O estrago das tropas brasileiras no Haiti

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Por: Lara Ely | 02 Setembro 2017

Um país devastado pelo terremoto, pela indiferença e, agora, pela cólera. Se não fosse pouco, o minúsculo país caribenho remói ainda os efeitos da violência militar. Passados sete anos do abalo sísmico que deixou 230 mil mortos, 300 mil feridos e 1,5 milhão desabrigados, o reflexo da tragédia é um país em condições precárias de vida e um grave surto de cólera.

Ao cumprir o acordo estabelecido com a Organização das Nações Unidas – ONU, esta semana o Brasil começou a retirar suas tropas enviadas para ajudar na reconstrução do país, deixando um cenário de violência e miséria. Dos 950 capacetes azuis, como são chamados os soldados que lá atuaram, a maioria voltou para casa. Os demais retornam até 15 de outubro.

Neste período, a permanência do exército brasileiro foi marcada por períodos de crises, novas catástrofes (como a passagem do furacão Matthew em outubro de 2016) e algumas tensões sociais, o que suscita visões polêmicas sobre a contribuição da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti – Minustah.

A ida das tropas brasileiras para o Haiti, que chegou a ser apontada como ação de marketing do Itamaraty, teve um saldo negativo em seu desfecho. Em toda a imprensa internacional, repercutiram os casos de estupro, de roubos, de assassinato e de detenções ilegais por parte das forças armadas, denunciado pela ong haitiana Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH)

Em entrevista concedida para a Agência Carta Maior, o pesquisador haitiano Franck Seguy ressalta os interesses do Brasil na missão militar, destacando a busca por uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU e o aprofundamento de laços comerciais. Em sua visão, “o Brasil desempenhou um papel subimperialista e colabora com os Estados Unidos – que passaram a terceirizar a invasão por interesses comerciais próprios”, afirmou. 

Membro do partido Encontro dos Socialistas para uma Iniciativa Nacional Nova, Guerchang Bastia também considerou a força-tarefa uma ocupação marcada pelo signo da violência. A entrevista foi dada ao jornal brasileiro Brasil de Fato."Estupraram as mulheres, os homens. Cometeram muita violência contra as pessoas no país e também trouxeram a epidemia de cólera. Foi um desastre muito grave feito pela ONU", relata Bastia.

Uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo chama a atenção para a omissão dos dados divulgados pela assessoria de imprensa da operação sobre armamento. Mediante solicitação de informação e resposta obtida, o veículo obteve apenas os dados referentes ao ano de 2016. De acordo com a reportagem, foram usados 69 cartuchos de calibre 12 para treinamento, além de sete sprays de pimenta e duas granadas de som e luz. Sobre os anos anteriores, o ministério não passou as informações e alegou que, "devido ao longo período de atuação, se faz necessário um levantamento minucioso de todo o material utilizado". Apenas em 6 de julho de 2005, no entanto, os capacetes-azuis brasileiros utilizaram mais de 16.700 cartuchos em uma megaoperação contra o líder de gangue Emmanuel "Dread" Wilme, na favela Cité Soleil, segundo reportagem do Washington Post da época, citando a ONU como fonte das informações.

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