Etty Hillesum: a rejeição total do ódio para tornar o mundo mais hospitaleiro

Revista ihu on-line

Veganismo. Por uma outra relação com a vida no e do planeta

Edição: 532

Leia mais

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

Edição: 531

Leia mais

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Mais Lidos

  • Militares de Pinochet, os torturadores chilenos convidam Bolsonaro para visitá-los na prisão

    LER MAIS
  • O mundo encantado da Previdência privada

    LER MAIS
  • O SUS, a coca-cola e a desvinculação de receitas: como retirar R$ 2 trilhões da saúde

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

28 Julho 2017

É possível querer se tornar “o coração pensante” de um campo de concentração nazista e escrever como última mensagem que “deixamos o campo cantando”? Ainda: é possível em situações no limite da sobrevivência ou, melhor, tendo como perspectiva a morte certa, anotar frases como “debaixo do céu, a vida é a mesma: em cada lugar da terra, pode-se viver uma vida repleta de significado ou morrer” e “pode-se rezar por toda a parte, em um galpão de madeira, assim como em um convento de pedra”?

A reportagem é de Roberto Righetto, publicada por Avvenire, 27-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É preciso possuir uma força interior imensa e, certamente, esse foi o caso de Etty Hillesum, judia holandesa morta em Auschwitz, depois de passar quase dois anos no campo de classificação de Westerbork, nos arredores de Assen, na Holanda, que, para mais de 100 mil compatriotas e correligionários dela, tornou-se, ao longo dos anos da Segunda Guerra Mundial, “a última parada antes de Auschwitz” (por aí também passou Edith Stein).

Foi em Westerbork que Etty, depois de ter feito parte do Conselho Judaico de Amsterdam, pediu que pudesse compartilhar até o fim o destino dos outros judeus holandeses, que, a partir de 1942, foram deportados da Holanda para a Polônia. Como documenta o seu diário, que ela tinha começado a escrever no início de 1941, por conselho do psicanalista Julius Spier. E como também vem à tona a partir das suas cartas, dos quais foram tirados os trechos acima e que foram publicadas em edição integral no ano 2000 na Holanda e em 2013 na Itália, pela editora Adelphi.

Esses trechos são o testemunho de uma dedicação total ao seu povo e à humanidade inteira, o desejo de pôr em prática um “amor cósmico”, aquele amor pelo próximo de que ela tinha entrevisto o modelo no Hino à Caridade de São Paulo: “Ausência de ódio não significa por si só ausência de um desprezo moral elementar. Eu sei que quem odeia tem motivos fundamentados para fazer isso. Mas por que deveríamos sempre escolher o caminho mais fácil e barato? Lá, eu pude tocar com as mãos como cada átomo de ódio que se adiciona ao mundo o torna ainda mais inóspito. E eu também acredito, talvez ingenuamente, mas com obstinação, que esta terra só poderia se tornar novamente um pouco mais habitável graças ao amor sobre o qual o judeu Paulo escreveu aos habitantes de Corinto”.

Reflexões derivadas da teologia judaica e cristã, assim como da literatura, emergem das suas cartas, cuja mensagem fundamental está contida em dois conceitos: o amor por toda a humanidade e a rejeição total de toda forma de ódio.

Etty se sente realmente responsável por cada pessoa forçada a passar pelo campo de Westerbork e se dedica de alma e corpo aos outros, para aliviar o máximo possível os seus sofrimentos.

Quando estava em Amsterdam, ela poderia ter se salvado ou, pelo menos, tentado se salvar, mas preferiu, por escolha própria, ir para o campo: “Desde que eu vi aquele comboio de gente capturada nas blitzes, eu não sofro mais nem de fome, nem de sono, nem de qualquer coisa, e me sinto muito bem. A atenção se concentra a tal ponto no próximo que você se esquece de si mesmo, e, na realidade, é melhor assim”.

Mas, nessa sua imolação radical, não se deve ver soberba ou ingenuidade. Etty está bem ciente da enorme tragédia que está afetando o mundo inteiro e que encontra nos judeus o bode expiatório: “Toda a Europa – afirma em uma das suas primeiras cartas – está se tornando pouco a pouco um único, grande campo de prisioneiros”.

E ela também não exalta a vida no campo, ao contrário, documenta as angústias dos prisioneiros e a violência posta em prática pelos alemães. Muitas vezes, ela fala de um “inferno absoluto” e de “catástrofe total”. Mas se considera investida de uma tarefa superior: “A cada novo crime ou horror, deveremos opor um fragmento de amor e de bondade que será preciso conquistar em nós mesmos. Podemos sofrer, mas não devemos sucumbir”.

Na base da sua posição, está, no fundo, um impulso místico, a contínua interrogação dirigida a Deus e ao seu sofrimento: para ela, até Deus precisa de ajuda. “A vida ainda é boa. Não deve ser culpa de Deus se, às vezes, tudo vai tão errado, mas a culpa é nossa. Esta é a minha convicção, embora eu vá ser enviada para a Polônia com toda a família”. E é exatamente isso que vai acontecer.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Etty Hillesum: a rejeição total do ódio para tornar o mundo mais hospitaleiro - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV