminho para a santidade, mas a graça para não perder-se. (TORRESIN, A. "Il paradosso del ministero. Quando la missione redifinisce il prete”. Il Regno/Attualità 2/2010, 22).

A inutilidade é experimentada de forma diferente, não só por cada um dos padres - o que é óbvio - mas também segundo as diferentes fases da vida sacerdotal, dos anos de ordenação, das experiências pastorais vividas ao longo da sua história e, não menos importante, dos contextos eclesiais em que nos encontramos.

Sem querer negar algumas problemáticas existentes e novas, que invocam ampla reflexão eclesial, acredito que reconciliar-se com essa inutilidade, acolhê-la e torná-la amiga na vida sacerdotal de todos os dias, e talvez, até mais, formar-se e preparar-se para ela, e a convencer-se dela, poderia ser um primeiro antídoto para a crise e um importante ponto de força para a "resistência" do padre.

Não é talvez verdade que, grandes ou pequenos momentos de crise em nossas vidas, por vezes, dependeram de não termos compreendido que ao padre não é pedido "tudo", que não é chamado a "salvar o mundo" (já feito por Nosso Senhor), que não é e não deveria ser o centro, a fonte e o ápice da comunidade e da ação pastoral? Não será que muitas frustrações, sofrimentos e depressões dependem também de termos superestimado a nós mesmos e nos feito exigências excessivas (ou ao menos em número) para o nosso ministério?

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