O papel das Igrejas nas sociedades complexas. Artigo de Alberto Melloni

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06 Setembro 2017

“Na sociedade complexa, só quem sabe hospedar o pensamento do outro na sua alteridade faz uma obra de paz.”

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 05-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitas vezes, a fé cristã teve que ser deparar com grandes dramas histórico-políticos e gerou leituras em que, muitas vezes, retorna uma bipartição que se tornou padrão. Por um lado, a leitura (no fundo, moralista) que denuncia este ou aquele mal como fruto de uma desobediência ou a sua sanção.

A outra (chamá-la-emos de teológica?) é a visão de quem se pergunta como a redenção que está no fundo da história, na fronteira do último, ilumina com a sua luz filiforme e penetrante as coisas presentes.

Foi assim para a guerra: lida agora como o castigo de uma modernidade indócil à lei divina ou como a oportunidade para narrar uma teologia da paz capaz de olhar para o mundo com os olhos das vítimas.

É assim também com os grandes dramas ambientais: lidos por uns como a ameaça trazida por um consumismo imoral, ou – assim fizeram o patriarca ecumênico Bartolomeu e o Papa Francisco na belíssima mensagem para o dia em defesa da criação – como uma questão que diz respeito à fé daqueles que se dizem crentes.

Quem saboreia a doçura das coisas não como “natureza”, mas como “dom”, quem sente o gemido de expectativa da redenção messiânica naquele que não tem voz, sem dizer nada, diz a todos que é possível ser hóspedes transitórios em um mundo cujas leis férreas do poder e da racionalidade têm um limite escatológico. E isso não é uma gentileza em relação aos nossos “filhos e netos”, como diz a retórica do ecologismo chic: mas serve para todos, aqui, já.

É por isso que sociedades complexas e males globais como os nossos confiam às Igrejas uma grande responsabilidade. Ou se tornam o combustível fóbico de fundamentalismos e integralismos, altamente inflamáveis. Ou mostram com mansidão o que aquilo que é próprio e infungível da fé pode oferecer a todos os homens e as mulheres, não para fazê-los se tornar crentes ou para ganhar a sua estima, mas por uma necessidade que nasce da profundidade lenta e severa de fé.

Portanto, não pílulas de cristianismo terapêutico, receituários estético-litúrgicos, espiritualidades sedutoras para a meia idade, prontuários psicanalíticos de baixo custo: mas uma teologia pensativa, laboriosa. Capaz de imergir nas Escrituras e de se familiarizar com a grande tradição da patrística que não serve para manter o mito de uma antiguidade pura e indivisível, mas para conhecer as infinitas possibilidades e nuances da fé una.

Se isso for verdade, o congresso de espiritualidade ortodoxa que está sendo realizado no Mosteiro de Bose – o 25º da série e o primeiro do novo prior, Luciano Manicardi – tem um valor geral para o Ocidente e para o Oriente. Não só porque será aberto pessoalmente pelo Patriarca Ecumênico Bartolomeu (com o qual todas as Igrejas estão em dívida, seja por ter trazido o tema da ecologia para a agenda ecumênica, seja por ter celebrado o Concílio pan-ortodoxo). Não só porque os três grandes mosteiros ecumênicos da Europa (Chevetogne, Taizé e Bose) estarão representados lá. Mas também pelo modo como será examinado o tema da hospitalidade e do dom.

O êxodo de grandes massas da guerra e da fome está apenas no início. As respostas das democracias são balbuciantes: quem não vai rir da “segurança” ou da “acolhida” da Europa quando, em 30 anos, os africanos serão 2,5 bilhões? As soluções autoritárias são trágicas e risíveis; as estetizantes – das quais o drone usado por Ai Weiwei para o seu documentário sobre os refugiados é o ícone –, irritantemente banais.

Não é que as Igrejas tenham uma resposta (a não ser que queiram fazer moralismo e dizer que tudo depende do fato de que o homem é mau). Mas elas têm um tesouro de fé que podem disponibilizar a todos, e, nesse tesouro de fé, existe a certeza de sermos hóspedes daquele que, depois de ter criado os mundos, costurou as peles para manter aquecidas as criaturas; e a certeza cristã de que esse sentimento de provisoriedade que pode tornar os homens ferozes ou hospitaleiros é a que Deus mesmo quis habitar, incluindo corpo, carne e morte.

Se dizem isso, quando o dizem, não é um fato igrejeiro. É um bem para todos: porque, na sociedade complexa, só quem sabe hospedar o pensamento do outro na sua alteridade faz uma obra de paz.

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