Dunquerque. Onde está o filme de sucesso de bilheteria para o “Dunkirk ao contrário” no Iraque e na Síria?

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31 Julho 2017

No momento, um sucesso de bilheteria hollywoodiano recorda o heroísmo do Dunkirk, quando tropas aliadas encurraladas foram resgatadas durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, estamos vendo um “Dunkirk ao contrário” acontecer diante dos nossos olhos no Iraque e na Síria, e os católicos americanos estão desempenhando um papel fundamental nele – não só em salvar os cristãos perseguidos, mas em levar a esperança de um futuro melhor.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 30-07-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Neste exato instante, inúmeras salas de cinema nos EUA (Nota de IHU On-Line: e no Brasil) exibem o grande sucesso de bilheteria “Dunkirk”, escrito e dirigido por Christopher Nolan, sobre a famosa evacuação das tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial que a maioria dos ingleses considera um dos principais momentos do país no conflito.

Esta evacuação, onde centenas de pessoas comuns juntaram-se a uma flotilha improvisada para levar as tropas para casa, ocasionou o também famoso discurso em 1940 de Winston Churchill: “Devemos combater nas praias, devemos combater no solo, devemos combater nos campos e nas ruas, devemos combater nas colinas; jamais devemos nos render”.

Obviamente, o Dunkirk daquela época foi um momento de alta dramaticidade mundial, um evento divisor de águas, e merece ser registrado no cinema. No entanto, há um Dunkirk igualmente dramático acontecendo neste momento diante dos nossos olhos. Aqui, no entanto, vemos acontecer um momento de grande heroísmo católico.

A diferença é temos um Dunkirk ao contrário: a ideia não é retirar as pessoas de onde elas estão, mas ajudá-las a permanecer aí.
Desde a ascensão do ISIS no Iraque e na Síria, toda a minoria religiosa na região vem sofrendo perseguição, com os cristãos sendo o alvo principal. Vários grupos internacionais, incluído o governo americano, já reconheceu estes cristãos como vítimas de genocídio.

A devastação local foi enorme. No Iraque em 2003, havia aproximadamente 1.5 milhão de cristãos, enquanto hoje estima-se o número de 300 mil. Da mesma forma, acredita-se que a comunidade cristã síria foi reduzida à metade.

Imagem de Maria e Jesus danificada pelo ISIS na Planície
de Nínive. (Cortesia do Projeto de Reconstrução da
Planície de Nínive)

Dada a violência dirigida aos cristãos e o caos social e político instalado, provavelmente a pergunta a ser feita não é por que tantas pessoas foram abandonadas, e sim por que aqueles poucos e bravos cidadãos permaneceram aí. Aqui entra a história do “Dunkirk católico ao contrário”.

Em poucas palavras, a resposta é porque, nos últimos cinco anos mais ou menos, organizações cristãs ao redor do mundo se mexeram e garantiram que estes cristãos tivessem alimentos, abrigo e acesso a cuidados médicos. Mais do que isso, permitiram com que as pessoas tivessem a perspectiva de um futuro melhor por vir, assim dando-lhes motivos para permanecer em um ambiente adverso.

Poderíamos imaginar que uma tal responsabilidade de ajuda humanitária recairia a todo mundo, especialmente às grandes potências ocidentais e a organismos internacionais ligados aos governos, como a ONU. De fato, as Nações Unidas e os governos investiram importantes recursos no Iraque e na Síria, mas a esmagadora maioria nunca chegou às vítimas cristãs do conflito, e isso acontece ocorrendo ainda hoje.

E o motivo é este: a maior parte da ajuda humanitária no Iraque e na Síria é destinada aos principais campos de refugiados, sejam eles em lugares como Erbil, ou locais na Jordânia e no Líbano. Entretanto, os cristãos em geral não vão a estes campos, temendo a infiltração de jihadistas e, consequentemente, a possibilidade de sofrer violência e perseguição.

Um resultado disso é que os cristãos buscam refugiarem-se dentro de instituições eclesiásticas – igreja, escolas, clínicas, hospitais, centros de serviços sociais, até mesmo em lares e propriedades particulares de outros cristãos. Isso significa que, desde o começo, estes cristãos, que chegam a centenas de milhares, ficaram abandonados pela maior parte da ajuda internacional.

Foto de fevereiro de 2017 que mostra a destruição de Batnaya, pequeno município na Planície de Nínive, próximo a Mossul. Cerca de 850 famílias cristãs viviam aí quando o local foi tomado pelo ISIS em agosto de 2014, e só libertadas no final de outubro de 2016. O município esteve sob o domínio do ISIS e, portanto, sujeito a ataques aéreos liderados pelas forças de coalizão. (Foto de Ajuda à Igreja que Sofre – ACN)

Então, quem dava a essas pessoas alimento, água, roupas e medicamentos? Quem, final, os manteve vivos?

De início, dizemos que foram as igrejas no Iraque e na Síria, as quais têm feito um trabalho absolutamente fantástico em suprir as necessidades deste povo nas circunstâncias mais difíceis que podemos imaginar. Os bispos, o clero, religiosos e religiosas destes dois países estão entre os heróis morais não reconhecidos dos nossos dias. Todavia, estas pessoas estão longe de ter, elas próprias, grandes quantidades de fundos para todo o trabalho realizado. Quem, pois, está tornando possível este heroísmo?

A resposta é: “Nós estamos”, nós católicos americanos. Certamente, católicos, outros cristãos e pessoas de boa vontade, do mundo inteiro, estão também envolvidos nesta causa, mas temos de observar que há uma mobilização notável de parte de organizações católicas americanas.

Vejamos os seguintes dados, que não representam a realidade total, mas que são representativos:

• Desde 2011, a Ajuda à Igreja que Sofre – ACN, organização pontifícia que trabalha com cristãos perseguidos, já gastou U$ 35.5 milhões ajudando refugiados cristãos na Síria e no Iraque, especialmente os que buscaram abrigo em Erbil e noutros lugares do Curdistão. O ramo americano da ACN, como a entidade é conhecida, vem sendo um importante doador neste sentido.

• Os Cavaleiros de Colombo já gastaram mais de U$ 12 milhões com os cristãos no Iraque e na Síria. (Os Cavaleiros estão entre os principais patrocinadores do sítio Crux.)

• Desde 2014, a Associação para o Bem-estar do Oriente Próximo Católico, outra organização pontifícia sediada em Nova York, já gastou U$ 7.3 milhões diretamente no Iraque e na Síria e outros U$ 9.8 milhões com refugiados cristãos na Jordânia e no Líbano.

• O Catholic Relief Services, departamento para auxílio internacional dos bispos dos EUA, não distingue em termos de identidade religiosa os recipiendários de seu programa. No entanto, desde 2012, a entidade contribuiu com U$ 250 milhões no Iraque e na Síria, beneficiando 1.5 milhão de sírios e 300 mil iraquianos.

No todo, temos uma quantidade enorme de dinheiro católico americano sendo usado para ajudar alguns dos cristãos em dificuldades ao redor do mundo atualmente.

No Dunkirk original, cerca de 330.000 tropas aliadas foram resgatadas. Embora números exatos sejam impossíveis de se ter, é quase certo que, no mínimo, estes tantos cristãos que vêm sendo auxiliados, podendo permanecer com suas famílias e que puderam ter a esperança de dias melhores, formam um “Dunkirk em sentido contrário”.

O medo com relação ao futuro, entretanto, não desapareceu. Nesta semana, eu falei com o Pe. Andrzej Halemba, da Ajuda à Igreja que Sofre, organização que desenvolve o Projeto de Reconstrução da Planície de Nínive, que busca reconstruir casas e outras instalações destruídas pelo ISIS a fim de que as pessoas possam voltar para os seus lares.

“Os cristãos me perguntam: Padre, o nosso futuro vai ser como a Turquia?”, disse ele durante a conversa. A referência é ao fato de que, em 1915, os cristãos eram quase um quarto da população turca, mas hoje são em torno de 0,2%, resultado principalmente do Genocídio Armênio.

Para evitar que isto aconteça, o Projeto de Reconstrução da Planície de Nínive busca angariar U$ 250 milhões para refazer cerca de 13 mil casas que foram queimadas, destruídas ou que ficaram parcialmente danificadas. A Ajuda à Igreja que Sofre já reconstruiu 100 delas e, nesse ínterim, está cuidando de aproximadamente 12.000 outras famílias, ou cerca de 95 mil pessoas, a espera de voltarem para casa.

A ideia é também reconstruir as 363 igrejas e outros prédios próximos a elas que foram queimados, danificados ou destruídos, além de terem sido completamente saqueados pelo ISIS.

Uma pesquisa conduzida em fevereiro pela Ajuda à Igreja que Sofre descobriu que 41% das famílias cristãs deslocadas, hoje, querem retornar, e outros 46% estão pensando em assim proceder. Estes dados são um reflexo das derrotas militares do ISIS, mas também mostram o comprometimento da Ajuda à Igreja que Sofre e de outros grupos em dar um motivo para que estas pessoas saibam que não estão sozinhas.

Halemba expressou a fé em que o governo dos EUA contribua para o projeto de reconstrução, uma vez que os recursos católicos privados são finitos.

“Os Estados Unidos são, definitivamente, conhecidos pela generosidade e compaixão com as pessoas que acabam deslocadas internamente nos países e com as vítimas de genocídio”, disse, acrescentando que tem “muita fé” em que “as organizações governamentais dos Estados Unidos, da Alemanha e outros, estendam a mão aos cidadãos da Planície de Nínive, que inclui muitos cristãos, yazidis e outros necessitados”.

Halemba também destacou que os cristãos do Iraque não são “pedintes”.

“Não precisamos que empresas estrangeiras venham aqui construir casas”, disse. “O povo é trabalhador e qualificado. Temos carpinteiros, engenheiros. pedreiros e outros, prontos para trabalhar”.

“O trabalho tem a ver com restaurar a dignidade e levar esperança aos cidadãos da Planície de Nínive, e ao mesmo tempo dar-lhes salários”, disse.

Halemba propôs um chamado ao Projeto de Reconstrução da Planície de Nínive para salvar o berço do cristianismo. Mais informações podem ser acessadas aqui. 

Já que estamos expressando a esperança por um futuro melhor, temos também um outro sonho a referir: que um dia a coragem e o compromisso destes católicos que se doaram tanto – dinheiro, sangue, suor, lágrimas, e até mesmo suas vidas – para salvar os cristãos mais perseguidos do mundo, e para ajudar a garantir que o cristianismo não venha a sumir de uma de suas fortalezas mais antigas, sejam também representados em um filme hollywoodiano de sucesso.

Com certeza, estamos diante de um grande drama humanitário. É também uma situação que pede um esforço enorme para que chegue ao término de uma vez, de forma que a última cena não deixe ninguém na praia.

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