A Igreja e o cuidado de viver. Artigo de Sarantis Thanopulos

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04 Setembro 2017

“A diferença entre a religião católica e a psicanálise está na centralidade que esta última atribui à dimensão erótica da existência. Isso não envolve simplesmente a sexualidade propriamente dita, com toda a sua importância fundamental, mas também, mais em geral, o modo profundo, enraizado nos sentidos, de provar e de dar sentido à própria vida.”

A opinião é do psiquiatra e psicanalista greco-italiano Sarantis Thanopulos, em artigo publicado por Il Manifesto, 03-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "a perspectiva psicanalítica e a católica não estão, de fato, em uma contradição incurável, se a espiritualidade aceitar a diferença entre a vida terrena e o princípio da eternidade, se não pretender que o segundo desencarne a primeira, que a esvazie de sentido e de satisfação".

"O Papa Francisco parece mais próximo do que os seus predecessores a Sófocles, um homem profundamente religioso - conclui o psicanalista. Em Antígonas, depois de ter dito que o eros está em batalha invencível, o grande trágico afirmou que o Desejo se senta entre as Leis (políticas e religiosas) poderosas".

Eis o texto.

O Papa Francisco, aos 42 anos de idade, foi ajudado, por um curto período de tempo, por uma psicanalista judia. A revelação está contida em um livro de próxima publicação na França (Politique et Société, Ed. L’Observatoire): a transcrição de 12 diálogos com o sociólogo Dominique Wolton.

O fato não é surpreendente em si mesmo. Em primeiro lugar, é preciso considerar que o Papa Francisco é jesuíta. Para os jesuítas, a psicanálise é um instrumento válido para o cuidado psíquico, e o recurso pessoal a ela pode ser financiado pela sua ordem. Muitos analistas são crentes, assim como a maior parte dos seus analisandos.

Entre a psicanálise e a fé não existe nenhuma incompatibilidade: os conflitos psíquicos distribuem-se igualmente entre crentes e não crentes.

No entanto, a confissão pública do papa tem uma peculiaridade inegável. Provindo da mais alta autoridade da Igreja Católica, ela vai muito além do que um fiel ou um sacerdote faz na sua vida privada.

Ela afirma um princípio de laicidade que não consiste apenas em dar a César o que é de César (um reconhecimento do ordenamento político terreno que legitimou a transformação da Igreja em uma organização de poder secular). Ela também reconhece a autonomia das dúvidas, da dor, das incertezas que fazem parte da nossa existência (e cuja elaboração determina a sua qualidade, a partir da fé nos valores eternos de uma vida além da morte).

A fé não pode garantir sozinha uma vida decente. A Terra pode olhar para o céu para encontrar nele uma visão superior das coisas deste mundo, mas essa visão não decide o modo de viver e de gerir os próprios desejos e sentimentos.

A diferença entre a religião católica e a psicanálise está na centralidade que esta última atribui à dimensão erótica da existência. Isso não envolve simplesmente a sexualidade propriamente dita, com toda a sua importância fundamental, mas também, mais em geral, o modo profundo, enraizado nos sentidos, de provar e de dar sentido à própria vida.

A espiritualidade religiosa, que lida com a caducidade, na perspectiva psicanalítica é substituída pela sublimação: a experiência cultural, incluindo a religiosidade, que expande o prazer dos sentidos e a profundidade/intensidade das vivências para além dos confins da pura contiguidade sensorial.

Essa expansão amplia os laços e a riqueza das trocas entre nós para além dos limites temporais e transforma a experiência concreta, limitada do indivíduo em uma parte da infinita variedade potencial da aventura humana.

A perspectiva psicanalítica e a católica não estão, de fato, em uma contradição incurável, se a espiritualidade aceitar a diferença entre a vida terrena e o princípio da eternidade, se não pretender que o segundo desencarne a primeira, que a esvazie de sentido e de satisfação. Se reconhecer que uma pessoa privada no plano do desejo e das suas múltiplas formas sublimadas e achatada em uma posição de prorrogação consoladora do prazer de viver, abstraída de toda forma de emoção verdadeira, é reduzida à matéria do próprio esqueleto. Nenhuma força a fará ressurgir. A morte se apoderou dela para sempre. Os crentes que têm respeito por si mesmos e pelos outros não aspiram à ressurreição dos mortos vivos.

O Papa Francisco parece mais próximo do que os seus predecessores a Sófocles, um homem profundamente religioso. Em Antígonas, depois de ter dito que o eros está em batalha invencível, o grande trágico afirmou que o Desejo se senta entre as Leis (políticas e religiosas) poderosas.

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