Óleo, água e terras virgens: o tesouro "maldito" do Sudão do Sul

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18 Julho 2017

A visita do Papa foi adiada, o risco é muito alto em meio a uma crise cada vez mais acirrada. O Sudão do Sul está passando por uma época complicada e terrível: uma guerra civil devastadora, milhões de prófugos, uma população extenuada. E pensar que tudo começou em 2011, com a declaração de independência, a separação do sul cristão e animista com minorias muçulmanas não radicais, do Norte árabe, precursor de um Islã agressivo que olhava para a África como uma terra de conquista, pelo menos nas intenções de seu líder, o autocrata Omar al Bashir. Em 2011, o poder passou para as mãos de Salva Kiir, presidente de etnia dinka, e do vice-presidente Riek Machar, de etnia nuer. Em 2013, porém, eclodiu um novo conflito entre os dois líderes e seus grupos étnicos, o vice-presidente Machar foi acusado de organizar um golpe de Estado.

A entrevista é de Francesco Peloso, publicada por Vatican Insider, 11-07-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

O poder está hoje nas mãos de grupos armados de dinka do presidente Kiir, que dominam pela força, mas os rebeldes nuer não ficam atrás, embora inferiores em armamento e com menor financiamento internacional (por trás da fachada de uma guerra étnica, percebe-se principalmente a ganância predatória de grupos de poder restritos). E, no fundo, a simplificação não explica tudo: hoje, no país, estão em ação no mínimo 7 ou 8 grupos armados, os interesses dos países vizinhos e das grandes potências mundiais que favorecem o tráfico de armas e a guerra, são dezenas as etnias e grande parte da população não queria o conflito. Então, pelo que está se lutando? Petróleo é claro, mas também água e terras virgens nunca cultivadas (40 anos de conflito intercalados por períodos de relativa paz preservaram esse tesouro quase intacto).

Os recursos são a maldição de África, ou pelo menos de alguns países, explica ao Vatican Insider o padre Daniele Moschetti que durante 6 anos, até dezembro passado, foi Superior dos Missionários Combonianos no Sudão: uma longa experiência na África que também inclui 11 anos no Quênia, um ano na Palestina e em poucos meses, com outros missionários, um novo trabalho junto às Nações Unidas tentando dar um pouco mais de visibilidade para o sul do mundo. Segundo a Anistia Internacional, "no Sudão do Sul está em curso uma das piores crises humanitárias dos últimos tempos: é quase um milhão de pessoas afugentadas na região de Equatória, enquanto continuam impunes assassinatos de civis e violências contra mulheres e meninas".

De acordo com o Alto Comissariado para os Refugiados da ONU, "o número total de pessoas que fugiram do Sudão do Sul para as áreas vizinhas é agora de 1,6 milhões. A nova taxa de pessoas em fuga é alarmante e representa um fardo impossível de se sustentado por uma região que é consideravelmente mais pobre e cujos recursos estão rapidamente se esgotando. Ninguém entre os países vizinhos fica imune a isso. Os refugiados fogem para o Sudão, Etiópia, Quênia, República Democrática do Congo e República Centro-Africana. Quase metade das pessoas em fuga chegou à Uganda, no norte do país a situação agora é crítica". Existem milhões de desterrados internos, enquanto grande parte da população está morrendo de fome.

Eis a entrevista.

Padre Moschetti, o quadro do país é alarmante, para dizer o mínimo...

Hoje a situação é bastante catastrófica. Estamos há exatamente seis anos da independência e em Juba (a capital, nde) ainda não houve celebrações oficiais, como acontecia no passado; por outro lado, estamos diante de um desmoronamento total: há um colapso financeiro dramático, o banco central não tem mais dólares, a taxa de inflação chegou a 900%; para entender o que significa, podemos fazer uma comparação com a Itália, onde a inflação é de 1%. O valor do dinheiro local é inexistente, tudo vem do exterior, tudo o que se come, que se usa. Todo por causa da guerra, que começou em 15 de dezembro de 2013 e, foi reforçada pelos novos confrontos que ocorreram em julho do ano passado em Juba, justamente um ano atrás, quando um número ainda maior de embaixadas, ONGs e voluntários deixaram o país.

Mas hoje existe uma presença de organizações internacionais, de missionários?

Muitas organizações saíram após os confrontos do ano passado, embora as principais já tenham retornado. Mas seu trabalho é cada vez mais dificultoso, pois o governo não consegue garantir a segurança dos operadores humanitários, dos missionários. Dizem: nós não podemos garantir a segurança dos trabalhadores, dos missionários, porque depois são atacados e mortos, e isso especialmente nas áreas onde estão sendo levados alimentos e remédios; assim, aproveitam-se dessa situação para dizer que não têm a possibilidade de proteger ninguém. Traduzindo, isso significa: não estamos autorizando entregar alimento e água nessas áreas porque falta segurança. É um pretexto para asfixiar as áreas onde naturalmente existem rebeldes, mas também a população.

A guerra, no entanto, apenas foi "retomada" em 2013, o conflito tem raízes muito mais profundas...

É um conflito muito complexo. Precisa-se voltar à independência do Sudão que aconteceu em 1956; o país anteriormente era uma colônia britânica. Já naquela época havia um grupo de sudaneses do sul que atuava em favor da própria independência do norte, porém os britânicos deixaram tudo nas mãos do governo de Cartum, que deu início ao processo de islamização; consequentemente, todos os missionários, católicos e protestantes, foram expulsos em 1964. Foi justamente esse processo que mobilizou os Estados Unidos. O Sudão do Sul, o objetivo de alcançar a sua independência, sempre teve o apoio de republicanos e democratas nos Estados Unidos. Os EUA investiram nesse propósito bilhões de dólares a partir dos anos 1970 e 1980 até hoje, todas as administrações norte-americanas apoiaram o MPLS (Movimento Popular de Libertação do Sudão), ou seja, o exército rebelde que lutava contra Bashir, criminoso internacional (no poder desde 1989, com um golpe de Estado, nde), mas ninguém realmente está interessado em capturá-lo.

O fundamentalismo islâmico, portanto, desempenhou um papel nessa história...

Na época de George W. Bush, o Sudão, foi inscrito entre as nações 'párias', porque era a base de Osama Bin Laden, inclusive. Bin Laden formou os primeiros grupos militares, terroristas exatamente em Cartum. Os primeiros ataques orquestrados por Osama Bin Laden e colocados em obra pela Al Qaeda não foram aqueles contra as torres gêmeas de Nova York, mas foram realizados contra as embaixadas estadunidenses em Nairóbi (Quênia) e Dar Es Salaam (Tanzânia), em 7 de agosto de 1998 (224 vítimas e cerca de 4 mil feridos). O primeiro ataque, portanto, aconteceu na África, dentro do continente, não fora dele. A resposta foram as incursões norte-americanas em Cartum. Portanto, o Sudão sempre esteve na lista negra e sujeito a embargo. A parte sul do país, a que pertence à África negra (o norte é árabe, nde), é 50% cristã, existem 7-8% de muçulmanos não-fundamentalistas e os animistas.

A independência do Sudão do Sul teve, portanto, muitos espectadores interessados?

Sim, aliás, Museveni, presidente da Uganda que é um grande aliado dos EUA, assim como o Quênia, indubitavelmente se beneficiaram do processo de independência. Mas, de resto, todos os países que fazem fronteira com o Sudão do Sul têm fortes interesses. O país tem grandes recursos, na verdade, não só petróleo - no momento é o terceiro campo petrolífero da África - há também água e terras virgens, porque o país atravessou 40 anos de guerra (de 1956 a 2005, entre Cartum e os independistas do sul, nde), intercalados por dez anos de relativa paz. Mas nos anos 1970 estourou uma espécie de caça ao petróleo, foi a temporada de austeridade na Europa, com a circulação de carros com placas alternadas para economizar combustível. Então, quando a OPEP, os países árabes, disseram "chega, não há mais petróleo para vocês", começaram as buscas de novos campos e foram descobertos também aqueles do Sudão do Sul; a partir daquele momento começou a segunda guerra interna. Era 1983. Em geral, podemos dizer que, por um lado, estavam as grandes empresas multinacionais europeias e norte-americanas que queriam explorar os novos recursos, do outro, o governo de Cartum que não queria abrir mão do que ele considerava seu. Ao mesmo tempo, o governo retirava da riqueza do Sul os recursos para desenvolver o Norte, deixando contudo em atraso as regiões do sul, sem escolas, na pobreza total. Essa é o pano de fundo da luta pela independência do Sudão do Sul, liderada pelo MPLS, até os acordos assinados em 9 de janeiro de 2005, em Nairóbi, onde foi escolhido um negro como vice-presidente de todo o Sudão - e este foi um importante evento - John Garang (fundador do MPLS), que na época não queria a separação do Sul (ao qual foi dada, ainda assim, alguma autonomia).

Em 2011, no entanto, o Sul se separa...

Hoje celebramos uma independência que o principal líder do Sudão do Sul, Garang, nunca quis; pelo contrário, Salva Kiir e outros grupos militares apoiados pelos Estados Unidos sempre quiseram que o Sul se separasse do Norte. Em todo caso, a unidade do país era o que segurava a islamização da África. Dentro desse conflito tem, portanto, um pouco de tudo: tem o petróleo, tem a água, tem a agricultura que pode ser explorada. Depois, tem os muitos interesses dos países vizinhos que possuem menos recursos. É como o Congo, que apesar de ser o país mais rico do mundo em recursos naturais está, infelizmente, entre os mais pobres. Essas riquezas se tornam uma maldição, nunca são uma bênção para o povo, mas uma possibilidade de enriquecimento das elites. E, de fato, todos aqueles que hoje estão no poder são militares que vestiram a gravata e acumulam milhões de dólares em suas contas nos Estados Unidos, na Inglaterra ou outro lugar. Suas famílias vivem fora do país.

E vocês, missionários, ainda conseguem operar no país?

Estamos no Sudão do Sul desde os tempos de Daniele Comboni, o nosso fundador, que chegou lá em 1858; nascemos em missão, e nos consideramos parte integrante dessa história, desse povo. Nós nunca fomos embora, exceto quando fomos expulsos, mas sempre retornamos e caminhamos ao lado desses povos, passando de situações de escravidão antes, depois pelas várias guerras, o colonialismo, a islamização, e agora os novos conflitos civis e pelo petróleo. Perdemos duas missões nos últimos anos, de 2013 a 2017, porque todos estavam lá: o governo e os rebeldes. Duas missões importantes para nós, onde atuávamos para uma formação humana e espiritual, mas tudo foi destruído devido aos combates entre os governistas e os rebeldes. As pessoas fugiram. Há um milhão de desterrados somente na Uganda, mais um grande número na área mais fértil da província de Equatória, onde as etnias locais não querem de forma alguma entrar em guerra. Mas a pressão do governo e da etnia dinka que agora detêm o poder militar e econômico exacerbou a situação. No Sudão há centenas de milhares de prófugos, na Etiópia quase um milhão, no Quênia cerca de meio milhão. Nestes últimos meses em que estou na Itália, quando ouço falar sobre a grande emergência dos migrantes, me dá raiva e me faz rir ao mesmo tempo. Os países africanos estão carregando milhões de pessoas sobre a própria pele.

Quais as potências estrangeiras que têm maiores interesses no Sudão do Sul?

Norte-americanos, ingleses, franceses, chineses, russos e as grandes multinacionais têm interesses no Sudão do Sul. Foi pedido 4 ou 5 vezes a introdução do embargo às armas, mas países como a Rússia e a China são contra, e direta ou indiretamente entravam esta medida. Precisa ser considerado que o Governo do Sudão do Sul em 2014 gastou um bilhão de dólares em armamentos e hipotecou poços de petróleo que ainda nem foram abertos; estão liquidando o país para ter armas e esmagar a rebelião, não pensam minimamente no futuro de seu povo. O Papa Francisco tinha programado ir em outubro para o Sudão do Sul, juntamente com o Arcebispo da Cantuária Justin Welby, primaz anglicano, mas a visita foi adiada por razões de segurança. Seria uma viagem muito importante porque as Igrejas estão fazendo um grande trabalho e são as únicas instituições credíveis; a comunidade internacional deu crédito primeiro ao governo, depois aos rebeldes; o único baluarte são as Igrejas que, entre outras coisas, fazem um grande trabalho de divulgação, lobby e advocacy, porque as partes em conflito não querem que se saiba o que está acontecendo no país para que possam continuar com atrocidades jamais vistas, nem mesmo nos conflito com os árabes (o conflito pela independência com o Norte do Sudão também custou milhões de vidas). É preciso uma tomada de consciência mais profunda da comunidade internacional. Nem mesmo os campos de refugiados estão seguros, nem mesmo aqueles protegidos internacionalmente, ali também entraram soldados e fizeram um grande massacre de mulheres, idosos e crianças.

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