O santuário da Nossa Senhora "gay friendly"

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17 Agosto 2017

Mil e quatrocentos metros de subida e dois mil anos de descida. É o caminho que percorrem os peregrinos para chegar ao impérvio topo do Monte Partênio. A grande cadeia montanhosa que domina Avellino. Passo a passo, seguem as pegadas de Virgílio que, por volta ao ano 40 a.C. teria vindo até aqui para consultar Cibele. A Grande Mãe dos deuses, evocada com feitiços e ervas mágicas, revelou ao poeta que, em pouco tempo, uma virgem daria milagrosamente à luz a um deus menino que salvaria o mundo. Sobre tal profecia, o autor da Eneida teria deixado uma pista, entre o metafórico e o esotérico, na quarta Écloga. Considerada desde sempre o portal entre o mundo pagão e cristão. A Virgem em questão, de fato, seria Maria e o menino, Jesus. Uma verdadeira transferência de informações. Da mãe dos deuses à Mãe de Deus.

A reportagem é de Marino Niola, publicada por Repubblica, 15-08-2017 .

Hoje, o local do antigo templo, tem um santuário dedicado a Nossa Senhora de Montevergine. Ícone preto que os devotos chamam de Mamma Schiavona (Mãe Escrava) por causa de seus traços orientais. Durante séculos legiões de devotos vêm até o topo da montanha para pedir graças e justiça à Senhora do Partênio.

E, durante uma longa escalada noturna, repetem, sem o saber, o antigo ritual da ascensão ao templo da Magna Mater. Antigamente os fiéis dormiam dentro da igreja, repetindo a prática pagã do incubatio, que consistia em passar a noite dentro do espaço sagrado para que a divindade pudesse se manifestar no sono sussurrando aos devotos seus enigmáticos oráculos. Hoje, esse hábito foi proibido pelas autoridades eclesiásticas, mas os peregrinos não renunciam à vigília e se reúnem no adro do santuário para cantar as tradicionais Fronne (cânticos, dnt), ao ritmo frenético de pandeiros e chocalhos, que acompanham as danças até o amanhecer. Uma cena que parece evocar ecos distantes das ladainhas em honra da deusa, salmodiadas, entre címbalos tilintantes, flautas levantinas e rios de incenso por seus míticos sacerdotes.

Eram os "veneráveis Coribantes", como os chamava Eurípides no Hipólito, ou Galos (sacerdotes eunucos da deusa Cibele, ndt) segundo outros autores. De acordo com o mito foram eles que inventaram o tambor. O mais desenfreado dos instrumentos. Aquele que traduz em música o biorritmo do corpo. Além disso, também inventaram a musicoterapia. Suas danças orgiásticas tinham o poder de curar males como a epilepsia, que não por acaso Hipócrates chama de doença sagrada.

Os Galos doavam-se em corpo e alma à Cibele. Ao ponto de se castrarem para sacrificar a própria identidade masculina e começar uma nova vida que, nas palavras de hoje, chamaríamos de transexual. A cruenta cerimônia era chamada dies sanguinis, o dia do sangue, e acontecia nos últimos dez dias do mês de março, sob a liderança do chamado Arquigalo, sumo celebrante dessa devoção extrema. Em Roma, onde o culto foi introduzido em 204 a.C., esses eunucos vestiam-se como mulheres com seda amarela, laranja, rosa e outras cores brilhantes. Usavam plumas e timbres como os castrados da ópera barroca. Eles pintavam os olhos, enfeitavam-se com joias vistosas e atravessavam em procissão a cidade causando uma mistura de curiosidade e escândalo, inclusive por seu erotismo ostensivo e a ousadia de suas insinuações sexuais.

Em suma, essas caóticas procissões com seus cantos, danças e batidas de tambor foram de alguma forma o Orgulho Gay da antiguidade. Na época, mais do que agora, despertavam a indignação dos conformistas. Tanto é assim, que aos cidadãos romanos era proibido abraçar esse sacerdócio. E aos sagrados trans era proibida a possibilidade de herdar bens. De acordo com a lei, eles não tinham identidade. Excluídos tanto do masculino como do feminino. Estavam em um between que constituía um perigo para as instituições.

O monte Partênio é ainda o destino favorito de uma humanidade en travesti. Com uma passagem do testemunho milenar entre o povo de Cibele e a galáxia LGBTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Queer e Intersexo), que escolheu como patrona a Mamma Schiavona "que tudo concede e tudo perdoa", e corre para venerá-la no dia 2 de fevereiro, dia da Candelária.

É chamada de “Juta dei femminielli” (procissão dos trans). E se a relação entre a deusa e seus sacerdotes transgressivos é um capítulo da história pagã, aquele entre a Nossa Senhora e os homossexuais, pertence à história do cristianismo popular. Quem explica isso com todas as letras é uma lenda segundo a qual, em 1256, a Virgem salvou dois jovens que, pelo escândalo causado por seu relacionamento, tinham sido amarrados a uma árvore e abandonados na montanha para morrer de fome. A Advogada celeste enviou um raio de sol que derreteu a neve e as correntes. O milagre foi visto como um sinal de tolerância sobrenatural. O milagre progressista de uma Nossa Senhora gay friendly. E, como na antiguidade, em nossos dias a Montevergine o exagero é de praxe.

Figurinos, músicas, percussão, ruídos orgiásticos de castanholas e tamborins acompanham a entrada para o santuário. Então, no seu interior, cai o silêncio e eleva-se às alturas um cântico, que rememora um eco mediterrâneo longínquo. "Não há homem que não seja mulher e não há mulher que não seja homem", a frase é repetida como um mantra. Enquanto isso, no lado de fora, o ritual libera todo seu fundo pré-cristão e os rodopios sensuais da ‘tammurriata’ (batidas de tambor) lembram de forma impressionante o volteio sinuoso da dançarina da Villa dos Mistérios de Pompeia que agita o seu véu.

Pier Paolo Pasolini, em 1960, fez uma peregrinação no Partênio para gravar de viva voz dessas musas perturbadoras os cânticos que iriam compor a trilha sonora de seu Decameron, como fragmentos desconcertantes de uma história nossa, e não mais nossa.

E, antes dele, Zavattini e De Sica em 1953, quando escreveram o roteiro de O Ouro de Nápoles, se misturaram com a multidão de devotos para capturar os batimentos originários do antigo coração do Sul.

"Há séculos as pessoas diferentes têm se reconhecido nessa Nossa Senhora diferente", explica Vladimir Luxuria, a primeira deputada transgênero, ativista do movimento LGBT e assídua participante da Juta. "Ela é uma mãe que só olha para o nosso coração e não se importa com o invólucro que o contém". Assim, a reivindicação dos novos direitos aproxima dois pontos distantes da história. Um passado milenar e um futuro necessário.

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