Conselho das mulheres do Vaticano espera funcionar como "choque elétrico" para a Igreja global

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27 Junho 2017

O conselho consultivo feminino do Pontifício Conselho para a Cultura tem grandes planos: através de um "choque elétrico" na Igreja, espera ativar milhares de outros conselhos em todo o mundo em busca de soluções para além da ordenação de mulheres ao sacerdócio.

A reportagem é de Claire Giangravè, publicada por Crux, 24-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Se as mulheres fossem prótons e os homens fossem elétrons, o Vaticano seria um campo elétrico muito carregado negativamente, ou seja, os homens estão dominando em geral.

O conselho consultivo feminino do Pontifício Conselho para a Cultura quer mudar isso através de um "choque elétrico" para abrir a discussão sobre os papéis das mulheres na Igreja.

"A Igreja é um mundo dominado pelos homens, mas o mundo [mais amplo] em que ela existe é masculino e feminino", disse Consuelo Corradi, vice-reitora de pesquisas e relações internacionais da Universidade LUMSA, de Roma.

"A Igreja global precisa manter um diálogo contínuo com as mulheres", disse Corradi.

É justamente isso que o Cardeal Gianfranco Ravasi, chefe do Conselho Pontifício para a Cultura do Vaticano, anteriormente formado exclusivamente por homens, tentou fazer através da criação de um conselho consultivo permanente totalmente composto por mulheres.

O Grupo Consultivo Feminino foi criado na primavera de 2014 para ajudar o conselho no tema "Culturas femininas" e o cardeal italiano ficou tão satisfeito com o resultado que decidiu tornar o grupo permanente em junho de 2015.

O conselho se reúne quatro vezes por ano em sessão plenária e sua principal função é abordar as questões que estão sendo estudadas pelo departamento e dar sugestões e recomendações.

O conselho feminino "quer, acima de tudo, ser um olhar feminino em direção a todas as atividades de nosso dicastério", disse Ravasi a jornalistas na apresentação do grupo, em 7 de março.

Corradi, coordenadora do grupo, enfatizou que, embora "o fato de que as mulheres podem ser ouvidas dentro da Igreja seja importante", o conselho quer expandir essa possibilidade, levando-a de um simples organismo de aconselhamento e observação para um real gerador de mudanças.

Dentro do Conselho Consultivo Feminino

Atualmente, 37 mulheres fazem parte do conselho consultivo, de vários países, diferentes religiões e de diversas áreas, desde teólogas até médicas, atrizes e diretoras de empresas.

Apesar da diversidade, todas as mulheres do conselho residem na Itália. Corradi considerou esse fato uma "grande limitação" e expressou o desejo de ampliar a adesão a mulheres que não morem na península.

"Esperamos chegar a muitos outros lugares", disse ela, acrescentando que a Igreja precisa de "muitos outros pequenos conselhos [femininos] em todo o mundo".

A diversidade é uma questão importante no grupo, não somente em relação à sua composição, mas também em relação aos homens. "As mulheres são semelhantes ou diferentes dos homens? Este é o tema que nos originou", disse Corradi.

A coordenadora do conselho disse que este era um dos problemas mais discutidos durante as primeiras sessões, sobre o qual muitos pontos de vista diferentes surgiram entre os membros.

"Queremos estar presentes. OK. Mas o que queremos fazer de diferente dos homens? Qual é a linguagem, diferente da masculina, que queremos elaborar? Quais são os diferentes objetivos, os diferentes estilos de trabalho? Queremos estar lá só por estar?", perguntou Corradi.

Tentar compreender as contribuições concretas que as mulheres podem trazer para o debate dentro da Igreja foi um dos primeiros desafios do conselho, que segundo Corradi foi superado ao reconhecer que "não há um único ponto de vista feminino", mas muitos, que juntos criam a perspectiva feminina.

Os próximos passos das mulheres na Igreja Católica

Em uma longa entrevista para o site católico alemão Katholisch.de, Ravasi disse que "seria possível haver diáconas mulheres ao meu ver", mas encorajou a Igreja a discutir outras funções importantes que poderiam ser assumidas pelas mulheres, como a administração estrutural das paróquias, as finanças das igrejas e o planejamento arquitetônico.

Embora reconheça que abrir o sacerdócio às mulheres seja um "assunto interessante", Corradi disse que não se sente convocada por este problema.

"Eu acredito que o mais importante é dar [às mulheres] uma posição de igual dignidade em relação aos homens", disse ela, rapidamente acrescentando que isso não implica necessariamente em abrir o sacerdócio às mulheres.

"Não é imitando os modelos masculinos que as mulheres criam seu lugar. Isso seria um erro", disse Corradi. "A Igreja deve supor o papel que as mulheres querem ouvindo-as. As mulheres querem ter um papel mais forte e mais digno."

Falando por experiência pessoal, ela acrescentou que muitas freiras e leigas que conhece não querem ser sacerdotes, mas sim fazer parte dos processos de decisão e ter uma voz mais forte.

"Reduzirmos isso à questão do sacerdócio feminino seria uma resposta muito masculina, mas não a correta", acrescentou Corradi.

Mas deixar de lado o debate sobre as mulheres no sacerdócio não significa fechar as portas para uma maior inclusão. Corradi disse que, durante a última reunião do conselho consultivo, um grupo de quatro mulheres de Valência, na Espanha, anunciaram que queriam criar um órgão similar em sua diocese.

"Nós funcionamos como um pequeno choque elétrico e mostramos que isso é possível", disse Corradi. "Não é uma questão de dinheiro ou organização. Temos um grupo relativamente informal, que pode ser feito com um pouco de boa vontade. Se pudéssemos ter alguns milhares de grupos como esse ao redor do mundo até o final de 2017, seria ótimo!"

Ela acrescentou que esses conselhos poderiam se multiplicar não apenas nos outros dicastérios do Vaticano, mas também em nível diocesano, em todo o mundo.

"Se é possível, por que não?" perguntou Corradi.

Embora ter conselhos consultivos certamente seja um bom começo, é apenas um primeiro passo para garantir uma maior presença das mulheres na Igreja. "Acredito que a mudança não vem simplesmente ao colocarmos nossas palavras em prática", disse Corradi. "A mudança real acontecerá quando o conselho pontifício contar com mulheres."

Até agora, só há homens no conselho oficial do o Pontifício Conselho para a Cultura, alguns deles leigos, e, de acordo com Corradi e Ravasi, é hora de mudar isso.

Futuras iniciativas das mulheres do Vaticano

A agenda do contingente feminino do Vaticano é um tema muito caro para o Conselho Pontifício no momento, a respeito dos efeitos do desenvolvimento científico sobre o comportamento humano. No próximo mês de novembro, as mulheres no conselho serão convidadas a escrever notas e emitir opiniões.

Outro assunto importante é a luta de muitas mulheres para conciliar carreira e família. "As mulheres têm um grande desejo de entregar-se plenamente ao seu trabalho, mas quase todas querem manter alguma esfera de afeto e vida familiar", disse Corradi. "O problema é conciliar."

Ela acrescentou que as empresárias do conselho, principalmente, estão investigando projetos e iniciativas para promover essa discussão.

No dia internacional de combate à violência contra as mulheres, que cai em 25 de novembro, o conselho está preparando um projeto para envolver os jovens nessa questão.

"Mesmo que as mulheres sejam as vítimas de violência, não podemos mudar este fenômeno sem os homens", disse Corradi.

"Os homens jovens só têm modelos negativos a respeito disso: o agressor, o assassino, o pai que bate, o marido violento", disse ela. "Queremos mostrar que o pai pode proteger, ajudar, orientar, apoiar e ser um ponto de referência".

Finalmente, a diretoria quer abordar maneiras pelas quais as mulheres podem ajudar a promover o diálogo inter-religioso à luz da diversidade de religiões entre seus membros, que incluem muçulmanas, judias e agnósticas. Corradi disse que gostaria de planejar um evento sobre o assunto até o final de 2017.

"Eu acredito firmemente na diversidade das mulheres", disse ela, acrescentando que o aumento de conselhos como esse traria o benefício da singularidade da perspectiva feminina à Igreja.

"O mundo é feito de homens e mulheres", disse Corradi. "O papel da Igreja é reconhecer isso dentro de si".

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