Chile. As dúvidas das comunidades Mapuche frente a visita do papa a La Araucanía

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26 Junho 2017

Enquanto que o governo e a direita enfatizam as medidas de segurança adequadas e uma suposta mensagem de reconciliação de Francisco, as comunidades Mapuche mostram-se pouco otimistas sobre a sua visita. O teólogo Álvaro Ramis se pergunta se a Igreja chilena terá a mesma sensibilidade que Francisco, ou se eles irão blindá-lo e afastá-lo do conflito.

A reportagem é de Victoria Viñals, publicada por DiarioUChile, 21-06-2017. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Entre os dias 15 e 18 de janeiro de 2018 o Papa Francisco visitará o Chile, no que será a sua quarta viagem à América Latina desde que assumiu o cargo máximo da Igreja Católica, em março de 2013. Segundo confirmado publicamente, as autoridades eclesiásticas locais, as cidades escolhidas pelo próprio papa para visitar eram Santiago, Iquique e Temuco.

A primeira foi escolhida por tratar-se da capital do país; a segunda pela proximidade com a festa pagã-religiosa de La Tirana e a forte presença de imigrantes; e a terceira por ser o epicentro do conflito Mapuche no país.

"É a zona de maior tensão no Chile, e o papa quis manifestar-se e estar perto de todas as pessoas que vivem em La Araucanía.

Quer conhecer mais de perto e transmitir uma palavra de luz, de apoio e de proximidade com aqueles que estão em La Araucanía", declarou o bispo auxiliar de Santiago e secretário geral da Conferência Episcopal, Fernando Ramos.

O bispo de Temuco, Héctor Vargas, afirmou que "pesou o fato de que somos, infelizmente, a região que lidera os índices de pobreza no Chile".

A visita de Francisco gerou todos os tipos de reações. Do governo, a porta-voz Paula Narváez assegurou que serão tomadas as precauções "à altura de seu cargo" e que "o Estado chileno está bastante preparado para receber esta visita e para que o papa possa viajar para todos os cantos que considere necessário ir".

Setores políticos de direita, por sua vez, comemoraram a visita e esperam que o papa faça uma convocação para que haja paz nessa região. "O papa certamente nos convidará a refletir sobre os princípios e valores universais que nos ajudam a resolver problemas pendentes", disse o senador da UDI, Hernán Larraín.

A reação Mapuche

No mundo Mapuche a futura visita do papa gerou várias reações. A primeira foi realizada através de uma declaração pública emitida pelo porta-voz do Conselho de Todas as Terras, Aucán Huilcamán, na qual ele assegurou que os Mapuche têm uma reunião ampliada organizada para quarta-feira, dia 19 de julho, em que irão preparar e enviar um relatório diretamente ao Papa Francisco.

"Temos visto que o bispo (de Temuco) Héctor Vargas se afastou da doutrina do Papa Francisco em relação ao povo Mapuche, especialmente por sua participação no Conselho Assessor Presidencial, onde se adotou um texto que tenta falsificar a história da Araucanía", diz na carta.

Além disso, a declaração recorda que o Papa João Paulo II "pediu perdão aos povos indígenas da América". Para que a visita de Francisco seja "verdadeiramente útil", afirma o comunicado, o chefe do Vaticano deve ratificar o perdão do papa polonês e "sugerir uma compensação pelos crimes contra a humanidade cometidos contra o povo Mapuche e uma indenização pela desapropriação territorial".

"Pediremos que o Papa Francisco anuncie que revogará a Doutrina da Descoberta, considerando que estes foram os meios e os instrumentos com os quais foram realizados a maior desapropriação de terras em que a Igreja Católica tem participação direta", afirma o comunicado.

Por parte das comunidades, a percepção da visita do papa à região não gera o mesmo otimismo demonstrado por Huilcamán.
O werkén (mensageiro, conselheiro) da comunidade Rankilko, Rodrigo Curipán, concorda em reconhecer que os povos indígenas foram privados da terra, assunto que muitos estados, incluindo o do Chile, não reconheceram. "Se o papa dissesse isso em La Araucanía, isso evidentemente seria importante. Agora, na parte da compensação e da indenização, não partilho da mesma posição, pois penso que esta é uma questão utópica".

No mesmo sentido, acrescentou que "se a Igreja Católica pretende resolver e recuperar um sentido de compreensão com o povo Mapuche, deve partir do pressuposto de que existe uma verdade por trás da demanda Mapuche: que a terra foi usurpada deles, um estado foi instalado, e esse estado agora quer negar os direitos que existiram para nós".

O werkén explicou que, enquanto nem todos os Mapuche professam a religião católica, reconhecem a envergadura política que a visita papal tem para a região. Neste sentido, manifestou que eles não são otimistas e que não acreditam que depois da visita do papa a situação na região irá mudar.

"Acredito que para que a mudança ocorra é preciso que haja uma mudança de mentalidade, da visão que o empresário precisa ter nesta região, das autoridades políticas que estão exercendo controle sobre o território Mapuche, caso contrário a situação de confronto e conflagração continuará acontecendo. Nós, os Mapuche, queremos estabelecer um controle territorial e reclamar nossos direitos, porque o Estado continua a nos negar", afirmou.

Na mesma linha, Curipán referiu-se ao anúncio feito recentemente na Câmara dos Deputados, que se pronunciou acerca da provação de um Conselho de Povos Indígenas. "Isso, na prática, não significa nada para nós. Não significa a devolução das terras antigas, não significa que o genocídio contra o nosso povo vá parar".

Assim, o líder insistiu que, se a "autoridade da Igreja Católica virá à região e permitirá que sejam abertos novos caminhos, seria bem visto, mas não creio que nós, como comunidade, seremos convidados a conversar com ele".

Desconfiança e exclusão

Nesta quarta-feira, em uma entrevista com o jornal El Austral de Temuco, o ex-major dos Carabineiros e especialista em segurança internacional, Jorge Aguirre, advertiu sobre as medidas de segurança que deveriam ser tomadas em Araucanía para garantir a segurança do Papa Francisco.

Consultado sobre os possíveis problemas que poderiam ser gerados, Aguirre afirmou que existem dois âmbitos: "Primeiro, aquilo que está relacionado com a segurança pessoal do papa, pois alguém poderia tentar criar algum tipo de situação contra ele; e o outro, que algum grupo de pessoas queira chamar a atenção com alguma interrupção ou demonstração".

Rodrigo Curipán disse que tais advertências visam evitar qualquer tentativa de que as pessoas se manifestem para expor o problema que existe em La Araucanía.

"Imagine que pelo lado da diplomacia política Mapuche não será aberta uma instância de comunicação com ele, a menos que ele próprio assim o julgue conveniente. Para nós isso parece interessante, mas acredito que definitivamente essas pessoas estão tão bem programadas em La Araucanía, que o mais provável seja que nos isolem e que nos reprimam quando ele esteja passando pela região".

Esta desconfiança manifestada pelas comunidades está relacionada com a atitude que a Igreja Católica assumiu na região e particularmente diante do conflito Mapuche.

"Hoje, a Igreja Católica tem até mesmo patrocinado ações judiciais contra as comunidades Mapuche. Não esqueçamos de que há quase dois anos atrás estavam abençoando os carros blindados com os quais as comunidades eram reprimidas", disse ele.

Por sua parte, o lonko (chefe) da Comunidade Autónoma Temucuicui, Victor Queipul, disse que, caso ele pudesse pedir algo para o papa durante sua visita, seria que, se ele for se referir a questão dos Mapuche, "ele poderia tirar um tempo para visitar algumas comunidades. Caso isso não seja possível, também pediria que de alguma maneira ele possa refrescar a memória do Estado chileno que tem uma dívida histórica com o povo Mapuche".

De acordo com o lonko, um sinal como este poderia dar sentido à visita do papa aos Mapuche.

"O Bispo Héctor Vargas tem uma posição totalmente equivocada sobre o tema dos Mapuche, a qual irá transmitir e que faz com que não tenhamos muitas expectativas sobre o que vai acontecer com esta visita", declarou Queipul.

"Temos o panorama bem claro. Ou seja, se essa prática de discriminação e de repressão contra os Mapuche continuar como parte da política da igreja chilena na região, acredito que seja muito difícil para que nós possamos ter alguma chance de que uma conversa com o Papa seja estabelecida. Teria sido interessante, mas não é algo que estamos avaliando, neste momento, e agora as únicas coisas que têm acontecido é nos isolarem e nos reprimirem", disse o werkén Curipán.

"Blindagem"

O teólogo e doutor em filosofia, Álvaro Ramis, fez uma separação entre o papa e a atuação da Igreja chilena diante do conflito Mapuche.

"O papa, em geral, tem sido uma orientação para os mais pobres e os mais desatendidos dos estados e também da própria Igreja. Deveria haver uma coerência da qual eu espero e acredito que acontecerá. O problema é (saber) se a Igreja chilena, se os organizadores da visita ao Chile, e particularmente a partir da instituição eclesiástica, terão essa mesma sensibilidade ou irão blindá-lo e afastá-lo dos conflitos", afirmou.

Além disso, o estudioso disse que "é muito importante que a sociedade civil se fortaleça e faça a Igreja Católica enxergar que o papa precisa ter a possibilidade de entrar em contato com quem precisar ser contatado, e ouvir aqueles que ele tenha de ouvir, e não blindá-lo e distanciá-lo da realidade".

Em sua última encíclica, intitulada Laudato Si', de 2015, Francisco fez uma alusão à "terra em comum que habitamos", ao mesmo tempo que chamou a humanidade para se preocupar com o uso de recursos naturais e para deixar de lado o "deus do dinheiro".

O religioso também desafia aqueles que, em face da degradação ambiental, culpam o crescimento populacional e não o consumismo seletivo e extremo, dos males ambientais planeta. Nesses escritos, ele reconhece uma "dívida ecológica" entre os países do norte e do sul, "relacionada com os desequilíbrios comerciais, com consequências no âmbito ecológico, assim como o uso desproporcional de recursos naturais realizados historicamente por alguns países".

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