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31 Julho 2017

Na edição nº. 11 da revista Rocca (1º de junho de 2017, p. 12) foi publicada uma mensagem da Pro Civitate para “associações, grupos, movimentos e pessoas, crentes e não-crentes” intitulado: Vamos dar um futuro para a virada profética de Francisco. Estava assim sendo lançado "o 75º Curso de estudos cristãos", com o convite para "elaborar reflexões e propostas (...) a partir das próprias competências, experiência e sensibilidades sobre o tema", para oferecer subsídio a "alguns amigos que nos ajudarão na reflexão dos próximos dias 24 a 28 de agosto". "Naquele período também serão discutidas e analisadas sugestões na forma de orientações ou de propostas articuladas que nos ajudem a transformar em escolhas concretas, em prática, em itinerários de formação (...), a riqueza e a profundidade do Ensinamento de Francisco". A lista de temas sugeridos incluía cinco assuntos, o primeiro dos quais é estritamente teológico: que imagem de Deus emerge do Pontificado de Francisco.

O comentário é de Carlo Molari, teólogo, publicado em Rocca, 01-07-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mais do que apenas uma oportunidade, penso que seja para mim um dever responder a essa solicitação. Já por duas vezes, recentemente, tratei do tema (cf. Rocca 2017 nº. 7 e 8), mas agora é preciso dar um passo adiante: dar um futuro à virada profética e, então, sugerir algumas propostas.

A fórmula utilizada no convite refere-se a possíveis desenvolvimentos a partir das atuais informações. Portanto, não se trata de resumir o pensamento do Papa Francisco no estado presente, fato que é indubitavelmente necessário e louvável, como fizeram os três teólogos, autores do livro já brevemente examinado (A. Cozzi - R. Repole - G. Piana, Papa Francesco: quale teologia? Cittadella Ed 2016; cf . Rocca nº. 6, p. 50 e nº. 8, p. 51), mas de fazer uma tentativa para dar um passo a mais. É inegável que o estilo do papa Francisco solicitou e evidenciou um movimento de energias eclesiais antes subterrâneas. O programa proposto gostaria de conferir visibilidade às dinâmicas eclesiais para uma comparação orgânica e formulação de propostas concretas.

Acredito que o projeto pressuponha a escolha cultural do modelo evolutivo com a consequente convicção de que o desenvolvimento do tempo permita à energia criativa realizar a sua ação com novas modalidades, possibilitadas pela complexidade alcançada pelas criaturas, não só ao nível pessoal, mas também ao nível comunitário e social. Ao aumento da complexidade tem que responder uma nova qualidade espiritual, porque a ação divina quando é acolhida sempre é eficaz e causa um crescimento da criatura. Esta realmente realiza o seu devir, quase renasce em virtude da graça recebida. Mas, na perspectiva evolutiva, a imperfeição e o mal são parte essencial do processo. Não podemos imaginar que seja possível criar algo de forma perfeita sem o devir das criaturas.

Não é uma escolha divina, mas uma exigência absoluta. As criaturas não existem se não tiverem seu devir, nem podem se tornar sem acumular energia, nem podem internalizar a perfeição em um único instante. O tempo é um fator essencial do processo de criação.

Quanto à mensagem teológica do papa Francisco, não há dúvidas: Deus é misericórdia: "Deus nunca se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua misericórdia" (Evangelii Gaudium n. 3). Dois títulos são suficientes para justificar a sua convicção: Il Nome di Dio è Misericordia (O Nome de Deus é Misericórdia, em tradução livre; Piemme, M. Casale, 2016), e Nel cuore di ogni Padre. Alle radici della mia spiritualità (No coração de cada Padre. Na raiz da minha espiritualidade, em tradução livre, de A.Spadaro, Rizzoli, Milão 2016). Isso também significa que Deus não coloca qualquer condição para amar, mas oferece gratuitamente vida, perdão, salvação.

Há dois pontos não esclarecidos. O primeiro diz respeito à razão para a morte de Jesus. Papa Francisco disse: "A sua paixão não é um acidente; a sua morte, aquela morte, estava 'escrita'. Realmente não encontramos muitas explicações. É um mistério desconcertante, o mistério da grande humildade de Deus" (Catequese, 16 de abril de 2014). Não fala de satisfação nem de expiação, porém parece claro que Deus quis a morte de Jesus. Não é indicada nenhuma razão porque "é um mistério desconcertante". O segundo ponto ambíguo é na assunção do modelo evolutivo. Na Encíclica Laudato si’ Papa Francisco cita o Catecismo da Igreja (Libreria Vaticana, 1992, nota 310), que afirma que "Deus quis criar um mundo em estado de caminho até a perfeição última, e (...) isso implica a presença de imperfeição e do mal físico "(n. 80 nota 14).

O mal no Catecismo

O termo ‘mal’ ocorre 133 vezes no Catecismo da Igreja Católica, em um quadro fixista e tradicional. Embora em algumas páginas do Catecismo assuma o modelo evolutivo, em outras partes permanece ancorado ao modelo estático: as criaturas humanas foram criadas em estado de perfeição, o drama do pecado introduz o mal no mundo e a Encarnação é a sua necessária redenção.

Várias vezes no Catecismo é levantada a questão do mal: "Se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, qual a razão do mal? De onde vem ele? Quem é por ele responsável? Será que existe uma libertação do mesmo?" (nº. 284). "Se Deus Pai todo-poderoso, Criador do mundo ordenado e bom, tem cuidado com todas as suas criaturas, por que é que o mal existe? (N. 309). "Por que é que Deus não criou um mundo tão perfeito que nenhum mal pudesse existir nele?" (N. 310). A resposta é prudente, mas permanece ambígua: “A esta questão, tão premente como inevitável, tão dolorosa como misteriosa, não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória. É o conjunto da fé cristã que constitui a resposta a esta questão: a bondade da criação, o drama do pecado, o amor paciente de Deus que vem ao encontro do homem pelas suas alianças, pela Encarnação redentora de seu Filho, pelo dom do Espírito, pela agregação à Igreja, pela força dos sacramentos, pelo chamamento à vida bem-aventurada, à qual as criaturas livres são de antemão convidadas a consentir, mas à qual podem, também de antemão, negar-se, por um mistério terrível. Não há nenhum pormenor da mensagem cristã que não seja, em parte, resposta ao problema do mal”.

Quando depois aborda a criação do homem, o Catecismo parece esquecer o fato da evolução e argumenta que para o ato criativo de Deus "Adão e Eva foram constituídos em um estado de santidade e de justiça originais" (n. 375) para que "enquanto permanecesse na intimidade divina, o homem não devia nem morrer, nem sofrer" (n. 376). De fato, portanto, o Catecismo atribui o sofrimento e a morte do homem não à sua estrutura inacabada, mas a uma sua culpa original e, portanto, a um castigo de Deus: "Toda esta harmonia da justiça original, prevista para o homem pelo plano de Deus, será perdida pelo pecado dos nossos primeiros pais". (n. 379). Precisa então:

“A narrativa da queda (Gn 3) utiliza uma linguagem feita de imagens, mas afirma um evento primordial, um fato que teve lugar no princípio da história do homem (cf. Gaudium et Spes,13). A Revelação dá-nos uma certeza de fé de que toda a história humana está marcada pela falta original, livremente cometida pelos nossos primeiros pais” (n. 390).

Em última análise, o Catecismo, com referências a Tomás de Aquino, atribui a imperfeição das criaturas a uma escolha misteriosa de Deus: "No seu poder infinito, Deus podia sempre ter criado um mundo melhor [Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, 25, 6]. No entanto, na sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo «em estado de caminho» para a perfeição última. Este devir implica, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de certos seres, o desaparecimento de outros; o mais perfeito, com o menos perfeito; as construções da natureza, com as suas destruições. Com o bem físico também existe, pois, o mal físico, enquanto a criação não tiver atingido a perfeição [Cf. Suma contra gentiles, 3, 71]” (n. 310).

Esta última resposta do Catecismo é retomada também pelo Papa Francisco da encíclica Laudato si’:''De certa maneira, [Deus] quis limitar-Se a Si mesmo, criando um mundo necessitado de desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, perigos ou fontes de sofrimento, na realidade fazem parte das dores de parto que nos estimulam a colaborar com o Criador" (n. 80). Dessa forma, a imperfeição da criação é atribuída a uma misteriosa livre escolha de Deus, que poderia ser diferente.

A ambiguidade que permanece no Catecismo também pesa na exposição do Papa Francisco. Até que o problema do mal não for esclarecido de forma coerente permanecerão ambíguas também todas as fórmulas relativas à misericórdia divina, ligada a um decreto livre de Deus. Nós não temos condições de nos colocar no papel de Deus e dizer o que ele poderia fazer, porém somos capazes de entender a impossibilidade das criaturas para acolher em um único instante toda a perfeição. O mal está necessariamente ligado à incompletude das criaturas que têm seu devir ao longo do tempo.

A proposta é uma nova edição do Catecismo da Igreja Católica com a assunção coerente e completa do modelo evolutivo.

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