Academia para a Vida não é mais um "enclave do ideologicamente puro"

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21 Junho 2017

Alguns ativistas pró-vida estão chateados com a nomeação do Rev. Nigel Biggar, um clérigo anglicano e teólogo moral, para a Pontifícia Academia para a Vida. Ele é Professor Régio de Teologia Moral e Pastoral da Christchurch College, em Oxford, e diretor do Centro McDonald de Teologia, Ética e Vida Pública. Ele foi recomendado pelo arcebispo de Canterbury, Justin Welby, que foi convidado a enviar um representante. Sua indicação também é um sinal de que o Papa Francisco quer um maior envolvimento da Academia com o mundo.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 20-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

As críticas de ex-membros da Pontifícia Academia para a Vida (PAV) às pessoas apontadas para o conselho consultivo do Papa sobre questões de vida ilustra perfeitamente por que a reforma foi necessária.

Seu principal alvo foi o Rev. Nigel Biggar, um clérigo anglicano e teólogo moral que é Professor Régio de Teologia Moral e Pastoral na Christchurch College, em Oxford, e diretor do Centro McDonald de Teologia, Ética e Vida Pública. Ele é um dos vários não católicos que estão entre os 45 novos membros advindos de 27 países anunciados na semana passada.

Ex-membros, como o bioeticista britânico Luke Gormally e Christine Vollmer, presidente da Aliança Latino-Americana para a Família, disseram que a nomeação de Biggar era um "escândalo" e "chocante", pois o teólogo comentou, em uma entrevista, que achava que o aborto poderia ser moralmente permitido até 18 semanas desde a concepção (uma posição mais conservadora, já que a lei britânica permite o aborto até 24 semanas).

Essa não é, obviamente, a posição da Igreja Católica, que, como aponta o novo presidente da PAV, o arcebispo Vincenzo Paglia, está "a serviço e em defesa da vida desde o primeiro momento da concepção até o sopro final".

Mas é uma posição tipicamente anglicana: evita o absolutismo e procura se envolver com as opiniões dominantes por uma espécie de meio termo.

É por isso, certamente, que Biggar foi convidado para ser membro: não porque ele concorda com a posição católica em tudo, mas porque ele é uma importante voz pró-vida anglicana que tem extensos escritos contra a legalização da eutanásia. Ele foi recomendado pelo arcebispo de Canterbury, Justin Welby, a pedido de Paglia, que solicitou a indicação de um importante eticista.

Biggar é um dos poucos nomes indicados no intuito de ampliar a adesão à PAV, para construir um consenso pró-vida para além das divisões religiosas, sempre que possível.

Também foram nomeados dois judeus - o rabino Fernando Szlajen, rabino argentino com uma vasta experiência em bioética, e Avraham Steinberg, diretor judeu da Unidade de Ética Médica do Centro Médico Shaare Zedek em Jerusalém -, bem como um muçulmano, Mohamed Haddad, professor de civilização árabe e religião comparada na Universidade de Carthage, na Tunísia. Eles também devem discordar em alguns pontos do ensino pró-vida católico.

Mas a inclusão deles é "um sinal de que a proteção e promoção da vida humana não conhecem divisões e só podem ser garantidas pelo esforço comum", afirma Paglia. Em outras palavras, o objetivo da Academia é dialogar, ajudando a construir um consenso pró-vida.

Desta forma, Paglia está alinhando a PAV com outros think-tanks do Vaticano, como a Academia para a Ciência, que tem não-crentes como membros, e a Academia de Ciências Sociais, que inclui materialistas.

Eles não participam por concordar com a Igreja Católica, mas porque compartilham certos valores, o que contribui para o diálogo entre eles e a causa.

A ideia de que a PAV - criado em 1994 por São João Paulo II – tinha de ser um enclave para os ideologicamente puros era uma aberração que, na prática, levou a problemas intermináveis. O veterano do Vaticano Sandro Magister, chegou a chamar a PAV de "Pontifícia Academia da Briga Incessante", porque um grupo de membros radicais - como Gormally e Vollmer - criticava autoridades do Vaticano e até os papas que não demonstrassem rigor ideológico.

Há inúmeros exemplos, mas é difícil esquecer a perseguição a Bento XVI ao sugerir, em seu livro de entrevistas Luz do mundo, de 2012, que uma prostituta que usa preservativo para prevenir a transmissão do HIV/ AIDS estaria no início de uma jornada moral. Gormally e Vollmer, entre outros, não só disseram que o Papa estava errado, mas também que ele era teologicamente incompetente e complacente consigo mesmo ao levantar a questão.

Na verdade, o Papa estava gentilmente argumentando a favor do eticista do Opus Dei e consultor da CDF, padre Martin Rhonheimer, que há muito se opunha às alegações desses membros sobre o ensino católico em tais circunstâncias.

Quando o Papa Francisco reescreveu os estatutos da PAV e nomeou Paglia para liderar a Academia, ele queria justamente evitar a situação em que pessoas com visões profundamente conservadoras criassem uma espécie de contra-magistério, semeando confusão sobre os ensinamentos da Igreja.

Vários dos novos membros da PAV são católicos notáveis, conhecidos por seu testemunho pró-vida e fidelidade à doutrina católica, bem como especialistas - entre eles um ganhador do Prêmio Nobel de Medicina - que trarão grande credibilidade e conteúdo intelectual à PAV. Eles representam, segundo Paglia, a "paixão pela vida humana" na Academia.

Mas eles também representam uma tentativa de Francisco e de Paglia de se libertar do sufocamento de um ativismo pró-vida intimamente ligado à política tradicional e conservadora de valores familiares, o que prejudicou a credibilidade da PAV e impediu seu testemunho pró-vida. (Gormally, por exemplo, é um dos vários tradicionalistas signatários da carta que afirma que Amoris Laetitia é "perigosa para a fé e a moral católicas").

Em seus novos estatutos, Francisco retira a posição pró-vida de um foco estreito em bioética e sexualidade, pedindo "a promoção de uma qualidade de vida humana que integre valores espirituais e materiais, para uma 'ecologia humana' autêntica, que pode ajudar a recuperar o equilíbrio original da criação entre a pessoa humana e o universo inteiro".

Entre as notáveis novas nomeações, está o filósofo e eticista mexicano Rodrigo Guerra López, que interpreta o discurso de Francisco no sentido de ampliar a bioética para levar em conta desenvolvimentos sociais mais amplos.

A menos que a posição pró-vida inclua compaixão para com os pobres e misericórdia para com aqueles que falharam, Guerra diz, em uma entrevista recente, que ela vai produzir "distorções que transformam a causa pró-vida em mais uma ideologia". Foi o que aconteceu na antiga PAV.

Como ele esclareceu em um e-mail ao Crux, Biggar foi nomeado devido à sua forte defesa contra a legalização do suicídio assistido, como o artigo bem fundamentado da Standpoint, e não por suas opiniões sobre o aborto, sobre o qual ele não escreveu quase nada.

A opinião dada por ele respondendo a uma pergunta em uma entrevista, há seis anos, foi em meio a uma preocupação em "manter um compromisso social geral para defender a vida humana afetada" e "colocar limites mais conservadores" do que o posicionamento e as leis atuais, disse ele ao Crux.

Em fevereiro de 2015, Biggar escreveu um artigo na Revista de Ética Médica (Journal of Medical Ethics) explicando seus motivos para defender uma maior restrição pró-vida nas leis, antes de perguntar, retoricamente, como sua fé influenciou seus pontos de vista.

Ele descreveu como o monoteísmo cristão faz com que ele veja todos como criaturas de um Pai divino, como o fato de ele seguir a Cristo faz com que ele aceite obrigações que podem ser onerosas para os outros, como sua visão da tradição profética da Bíblia faz com que ele seja sensível à situação dos fracos e vulneráveis, e como "cristão agostiniano" ele diz que "admite que não sabe em que momento um ser humano em desenvolvimento passa a ser uma pessoa merecedora do direito civil de não ser prejudicada em circunstâncias normais".

Muito melhor, ele diz, "é admitirmos a incerteza do status do feto do que fingirmos que não é uma consideração importante".

Ele conclui observando que "as raízes dos erros humanos atingem muito mais do que a mera ignorância ou a malformação social" e envolvem "amar as coisas erradas ou amar as coisas corretas do jeito errado". O perigo que uma sociedade liberal que enfatiza a liberdade individual enfrenta "é que ela cria uma sociedade cujos cidadãos são psiquicamente incapazes de ver além de seus próprios apetites inflados e prestar a devida atenção às necessidades legítimas dos outros".

Tal sociedade, diz ele, "gera cidadãos que podem ser descuidados com os outros, principalmente com os fetos, que mal conseguem dar qualquer retorno".

Com todo o devido respeito a alguns bioeticistas católicos, parece que este tipo de raciocínio de princípios cristãos também faltou em alguns dos nossos testemunhos pró-vida.

Ao invés da linguagem desagradável que considera algo "chocante" e "escandaloso", devemos dar as boas-vindas aos especialistas não católicos, como Biggar, e dizer: "Obrigado por investir o seu tempo na PAV; nós - e a causa pró-vida - nos beneficiaremos muito de sua presença.

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