‘As cidades funcionam em torno de interesses’, diz diretor de filme sobre ‘Cidades Fantasmas’

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20 Junho 2017

As primeiras imagens de “Cidades Fantasmas” mostram um cemitério que os vivos já não visitam mais. Cruzes enferrujadas, areia cercando todo o local, pedaço de mar que está a poucos metros e uma voz em off que fala de alguém voltando à cidade de seu passado para buscar um pedaço seu que só existe na memória. “Já sentiram alguma vez a melancolia profunda e amarga que se sente e desprende de uma casa abandonada e de um muro em ruínas?”, pergunta o narrador.

A entrevista é de Fernanda Canofre, publicada por Sul21, 18-06-2017.

Eis a entrevista.

Pelas memórias de ex-moradores de quatro cidades na América Latina que viveram ápices de sucesso e um esvaziamento repentino, o documentário dirigido pelo gaúcho Tyrell Spencer busca resgatar as histórias das cidades fantasmas. Começando por Humberstone, no Chile, que depois do fim do ciclo econômico da extração de salitre não teve mais razão de existir, passando pela icônica Fordlândia, na Amazônia paraense, para a andina Armero, na Colômbia, que morreu depois de ser atingida pela erupção de um vulcão, até Villa Epecuén, na Argentina, cidade que um dia fora uma famosa estação de águas medicinais.

Com grandes ciclos econômicos, que atraíram e criaram populações, para depois deixarem de existir em um passe, os quatro pontos geográficos do documentário, mostram histórias bem conhecidas pela América Latina. E ecoam uma forte referência do diretor durante o trajeto em busca das cidades sobre as coisas pouca gente lembra: Eduardo Galeano.


Morador de Humberstone, no Chile, visita as ruínas da cidade | Foto: Divulgação/Galo de Briga Filmes

Premiado como melhor filme no festival É Tudo Verdade deste ano e entrando no circuito comercial esta semana, o Sul21 conversou com Tyrell Spencer para entender suas motivações e o que cidades fantasmas têm a dizer sobre nós mesmos:

Como surgiu a ideia de um filme sobre cidades fantasmas?

Em 2011, eu já tinha participado da produção de um curta-metragem [ Madre Sal, 2011] na cidade de Epecuen, na Argentina, que é a última cidade do filme. Depois que a gente voltou de lá, já tinha uma curiosidade e alimentou mais. A gente tem uma produtora, eu e mais duas sócias, [chamada] Galo de Briga Filmes e todas as quartas-feiras a gente se reúne e recebe amigos para discutir ideias. Desses encontros, acabou surgindo, em 2014, a ideia das cidades fantasma e de buscar cidades que ainda tivessem tempo de ter ex-moradores. Que a gente pudesse levar essas pessoas para as cidades e pudesse entrevistar elas lá, nos contando sobre o ponto de vista delas. Em 2014 mesmo eu peguei dinheiro e a gente viajou pro Chile, gravamos um material lá, conhecemos Humberstone, entrevistamos os personagens do filme – a Maria e o Guillermo – e eu preparei um material promocional para tentar viabilizar o projeto. A ideia inicial era fazer uma série, que também acabou rolando. Ela vai ter mais quatro cidades do Brasil, além das quatro do filme.

Como tu escolheste essas quatro cidades que aparecem no filme?

O critério foi buscar as histórias que tiveram maior magnitude, que abrangeram mais pessoas, que tiveram mais impacto quando acabaram. Fordlândia, que foi construída pelo [Henry] Ford (em 1928), já é um ícone. A cidade não é totalmente fantasma, mas os prédios do Ford, toda essa ideia do Ford é um fantasma na cidade. A cidade surgiu para extrair látex e hoje não funciona mais para nada. Todo mundo vive nessa ilusão de que os americanos podem voltar. Existe esse fantasma lá. Eles ganharam um milhão de hectares de floresta e desmataram tudo, é uma história gigante. Armero, na Colômbia, onde morreram 25 mil pessoas pela erupção do vulcão [Nevado del Ruiz], também.

O que te chamou para contar as histórias dessas cidades?

As histórias das pessoas, de pessoas que pudessem voltar para as cidades e me dar histórias. Como a gente tem um grupo de amigos, estudamos muito estrutura narrativa. A gente sempre teve muito interesse, eu desde muito novo, em ouvir histórias de pessoas mais velhas, de ouvir esse arco onde elas contam uma história e te prendem e tu fica só na imaginação. Então, sempre tive curiosidade de explorar isso. Na pesquisa, a gente buscou esse tipo de gente, pessoas que pudessem criar imagem nas palavras, com arcos dramáticos e se juntar com as histórias das cidades.

O filme conta histórias dessas cidades que tiveram histórias grandes, como Fordlândia, mas ao mesmo tempo as cidades são mais um pano de fundo para a vida das pessoas. É a narrativa, a história oral delas. As pessoas são mesmo o fator central do filme, então?

A ideia de focar nas pessoas é justamente para fugir daquilo que as pessoas esperariam de um filme sobre cidades abandonadas. A gente queria mostrar algo diferente. Enquanto o pessoal esperava uma coisa histórica, pensamos em focar nos personagens, no que a gente já estuda em grupo. Isso foi um ganho para o filme. Tem um material humano grande dessas pessoas.


A cidade de Fordlândia, no Pará, ficou abandonada depois que a fábrica americana saiu da Amazônia | Foto: Divulgação/Galo de Briga Filmes

Quais as perguntas que te guiaram durante o caminho desse filme?

Antes de ir, comecei a procurar muitas coisas sobre a América Latina, ler [Eduardo] Galeano e buscar coisas para me inspirar. O que a gente viu na pesquisa de campo e o que a gente encontrava era justamente essa América Latina descrente, abandonada, muito explorada, onde o povo latino-americano não importa muita coisa. O que importa mesmo são os interesses. As cidades funcionam em torno de interesses. As tragédias, até de Armero que tinha uma questão entre o Estado e o narcotráfico, aquelas populações dos Andes viviam em função da plantação de coca, existem muitas questões que são jogo de interesses, de um povo também esquecido pelo governo e que acabava sendo mais simpático ao narcotráfico, porque era quem supria as necessidades deles. Tem toda uma questão em jogo, em que as pessoas acabam sendo irrelevantes, porque o que importa mais é o interesse econômico das coisas. Quando a gente foi fazer a pesquisa, isso foi aparecendo, aparecendo e virou um paralelo que a gente já buscava. Essa América Latina colonizada, explorada, foi bem o que a gente encontrou.

Apesar de essas cidades terem contextos bem específicos, como a chegada de uma fábrica da Ford, a erupção de um vulcão, a indústria de salitre, elas também têm semelhanças. É esse traço latino-americano que tu estás falando? Quais são as semelhanças que tu destacaria?

Em todos os casos, as pessoas foram abandonadas, de todas as cidades. Desde Epecuen, que era turístico, que não era tanto de exploração como nas minas ou em Fordlândia, mas a questão é que o povo, as pessoas comuns não importam. O interesse pelas pessoas não existe. Isso é uma coisa em comum no Brasil todo, até em outras cidades que não estão no filme, foi o que a gente encontrou bastante.

Os personagens do filme falam muito em ter a memória preservada, que a história não se perca. O que tu sentiu que liga essas pessoas a esses espaços, mesmo depois que eles já não tem ninguém circulando por lá?

O que essas pessoas todas temem, ao mesmo tempo que tem esse descaso, elas têm uma necessidade de manter a memória viva, para manter a dignidade delas viva. Isso é uma coisa que a gente encontrou em todos os lugares. Tanto no senhor que entrou na casa em Fordlândia, que é uma casa abandonada, e querem correr ele dali. Ele diz, “não, mas eu conheço isso aqui, eu posso manter isso aqui”. A senhora lá de Humberstone, Maria, ela tem a história afetiva dali, dos avós. Humberstone tem uma história grande, teve um ciclo de mais de cem anos da extração do salitre, tinha uma cultura própria. Quando isso tudo ruiu, as pessoas foram enxotadas de lá, com toda sua história. Como se corressem a gente do Rio Grande do Sul, por exemplo, e a gente não tivesse mais como contar nossa história. Em Armero também, a Esperança, uma senhora que perdeu o filho lá, conta que ninguém está nem aí para eles. É uma questão muito da luta por dignidade dessas pessoas, eles lutam para que fique alguma coisa deles. Todo mundo quer deixar a sua marca.

Esse senhor de Fordlândia, funcionário público aposentado, fala sobre preservar a memória, mas também diz que resolveu ocupar porque não tinha lugar para morar. Como vocês viram essa questão habitacional?

Cada lugar é um caso. No Chile, por exemplo, deram umas casas, uma espécie de contêineres, e foram jogados nas cidades portuárias de onde saia o salitre. Fordlândia eles ficaram, umas pessoas foram embora, outras estão ocupando as casas de volta. Ali o caso é diferente, porque a Vila Americana, são casas grandes no meio do mato, onde não tem nada, porque demora cinco horas para chegar numa lancha, que é o transporte mais rápido. Algumas pessoas foram para lá, o Expedito ocupou uma das casas e as outras pessoas começaram a se incomodar com ele. Ninguém nunca tinha se interessado pelas casas, mas agora que ele está lá, querem tirar ele. É uma questão muito do lugar. Armero foi uma tragédia, as pessoas que sobreviveram, que ainda está ali, a maioria não recebeu nada. Morreram 18 pessoas, quase não se fala mais sobre isso, as pessoas não tiveram mais respostas. Em Epecuen, as pessoas que estavam ali acabaram recebendo um dinheiro, tinham casas na cidade do lado, ali não teve essa grande questão de perder coisas. Foi o menos trágico. Nessa questão de habitação, cada lugar é peculiar.


Humberstone, no Chile, foi abandonada quando terminou o ciclo de exploração do salitre | Foto: Divulgação/Galo de Briga Filmes

Quais são as cidades que vão aparecer na série de TV e não estão no filme?

As vilas de Minas do Camaquã, aqui no Rio Grande do Sul, que é bem interessante, teve vários ciclos de mineração, teve a Companhia Brasileira do Cobre (CBC), tem um monte de histórias, muitas casas abandonadas que eu nem imaginava. Tem Ararapira, uma cidade na divisa do Paraná e São Paulo, uma cidade portuária, uma das mais antigas do Brasil. Hoje ela meio que não existe porque tem uma reserva ambiental, então as pessoas não podem mais ocupar as casas, mas as casas ainda existem. Tem também Vila do Ventura, na Bahia, na Chapada Diamantina, que é uma vila que vivia da extração do carbonato, um diamante negro, usado para fazer perfuração de poços. Durante a Segunda Guerra, os alemães inventaram um sintético com o petróleo e aí não serviu mais para nada, perdeu o valor econômico. Junto com toda a Chapada Diamantina que ficou decadente. E tem a cidade que eu mais gosto de todas, que é Cococí, no interior do Ceará, quase divisa com o Piauí, que é uma vila dentro da terra dos Feitosa, pessoas muito poderosas de lá. Eles eram uma sesmaria e essa cidade funcionava dentro da fazenda deles. O dinheiro dos impostos entrava pra cidade, acabava distribuído para a família. Tinham pessoas que recebiam pela prefeitura e não trabalhavam, era a casa do major, havia uma escola, mas ninguém trabalhava.

Uma história do coronelismo clássico?

É, quase um sistema feudal. As pessoas trabalhavam para eles, davam metade da produção e se mantinham com a outra parte. Pra chegar nessa cidade, a gente atravessou muitas fazendas e são muitas casinhas ali. Em cada fazenda, a gente encontra pessoas que são muito felizes porque pagam luz e não precisam pagar pra morar. Daí tu conversa com elas: “tá, mas como funciona?”. “Ah, eu cuido do gado dele e ganho um pouco de coisa. Eu planto tal coisa, ganho algo em troca”. Então, segue o mesmo sistema. Ela pode morar ali para produzir, mas não recebem nada. Tem várias famílias ainda assim lá. [Nessa cidade que entrou na série], ainda tem duas famílias morando, esse episódio gira em torno dessas duas famílias ali. É bem interessante, são pessoas muito simples, do meio do sertão. Nos davam a pouca comida que tinham, queriam que a gente ficasse, pessoas muito queridas. E aí eu fiquei com apego afetivo pelo lugar.

E o caso do RS, em Minas do Camaquã, como foi? Foi fácil encontrar pessoas querendo falar sobre o passado?

Foi uma questão grande, porque a gente foi fazer a pesquisa e encontrou um cara que estava nos ajudando a encontrar as pessoas. Só que tinha um problema com a coisa de “cidade fantasma”. Na verdade, ele mesmo tinha dado uma entrevista para outro lugar falando como se a cidade fosse fantasma e o pessoal ficou brabo com ele. A gente mandou um ofício explicando as coisas, mas do nada ele não quis mais conversar com a gente e tinha entregado um ofício para quase toda a cidade que não falassem com a gente, que não nos dessem entrevista. Mas a ênfase da série nem era essa, era ouvir as histórias. Foi um pouco difícil. Os roteiristas do filme foram até lá para tentar produzir com outras pessoas, encontramos o Jair, um minerador que trabalhava dentro da mina e conta como funcionava a cidade das vilas. Tem um engenheiro que tem um pousada e que trabalhava, com a esposa, para a CBC, então a gente acabou fazendo um contexto social interessante. Que era o engenheiro de fora, essa mulher que casou com o engenheiro e trabalhava em outro setor mais burocrático e o minerador que descia nas minas. Mas acho que foi a mais difícil das cidades, das pessoas quererem nos contar as coisas.


A população da colombiana Armero viu sua cidade morrer depois da erupção do vulcão Nevado del Ruiz | Foto: Divulgação/Galo de Briga Filmes

O fato de tu seres natural de Uruguaiana, uma terra de fronteira, teve uma influência nessa vontade de ver teu filme dialogando com América Latina?

Sim, eu ouvia muita música nativista quando mais novo, minha cidade tem muita descendência indígena, tem muito negro que foi para lá para ser contingente militar, por causa da fronteira está lá o portunhol. Tem uma questão ali de identidade que sempre me interessou e que a gente tentou botar no filme. Tu vai para o nordeste e percebe que é parecido em algumas coisas, vai para a Argentina percebe que parece um pouco com aquelas pessoas, vai para o Chile, a mesma coisa. Ser do interior me ajudou a buscar um pouco por essa identidade latina.

O filme foi premiado já em festivais, acabou de ganhar o É Tudo Verdade. O que tu sente que ecoa dele no público?

Essa questão, principalmente, da América Latina inexplorada, isso é o que as pessoas se identificam no filme de cara. Mas acho que tem outras coisas, que foi nossa construção de imagem cinematográfica, de narrativa. Eu tenho outros curtas, onde sempre me preocupei com a questão estética do filme e sempre trabalhei com fotógrafos muito bons. Acho que o filme ficou diferente, porque a gente tentou primar pela questão estética.

Tu visitaste cinco cidades que foram abandonadas. A questão do território é algo que nos pauta muito historicamente, tanto no meio urbano, quanto no meio rural. Como tu achas que essas cidades fantasmas tocam nesse traço?

Já me fizeram essa pergunta, mas eu prefiro não me aprofundar nessa história. No Brasil, a gente não preserva nada, nem a identidade indígena. Agora estão discutindo a remarcação da Amazônia. Já existe a terra, eles não podem desmatar, tem índios ali, se permitirem o desmatamento, o que vai acontecer com essas pessoas? Não existe uma questão de preservação, nem de identidade. Continua sendo uma questão exploratória. Vai ver o livro do Galeano, (As Veias Abertas da América Latina) com quase 40 anos de idade e tu encontra as mesmas coisas ainda hoje.


Villa Epecuén, na Argentina, perdeu a população depois de uma enchente | Foto: Divulgação/Galo de Briga Filmes

Vocês têm ideias para seguir a série, mais histórias de cidades fantasmas?

Tem, mas não seria mais na América Latina. Onde eu mais gostaria de ir agora é para Ásia e Oriente Médio. Na China, tem duas cidades construídas onde ninguém foi morar, cidades para quase dois milhões de pessoas e sem ninguém. É uma questão de lavagem de dinheiro, uma cidade inteira construída por empreiteiras, com dinheiro do Estado e que ninguém comprou. Mais ou menos o que aconteceu aqui com vários empreendimentos. No Japão, também tem uma ilha que está abandonada, com uma senhora que vive sozinha na cidade e ela faz fantoches e coloca nos lugares para não se sentir sozinha.

Que debate vocês esperam trazer com essas questões levantadas pelo filme?

O que eu espero do filme é que as pessoas se sensibilizem com as histórias dos personagens. A gente foi lá e teve uma preocupação muito grande em respeitar o que eles nos disseram, não comprometer a imagem deles e deixar essa história que eles tinham necessidade de contar. Como da Esperança, que perdeu a filha e foi falar com a gente em Armero, com o senhor de Epecuen, o Pablo, que pediu direito de resposta porque falaram mal dele em um livro, o Expedito está ali firme e forte, tentando ficar na casa dele. Eu gostaria que a discussão ajudasse a ver esse lado das pessoas que perdem suas coisas, tanto no Brasil, quanto na América Latina, porque sempre vi os interesses serem mais fortes que os povos. Gostaria que isso gerasse discussões para as pessoas.

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